Numa altura em que se fala muito dos empregos do futuro, existem milhares de jovens que ganham a vida a jogar. Não é futebol, nem tão pouco basquetebol ou póquer. Os atletas digitais, à semelhança dos jogadores de futebol, são disputados pelas melhores equipas, ganham contratos e competem em torneios em que tudo pode acontecer.
Falamos dos eSports ou dos jogos eletrónicos. Clement Ivanov nasceu, cresceu e vive na Estónia. Aos 28 anos, é um dos melhores jogadores de Dota 2. O jogo, também conhecido como Defense of the Ancients 2, é um dos mais populares na arena global dos eSports e o ano passado, na competição principal chamada The International, contou com 92 milhões de visitantes online, a maior parte vinda da China. No total, no evento, foram vistas 509 horas de jogos.
Em que consiste o Dota 2? Quem vê pela primeira vez pode ficar impressionado com o ritmo incrível das personagens animadas, os efeitos especiais e as muitas batalhas. Para Clement, mais conhecido como Puppey, ao ponto de ter a sua própria página de Wikipedia, é o pão nosso de cada dia. Cada personagem é um peão num jogo de estratégia semelhante ao xadrez.
Ao MIT Review o atleta digital explica o seu fascínio: “podemos jogar individualmente com cada personagem e há sempre um tipo que percebe o potencial completo de cada papel”. Ao chegar a um certo nível “a estratégia é mais importante do que o tempo de reação”.
Puppey tornou-se profissional em 2010, com 20 anos. Hoje é capitão da equipa Team Secret e é um dos mais conhecidos no circuito. Só em prémios monetários de 93 torneios já amealhou 1,4 milhões de euros. Num desporto que, de acordo com a empresa de estatísticas SuperData superou em 2017 os 1,3 mil milhões de euros em receitas, o próximo desafio pode ser tornarem-se mais mediáticos a nível global. Para isso pode ajudar se avançar a proposta de tornar os eSports numa modalidade dos Jogos Olímpicos de 2024.
Ivanov é um dos jogadores que atingiu a fama neste nicho dos eSports. “Este emprego é mesmo um hobby que se tornou numa carreira estranha”, explica o jovem cuja carreira só descolou em 2011, com a primeira vitória na tal competição principal The International: “antes da competição éramos pobres e não fazíamos nada profissionalmente”. As vitórias mudaram-lhe a vida, trazendo dinheiro, respeito e fãs.
Ivanov é dos poucos que consegue ganhar a vida com o dinheiro dos prémios das competições. São apenas 500 as pessoas a nível mundial que ganham mais de 150 mil dólares em prémios. Além disso, os atletas digitais vivem dos patrocínios – aí o jogo Counter-Strike (também muito popular em Portugal) é dos que consegue mais patrocinadores.
O futuro dos gamers para Ivanov
Clement Ivanov, como veterano dos eSports que já é, não acredita que a sua vida vá mudar muito com a influência de tecnologias como a inteligência artificial e a realidade virtual. “Já há alguns anos que se fala que este tipo de tecnologias ia mudar o mundo dos jogos, mas não mudou pouco”, explica o gamer.
Apesar de conhecer casos de software de Inteligência Artificial que treinam jogos Dota e competem contra jogadores humanos, dominando por completo, explica que “os torneios estão limitados aos jogadores humanos”. Por isso, garante que o software não vai tirar o lugar aos jogadores no futuro próximo”.
O que está mesmo a mudar é que cada vez mais jogadores procuram o caminho de uma carreira e tornarem-se em jogadores profissionais. O que deixa uma dúvida importante no ar: “ainda não sabemos até que idade um jogador pode ir e continuar a ser tão bom quanto os outros”. Embora já existam jogadores com o dobro da idade de quem está a começar.
Os fãs também estão a aumentar. Clement acredita que vai chegar a todas as idades: “Os eSports já estão na nossa cultura e quem tem 25 anos já sabe bem o que são, só pessoas acima dos 50 é que ainda não percebem, mas é uma questão de tempo”.