Taleb Rifai."Uber e Airbnb devem ser integradas e pagar impostos"

"Não é nosso direito afastar as pessoas que não têm dinheiro suficiente para visitar uma cidade", sustenta o secretário-geral da OMT
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Portugal é um dos países que está a liderar a inovação na área do turismo, reconhece Taleb Rifai. O secretário-geral da Organização Mundial do Turismo mostrou-se surpreendido por esta aposta do nosso país. Desta inovação fazem parte empresas como a Uber e Airbnb, que devem ser integradas pelas regras da indústria do turismo e pagar impostos, defende em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Qual é a perceção do trabalho feito pelas startups portuguesas nesta área?

É uma das coisas mais impressionantes que vi durante a minha vinda a Portugal; é ainda mais impressionante porque não estava a par disso. Se eu não sei, 90% do mundo não sabe disto. Esta história tem de ser contada a todo o mundo. O turismo não é das indústrias mais inovadoras. Por exemplo, fomos capazes de pôr pessoas na Lua antes de colocarmos rodas nas malas de viagem. Isto mostra quão conservador é este setor. É preciso puxar pela inovação. Dos exemplos que vi, a monitorização e redução dos consumos de água [Optishower] é algo fantástico. São coisas simples, nas quais não pensamos. Se isto se contagiar, toda a indústria vai inovar.

O setor já está a par do poder da inovação destas startups?

Já têm noção, mas ainda vão demorar algum tempo até fazer algo em concreto. As pessoas são muito resistentes à mudança. Os hoteleiros são muito tradicionais: ainda existem os concierge de há 100 ou 200 anos; trocámos uma chave pesada por uma chave eletrónica para abrir as portas, mas há tanto por fazer… Vai ser preciso muito tempo. O facto de o Governo e o Turismo de Portugal liderarem este processo é memorável e deve receber crédito por isso. Os governos normalmente não estão disponíveis em coisas. Só pensam em aumentar os números.

Como está a indústria a responder a plataformas como a Uber e AirBnb?

Este é um fenómeno que está a crescer tão depressa que está a causar uma grande disrupção.

Boa ou má disrupção?

Se não conseguirmos manter isto sob controlo, será má. Se fizermos isto da forma certa, vai correr tudo bem. Por exemplo, nas cidades de Paris e Barcelona, 75% das casas são arrendadas de forma não tradicional. Precisamos de incentivar as regras certas e o jogo justo. É preciso registos; eles têm de pagar algum tipo de impostos. Os hoteleiros fazem isso. Além disso, os consumidores têm de ser protegidos ao nível da higiene e segurança. Mas também não podemos dizer que não queremos estas empresas e que elas devem fechar.

Qual é o equilíbrio possível?

Mais do que equilíbrio, é necessário integrar estas empresas mas nos termos da indústria. Isso é responsabilidade das autoridades locais e regionais, não dos governos centrais. Este fenómeno tem crescido muitíssimo nos últimos cinco anos e não há forma de o parar. Temos de trazer novas pessoas, porque isso beneficia diretamente os habitantes das cidades.

Devemos aceitar esta forma mais barata de fazer turismo?

Não é nosso direito afastar as pessoas que não têm dinheiro suficiente para visitar uma cidade. Todos têm direito a aproveitar. Não é uma questão de ser mais barato; é uma experiência completamente diferente viver numa casa do que num hotel. Gera novos grupos de interesse e de clientes. Há muitas coisas positivas.

Mas não devemos pensar sempre no retorno económico do turismo?

Mesmo se pensarmos no retorno económico do turismo tendo em conta este fenómeno, [a inovação] está a contribuir para a economia local e a dar dinheiro para as pessoas e não para as empresas. Tem várias virtudes. Devemos integrá-lo, mas regulá-lo.

As empresas tradicionais devem fazer parcerias ou comprar estas startups?

Têm várias opções: comprar não lhes vai resolver o problema, porque não vai eliminar a concorrência; alguns hotéis estão a criar unidades para explorar novas formas de negócio - isso é legítimo, desde que declarem isso. Devemos viver com isso. Estas empresas têm de pagar impostos e ser inspecionadas. De resto, deixem o mercado regular isso.

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