Licenciado em Lisboa pela IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação, e com um mestrado em Barcelona, Tiago Abreu tem já uma vasta experiência ligada ao design, em Portugal, Espanha, Itália e China. Desenhou máquinas de café, utensílios de cozinha e periféricos para computador, como teclados e ratos, e, desde outubro de 2015 que está na TCL Electronics, em Shenzhen, na China, sendo o responsável do X-LAB, o laboratório de design e inovação da empresa. Falou com o Dinheiro Vivo no Fuorisalone, a Semana de Design de Milão, onde esteve a dar a conhecer os protótipos dos que poderão vir a ser os televisores do futuro.
Por ano, quantos projetos de investigação têm no laboratório e quantos deles chegam ao mercado efetivamente?
Se os contabilizarmos desde a sua fase mais inicial, estamos a falar de mais de 50 projetos, que passam por vários estágios de validação. São projetos que entram no pipeline da inovação e vão sendo reduzidos até acabarmos com um ou dois working prototypes [é um protótipo que representa já todas ou quase todas as funcionalidades do produto final]. Mas que podem ou não chegar ao mercado.
Apresentaram três na Semana de Design de Milão. A ART TV+, cuja moldura pode ser costumizada para se adequar à decoração da casa, e que é acompanhada por um soundbar com 12 colunas, algumas das quais destacáveis, o Dune, um ecrã de 32 polegadas acoplado numa coluna de som, com rodas, que pode ser deslocado pela casa, e cujo ecrã roda para ficar na horizontal, e a Telly Table, uma mesa de sala de estar, em madeira e biocouro, com um ecrã LCD que convida à partilha de experiências de entretenimento. Há quanto tempo estavam a trabalhar neles?
Estávamos a trabalhar neles já há dois anos, grosso modo, embora todos eles tenham diferentes períodos de arranque e de finalização. Nenhum está ainda totalmente acabado. Os modelos servem-nos para mostrar a capacidade tecnológica da TCL para criar novas tipologias de produtos. Mas a chegada ao mercado, ou não, depende de vários fatores: da capacidade de ser produzido dentro do custo estipulado pelo valor do negócio, se o mercado está preparado para o receber e o tornar num produto mainstream que possa integrar o portefólio da TCL, e se o consumidor procura aquele produto e o valoriza. É da junção destes três fatores, capacidade tecnológica, modelo de negócio e apetência de consumidor, que se define o nível de risco para podermos avançar com a produção em massa.
Destes três protótipos, qual está mais próximo das mãos do consumidor?
A mesa, a Telly Tv, está ainda na fase conceptual. É uma visão a longo prazo que mostra de forma tangível o que a TCL tem capacidade de fazer para um dia, no futuro. Poderia ser lançada, eventualmente em três anos. Depois temos a inovação breakthrough, que pode ser o TCL Dune, que tem já uma diferenciação acrescida, mas não é de todo um produto disruptivo como é a mesa. A tecnologia que é usada está já mais desenvolvida, o que significa que está apta a chegar ao mercado com mais facilidade. Depois, temos o que é incremental, como a ART Tv+ que já está apta. Utiliza tecnologia corrente, desenvolvida pela TCL, e isso dá-nos a capacidade de confiar que, se o mercado estiver recetivo, estamos prontos para avançar.
O que falta então?
Agora é a fase que chamamos de incubação, de teste ao mercado, junto de alguns retalhistas e consumidores, para perceber qual é a apreciação geral e se há interesse.
Com esta Telly Table vem mostrar que o televisor pode ser uma coisa completamente distinta do que imaginamos?
O design está muito ligado ao que é a estética e a beleza, mas é muito mais, é experiência de uso, processos de fabrico, o ciclo de vida do produto e como ele pode ou não criar uma ligação emocional com os consumidores. Podíamos ter apresentado a Telly Table em Barcelona, no Mobile World Congress, mas quisemos fazê-lo aqui como homenagem ao design de mobiliário. Quanto à inovação, o importante é a capacidade de gerar novas linhas de negócio à empresa, olhando para onde é que a nossa tecnologia pode ser integrada no uso diário para que as pessoas tirem prazer da experiência que estão a ter. O que queremos é entregar conteúdo de valor ao consumidor dentro do seu espaço habitacional com a sua tecnologia.
Mas ainda podemos continuar a chamar a isto um televisor?
Eu chamo a isto uma mesa smart e interativa, não é um televisor. Aqui a experiência é que esta mesa tem a capacidade de entender quem está ao seu redor e de criar ações que promovam a interação humana. A tecnologia tem que servir para juntar as pessoas, para criar ambientes sociais e para que interajam, seja em casa ou nos espaços onde esta mesa possa vir a estar presente.
A TCL ganhou 28 prémios de design só em 2022 e já está a acumular novos prémios este ano. Em que medida é que isso influencia a forma como a empresa aposta no design?
A questão, no mercado empresarial, será como é que o design pode influenciar o nosso negócio. O reconhecimento dos prémios dá a conhecer à empresa que o design é apreciado, mas depois é preciso avaliar se o consumidor final aprecia ou não um valor extra ou o reconhecimento do design. E por isso fazemos estudos e sabemos, por exemplo, que o mercado europeu com maior apetência pelo design é a França, onde esse item aparece no top 3 das preferências dos consumidores. Esse conhecimento é importante para conseguirmos segmentar produtos de uma forma local. E é por isso que temos o intuito de criar um departamento de design na Europa. Isso está a ser avaliado internamente, mas ainda não há datas.
E onde ficará, em França?
Poderia ser. Lá está, se olharmos para o design numa questão de valor de negócio, França seria o mercado. Se olharmos para o design numa ótica de tendência, de moda, de lifestyle, se calhar a design hub deveria estar em Itália, Londres ou Paris. Mas ao fim e ao cabo a intenção deste departamento é começar de uma maneira que seja tangível. Que se crie valor fácil por termos o design presente no que é o dia-a-dia das dinâmicas empresariais da TCL. O meu foco não é criar design, é criar valor através do design.
* A jornalista viajou a Milão a convite da TCL