Só há um sítio no mundo onde é possível ouvir a discografia
completa dos Led Zeppelin em alta qualidade, de forma legal e sem
pagar absolutamente nada: Spotify.
Conseguir o exclusivo da banda de
rock britânica é uma das grandes vitórias do site de streaming de
música, ainda que signifique o fim da linha para as bandas de
tributo que preenchiam essa lacuna no catálogo do Spotify (R.I.P.
Led ZepAgain). É também uma das armas que o portal tem para se
diferenciar da concorrência e cumprir um propósito ambicioso:
"estar em todos os continentes e levar música a todas as pessoas
do planeta", diz Yann Thebault, o diretor do Spotify para o sul da
Europa.
A introdução de uma versão gratuita para smartphones e tablets
é um marco nessa estratégia. Até agora, o Spotify só estava
disponível no móvel para os utilizadores que assinassem o serviço
premium. Para aceder à versão gratuita era preciso entrar via PC, o
que limitava o alcance da plataforma em relação a concorrentes como
a Pandora (que não há em Portugal).
Tudo mudou na semana passada,
quando o CEO do Spotify, Daniel Ek, anunciou o "Shuffle Play",
uma forma de aceder às listas de reprodução no smartphone e
tablet, completamente de borla. É claro que existe uma moeda de
troca: o utilizador não pode escolher qual a música que vem a
seguir, e ouve anúncios a espaços - de resto, tal como na versão
web. É a publicidade que sustenta o Spotify, que tem 24 milhões de
utilizadores ativos por mês.
Leia mais: Spotify grátis em smartphones e tablets
"As empresas que estão a anunciar mais no Spotify são do ramo
automóvel, entretenimento e tecnologia. O Spotify tem uma marca
muito amistosa e inovadora, o que significa que é muito bom para
essas empresas estarem associadas e presentes no nosso serviço",
adianta Yann Thebault. "No que respeita ao envolvimento dos
utilizadores, que é muito importante para estas marcas, temos uma
das taxas mais elevadas da indústria. Os nossos utilizadores passam
mais de uma hora por dia na nossa plataforma. É uma forma excelente
de estas marcas interagirem com os seus clientes."
Quem paga pelo que é gratuito?
Tornar gratuito um serviço que até agora era pago - e que tem 6
milhões de assinantes - parece um suicídio financeiro no curto
prazo. Quem é que quer pagar por algo que pode ter gratuitamente?
Muita gente, acredita o Spotify. "O premium ainda é o produto com
a melhor experiência de utilização", sublinha Yann Thebault. O
utilizador pode sincronizar as músicas e ouvi-las offline (sem
acesso à internet), pode escolher o que quer ouvir, tem melhor
qualidade de áudio e não ouve publicidade. "Quando as pessoas
ouvem música gratuitamente, o nosso objetivo é envolvê-las. E
quanto mais elas se envolvem, mais disponíveis estão para pagar
pelo acesso à música", salienta o diretor para o sul da Europa.
"Também vemos que as pessoas que ouvem música no telemóvel ouvem
2,5 vezes mais que nos seus computadores."
Ou seja, lançar o serviço móvel gratuito não só vai fazer o
Spotify chegar a mais gente, como poderá aumentar o nível de
subscrição da versão paga.
Portugal tem preço especial
A situação económica em Portugal foi levada em conta quando o
Spotify entrou no mercado, em fevereiro de 2013 - seis anos depois de
ter sido criado na Suécia. Enquanto o serviço premium custa 9,99
euros em França, por exemplo, em Portugal o preço é 6,99 euros. Os
responsáveis europeus não revelam quantos utilizadores portugueses
já aderiram, nem à versão gratuita, nem à paga, mas deixam
entrever que a reação bateu todas as expectativas.
"Em Portugal,
o sucesso que tivemos mostra que as pessoas sabiam o que era o
Spotify, em especial porque os países vizinhos já tinham",
explica ao Dinheiro Vivo Marine Elgrichi, diretora de comunicação
da empresa no sul da Europa. "As pessoas estavam à espera de ter
uma solução destas no mercado."
Num país em que as vendas de música registam as piores quebras
da Europa, a par da Grécia, um serviço de streaming de música com
20 milhões de canções foi bem recebido por toda a gente. Até
pelos artistas, que demoraram algum tempo a aceitarem disponibilizar
o seu trabalho gratuitamente aos utilizadores.
"Podemos ver que os artistas têm uma melhor compreensão do
nosso modelo do que tinham antes, e quando vemos que grupos como os
Led Zeppelin estão a aderir, percebemos que o apelo do Spotify está
a crescer pelo lado dos artistas", adianta Marine Elgrichi. O
portal lançou um site específico, Spotify Artists, que explica aos
artistas como funciona o seu modelo de negócio e como os artistas
são pagos. "Em Portugal, o streaming é bastante novo. Claro que
existem muitas questões, mas basicamente tivemos uma grande receção
em Portugal." Exemplos disso são os lançamentos antecipados no
Spotify de alguns trabalhos, como o caso de "Ao vivo no Coliseu",
do fadista António Zambujo, que se estreou na plataforma online
antes de ir para as lojas.
Mas ainda há muitos artistas que se recusam a ter o seu trabalho
em serviços de streaming, como os AC/DC ou os Beatles. Ou que
boicotam serviços específicos: em junho, os Pink Floyd tomaram uma
posição contra a rádio online Pandora, acusando-a de roubar os
artistas. Os pequenos montantes que a maioria das bandas recebem pelo
streaming são um problema, um ponto em que o Spotify também se quer
diferenciar. "Já pagámos mil milhões de dólares à indústria
da música, desde a criação do Spotify", frisa Marine Elgrichi.
"Destes, 500 milhões foram pagos em 2013." Enquanto codifica
cerca de 20 mil novas músicas por dia, o portal aposta também nas
listas de reprodução especiais: há uma equipa de editores que só
se dedica a escolher playlists interessantes para recomendar aos
utilizadores, ou criá-las de raiz. "Pensamos que o streaming é o
futuro da música", afirma Yann Thebault . "Claro que ainda
haverá algumas pessoas que querem descarregar as suas músicas,
outras vão comprar vinis, mas no fim de contas está tudo
relacionado com a experiência de utilizador. Porque o Spotify é tão
conveniente e traz valor à indústria da música, achamos que é o
melhor modelo". Para os consumidores portugueses, habituados a
descarregar música ilegalmente, as vantagens são óbvias: não
ocupam espaço em disco, não correm o risco de descarregar vírus e
têm acesso ao catálogo da maioria das grandes editoras. Esta é
capaz de ser a melhor alternativa ao gratuito da indústria. E talvez
a única que funcione no futuro.