Teixeira dos Santos diz que críticas a Lagarde "foram despropositadas"

Em entrevista conjunta ao Público e à RR, ex-ministro considera que este "não é o momento para questionar o papel do BCE", embora admita que os apoios às famílias mais carenciadas devem continuar. Sobre a economia portuguesa alerta: "Um país que tem uma dívida que andará nos 110% do PIB não se pode iludir com a chamada folga orçamental"
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Fernando Teixeira dos Santos, economista e ex-ministro das Finanças de José Sócrates, considera "despropositadas" as críticas do Presidente da República, do primeiro-ministro e dos partidos políticos aos apelos deixados pela presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, para moderação nos aumentos salariais e retirada das medidas de ajuda às famílias e empresas em resposta ao aumento da inflação. Para este responsável a orientação da política monetária na zona euro "tem garantido a estabilidade de preços e taxas de juro mais razoáveis" e este "não é o momento para questionar o papel do BCE".

Em entrevista conjunta ao jornal Público e à Rádio Renascença, Teixeira dos Santos deixa avisos, designadamente em relação à tão falada folga orçamental. "Um país que tem uma dívida que andará nos 110% do PIB não se pode iludir com a chamada folga orçamental. A primeira grande preocupação que é preciso ter é a de reduzir a dívida que temos, porque a dívida que temos é um ónus muito pesado, não só sobre a geração presente, mas também sobre as gerações futuras. Não há folga orçamental enquanto houver uma dívida elevada", diz.

Folga essa, defende, que deve ser usada para reduzir o peso da dívida, mas também para alguns apoios sociais e alívio fiscal. Em especial do IRS, "uma vez que quem mais paga impostos" em Portugal são as famílias. No entanto, alerta, a descida dos impostos não poderão ser "muito significativas", porque "precisamos dos impostos para pagar as despesas e as despesas com o envelhecimento da população tendem a ser maiores".

Sobre a pressão inflacionista, e apesar de elogiar o trabalho do BCE na tentativa de fazer o diagnóstico e adotar as medidas adequadas para controlar a situação, o ex-ministro admite que as recomendações de Christine Lagarde para por fim aos apoios não são para seguir à letra. "Os governos, com os apoios que estão a dar, estão a alimentar a procura e portanto, há aqui uma contradição entre aquilo que é o sentido da política monetária, o seu impacto e aquilo que é o impacto das políticas de apoio, que são políticas expansionistas da procura. Por isso, as medidas de apoio têm que ser muito bem pensadas. São incontornáveis porque há famílias muito afectadas com esta conjuntura, com este agravamento de preços, com o aumento das taxas de juro. Não podemos é ter apoios para toda a gente porque essas seriam contraproducentes para com a política monetária anti-inflacionista do Banco Central Europeu (BCE)", diz.

Para Teixeira dos Santos, os apoios no domínio dos combustíveis "já não se justificam", mas as ajudas às famílias de rendimentos mais baixos "devem manter-se enquanto houver pressão da inflação e da subida dos juros".

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