O físico teórico e cosmólogo Stephen Hawking, de 76 anos, morreu esta quarta-feira. Hawking era uma das figuras mais proeminentes e respeitadas na área da ciência pelo grande legado que construiu ao longo da sua vida. O britânico é conhecido sobretudo pelos trabalhos que permitiram perceber melhor o comportamento dos buracos negros, regiões do espaço com uma força gravitacional tão grande que nada lhes escapa.
Mas a figura de Stephen Hawking vai muito além dos seus contributos importantíssimos para o entendimento do Universo tal como o conhecemos. O investigador afirmou-se como um exemplo de inspiração, de força, de dedicação e de resiliência para pessoas de todas as idades, de todas as áreas e de todas as crenças.
A força do seu génio contrastava com a debilidade do seu corpo, duas características que sempre foram acompanhadas pelo sentido de humor e pela boa disposição que lhe eram reconhecidos. “A vida seria trágica se não fosse divertida”, disse uma vez, o que acabaria por ser uma das suas frases mais conhecidas.
Stephen Hawking, o homem, acabou por afirmar-se tanto como Hawking, o génio dos buracos negros.
A doença
Stephen Hawking foi diagnosticado aos 21 anos com esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa que faz perder o controlo sobre os músculos voluntários do corpo. O diagnóstico surgiu pouco tempo antes do cosmólogo casar com a sua primeira mulher, em 1964, e na altura os médicos não lhe deram mais do que dois a três anos de vida.
Apesar de ter perdido controlo do seu corpo, isso não foi uma limitação para Stephen Hawking, que continuou a investigar, a ensinar e a fazer uma vida recheada de grandes momentos. O britânico tornou-se assim num exemplo de inspiração para pessoas em todo o mundo e mostrou que nem a debilidade do corpo impede a vontade de querer fazer mais e melhor.
Em 1985, por culpa de uma pneumonia, o físico teve de ser submetido a uma traqueostomia, o que impediu Hawking de falar. Foi devido a este problema que Stephen Hawking começou a expressar-se através de um sintetizador de voz, o que acabaria por tornar-se num dos mais conhecidos exemplos de como a tecnologia pode ajudar a superar uma limitação física.
O livro
Foi em 1988, já com várias limitações físicas, que Stephen Hawking publicou o livro Uma Breve História do Tempo: do Big Bang aos Buracos Negros, uma obra que tornou-se num best-seller.
Estima-se que até hoje o livro tenha vendido mais de dez milhões de unidades em todo o mundo. Em Uma Breve História do Tempo, Stephen Hawking quis criar um manual que explicasse, em linguagem acessível, a teoria da formação do Universo tal como o conhecemos.
Apesar do sucesso comercial, o próprio Hawking considerava que este “era o livro mais popular que nunca foi lido”. Em 2005 foi lançada uma nova versão do livro, chamada Brevíssima História do Tempo, uma versão resumida do original e que incluia novas descobertas científicas na área da física e cosmologia.
Uma figura da cultura popular
Stephen Hawking tornou-se uma inspiração em diferentes áreas da cultura popular. Os exemplos mais conhecidos são, provavelmente, os três filmes biográficos inspirados na vida do cientista britânico. Uma Breve História do Tempo, baseado no título do livro publicado por Hawking, foi lançado em 1991 e assumiu um estilo mais documental, ao incluir entrevistas daqueles que eram mais próximos do cosmólogo.
Em 2004 a BBC fez um filme mais dramático, com o nome Hawking, que deu destaque ao trabalho do professor a partir do momento em que lhe foi diagnosticada a doença. Mais recentemente, em 2014, o filme a Teoria de Tudo trouxe para o grande ecrã o percurso do físico britânico e o filme destacou-se por uma interpretação de grande nível do ator Eddie Redmayne, que acabaria por lhe valer o Óscar de melhor ator principal.
Num outro domínio, Hawking participou em 2012 na série de comédia norte-americana The Big Bang Theory, uma das mais populares a nível mundial.
https://www.youtube.com/watch?v=wlrOKpQ6UBI
Já em 1999, o físico britânico tinha sido representado num episódio da série animada Simpsons. Numa entrevista em 2005, Stephen Hawking comentou a sátira que tinha sido feita à sua personagem: “A aparição nos Simpsons foi muito divertida. Mas eu não os levo demasiado a sério. Penso que Os Simpsons trataram a minha incapacidade de forma responsável”. Nesse episódio, a personagem de Hawking disse à personagem Homer Simpson que a sua teoria “de um universo em forma de donut era muito intrigante”.
Segundo o The Guardian, o britânico acabaria por ser representado em mais episódios dos Simpsons, também na série animada Futurama (do mesmo criador dos Simpsons), num episódio da série Star Trek: The Next Generation, serviu de inspiração para alguns compositores musicais e chegou a ter algumas palavras suas incluídas na música Keep Talking da banda Pink Floyd.
Um debate sobre religião
No livro Uma Breve História do Tempo, Stephen Hawking escreveu uma frase que gerou um debate público sobre se acreditava ou não na figura de Deus. “Seria o derradeiro triunfo da razão humana - aí conheceríamos a mente de Deus”, escreveu sobre a hipótese de um dia descobrirmos o motivo da existência do Universo.
O que para uns foi visto como uma frase que atestava a crença de Hawking em Deus, para outros não passava de uma metáfora. O próprio cosmólogo confirmaria anos depois que tratava-se de facto de uma metáfora e que era na realidade um ateísta, ou seja, uma pessoa que não tem qualquer crença em figuras divinas.
As frases marcantes
Além de tudo o que já foi dito até agora, Stephen Hawking destacou-se pelas suas frases marcantes. Algumas mais longas, e que englobam pensamentos mais complexos, outras mais simples, mas que remetem igualmente para a reflexão.
Por ser muito requisitado para palestras, foram várias as intervenções do físico teórico que se destacaram. Ficam alguns exemplos:
- “O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, é a ilusão de conhecimento”.
- “O meu objetivo é simples. É um entendimento completo do universo, a razão pela qual existe e pela qual existe sequer”.
- “Olha para as estrelas e não para os teus pés. Tenta fazer sentido daquilo que vês e pergunta-te sobre aquilo que faz o Universo existir”.
Os avisos sobre a inteligência artificial
Nos últimos anos Stephen Hawking tornou-se numa das principais vozes de alerta sobre os avanços que estão a ser feitos na área da inteligência artificial. Sem rodeios, o cientista disse mais do que uma vez que se os desenvolvimentos forem irresponsáveis, os humanos poderão estar a criar aquela que será a razão da sua destruição.
Em janeiro de 2015 Hawking assinou uma carta aberta - que contou com a assinatura de outras figuras respeitadas no mundo da ciência e da tecnologia, como Elon Musk - que alertava para os perigos da inteligência artificial. Nessa carta eram definidas algumas prioridades que os investigadores desta área deviam ter em conta nos seus trabalhos.
Mais recentemente, na abertura da edição de 2017 do Web Summit, Stephen Hawking voltou a deixar o alerta. “Criar uma inteligência artificial eficaz pode ser o melhor para a nossa civilização ou o pior – simplesmente não sabemos”.