O silêncio é aquilo que primeiro nos ocorre quando se passeia pela Ria de Aveiro a bordo do barco da Sterna Boat Tours. Ou melhor, a ausência de ruído do motor da embarcação, que é movida a energia solar, e, por isso, permite desfrutar em pleno da beleza natural do Salgado de Aveiro e das muitas espécies de animais que é possível encontrar ao longo dos seus mais de 200 quilómetros navegáveis. É o caso de aves como o perna-longa, o borrelho-de-coleira-interrompida ou a andorinha-do-mar-anã, que em latim se designa por sterna e que deu nome ao projeto do casal Sandra Oliveira e de Estêvão Castro.
Estêvão é licenciado em Gestão e Sandra em Gestão de Recursos Humanos, com uma larga experiência no acompanhamento a clientes numa empresa americana de navios de cruzeiro. Ele é o homem das contas, ela a gestora de projeto da Sterna, dedicando-se a tempo inteiro a esta atividade. Compraram o barco, movido a energia solar, em dezembro de 2019, e em janeiro de 2020 constituíram a empresa.
Mas entre burocracias várias a ultrapassar, só em março a Sterna fez o seu primeiro tour, pouco antes do primeiro confinamento geral. Um período que aproveitaram para reforçar a sua formação na área do turismo e da biodiversidade. "O confinamento assustou-nos, porque o investimento foi feito com recursos próprios, e embora não nos tenha sido favorável, permitiu-nos ganhar know how e maturidade", diz Estêvão Castro.
Aproveitaram os meses de para desenhar novos percursos, para se familiarizarem mais com a ria e os seus canais, mas também para estudar as aves e a "criar todo um storytelling" em torno do Salgado de Aveiro, a área da Ria ocupada pelas marinhas que se destinavam à produção artesanal de sal. A embarcação trabalhou, entre meio de junho e meio de setembro de 2020, essencialmente com clientes nacionais, mas neste ano já receberam belgas, franceses, espanhóis, britânicos, alemães e até clientes do Dubai. Os passeios são feitos por marcação e a Sterna conta com uma rede de parceiros locais, designadamente na hotelaria, para divulgar os seus serviços, mas 90% dos seus clientes vêm do online.
"São pessoas que vão à internet à procura de alternativas fora do turismo de massas, que procuram experiências diferenciadoras no âmbito do turismo de natureza, eco-sustentável, e com uma baixa pegada ambiental, e que nos encontram", diz Sandra Oliveira.
A Sterna organiza passeios diferenciados que vão desde os 45 a 60 minutos da "Experiência duas águas" - na qual se pode ficar a conhecer toda a história da formação da Ria de Aveiro e do Salgado - aos 90 a 120 minutos da "Experiência dos esteiros", que inclui uma degustação de produtos regionais. No primeiro caso, o preço é de 14 euros por adulto e de oito euros por criança. No passeio mais longo, o preço é de 28 e 15 euros, respetivamente. O barco tem capacidade para 10 pessoas e sai com mínimo de seis nos passeios mais curtos e um mínimo de quatro na "Experiência dos esteiros".
Há ainda o Birdwatching, para amantes de aves e, nesses casos, o programa é ajustado à vontade do cliente. No âmbito dos programas especiais, destaque para a chamada "Saída a dois", uma viagem complementada com espumante, doces regionais e fruta da época. Custa 120 euros por casal.
Sobre o futuro, Estêvão - que mantém a sua atividade profissional principal como técnico comercial numa multinacional - não tem dúvidas que a Sterna acabará por investir em novas embarcações - todas movidas a energia solar, naturalmente -, só não sabe é quando. "O nosso plano de negócios mudou. O ano de 2020 não é, sequer, o ano zero desta operação, é o ano menos um. Ficamos a 50% do nosso plano de negócios inicial, em termos de faturação, de clientes, de tudo. E os próximos dois anos são para aguentar a operação e depois, sim, começar a crescer", explica.
Sandra garante que o casal não está arrependido do passo dado. "Adaptamo-nos às novas circunstâncias, somos uma microperação, mas muito "arranjadinha", e queremos especializar-nos no Salgado de Aveiro e nas antigas marinhas do sal, hoje praticamente todas abandonadas, embora algumas tenham sido reconvertidas para a piscicultura e cultura de bivalves", diz. E há novos canais a serem dragados na Ria, o que vai acabar por gerar novos percursos.