TikTok, Truth Social e a indústria da propaganda

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A primeira regra da propaganda, diz quem sabe, é que não deve parecer propaganda. Para que o condicionamento funcione, ele tem de ser invisível. Quem é persuadido por propaganda nunca pensa que foi alvo dela. Essa é a sua magia - e o seu paradoxo.

A ligação da rede social TikTok aos formatos modernos de propaganda é uma discussão que tem oscilado nos últimos anos e voltou a estar em foco recentemente por causa de uma análise da Forbes. A revista utilizou informação pública para determinar que 300 funcionários da ByteDance, casa-mãe da TikTok, são ex-empregados de empresas de comunicação estatal da China. Quinze deles operam em simultâneo na ByteDance e em orgãos de comunicação do regime comunista. E pelo menos cinquenta trabalham directamente na TikTok.

É difícil não concluir que há ligações fortes entre o aparelho de propaganda chinês e uma das redes sociais mais proeminentes do mercado, com 200 milhões de downloads e 138 milhões de utilizadores activos nos Estados Unidos e mais de 100 milhões na Europa.

Não é algo novo. Em Junho, o BuzzFeed revelou que a informação de utilizadores nos Estados Unidos estava a ser repetidamente acedida a partir da China. No ano passado, um executivo da rede social testemunhou no congresso e garantiu que a TikTok não partilha informação com o governo chinês.

Mas a popular rede é cada vez mais considerada uma ameaça à segurança nacional e o presidente Joe Biden está sob pressão para tomar medidas, dois anos depois de Trump ter ameaçado banir o seu acesso nos EUA.

Se a TikTok é um cavalo de Tróia do aparelho chinês é algo que não podemos destrinçar neste momento. Mas também não seria surpreendente se a rede social estivesse ela própria a ser alvo de uma campanha de suspeição fundamentada na sua origem e em nada mais. Daria um jeito tremendo a *certas* redes sociais norte-americanas que esta ameaça crescente ao seu domínio fosse travada.

Aí, os detractores da TikTok como um braço da propaganda chinesa estariam a ser vítima de condicionamento sem o perceberem. Mais umas voltas no exercício do questionamento e deixamos de conseguir acreditar seja no que for.

E isto é particularmente importante neste hemisfério, onde a desinformação reina suprema disfarçada de verdade que veio ao de cima. Há muito que o papel das redes sociais deixou de ser o de conectar o mundo e se focou em conectar tribos. Os anti-vacinas, os Terra Plana, os veganos, os cross-fitters, os supremacistas brancos, os negacionistas do clima, os ateus, a máfia da Disney, os mártires do 6 de Janeiro. Enfim.

A actualidade tem contornos bastante diferentes conforme os meios que se consomem. O que torna a rede social do ex-presidente Donald Trump, Truth Social, também ela um braço do aparelho de propaganda da sua plataforma. Aqui, o FBI é um antro de corrupção e as teorias QAnon são repassadas pelo ex-chefe de governo. A rede tem servido como base de defesa de Trump perante os sinais cada vez mais claros de que está a ser investigado e poderá enfrentar consequências jurídicas das suas acções dentro da Casa Branca e depois de deixar o cargo de presidente.

No entanto, para muitos alvos da propaganda é possível que seja tarde demais. A propaganda tornou-se invisível e os mecanismos de raciocínio vão trabalhar sem parar para acomodar nova informação.

Esse é o condicionamento mais poderoso de todos - aquele que opera de forma subliminar e tão convincente que o alvo se torna o agente de propagação. São tempos incríveis, estes. É agora muito mais difícil lutar contra a desinformação, especialmente política. Resta-nos tentar que a sua eficácia seja igualmente árdua de conseguir.

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