Tina Turner, Ike Turner: direitos e dinheiros de autor

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É sabido que Tina Turner (née Anna Mae Bullock) teve estreito contacto com inúmeras adversidades, atribulações, agruras e privações.

Passou os primeiros anos de vida laborando num campo de algodão ao lado dos progenitores, foi abandonada por mãe e pai quando tinha, respectivamente, 10 e 13 anos de idade, contraiu matrimónio com Ike Turner aos 22 anos e foi, ao longo de 16 anos, alvo de abuso doméstico (que incluiu fracturas no nariz e no maxilar, traumas oculares e queimaduras).

Em 1976 requereu o divórcio, o qual garantiu juridicamente a sua liberdade e a sua integridade física, privando-a, contudo, de qualquer salvaguarda monetária.

Perdeu, entre outras coisas, os direitos autorais relativos a toda e qualquer gravação feita pelo casal, como, por exemplo, "Proud Mary", música que havia alcançado o 4º lugar da Billboard, levando à atribuição a Ike & Tina Turner do seu único Grammy (como casal) e gerando bom dinheiro com regularidade.

Mas Tina Turner não desistiu, perseverou. Prosseguiu o seu sonho musical a solo, com resiliência, dignidade, autonomia e autenticidade inabaláveis.

Abraçou nesse processo o crescimento pessoal e a reinvenção, no âmbito de um mecanismo adaptativo que supostamente todos temos e que, como a grande Tina bem mostrou, pode conduzir à plenitude da existência. Um modelo a ser seguido.

Em 1983, sete anos depois do seu corajoso grito de independência, assinou contrato com a Capitol Records e lançou o célebre álbum "Private Dancer", que a catapultou para o topo do iceberg musical, no seio de uma carreira internacional que lhe granjeou múltiplos prémios.

Em 2021, ano em que entrou para o Rock and Roll Hall of Fame, Tina transferiu os direitos autorais atinentes ao seu catálogo musical para a BMG, bem como o direito ao uso do seu nome e imagem (para efeitos de merchandising) por, assim consta, mais de USD 50 milhões.

Ou seja, fez-se por fim justiça no que toca aos direitos e dinheiros de autor (que haviam ficado nas mãos do impiedoso Ike em 1978). Merecida recompensa para alguém que era "simply the best".

Rest in Peace Tina.

Patricia Akester é fundadora de GPI/IPO, Gabinete de Jurisconsultoria (www.gpi-ipo.com)

Nota: A autora não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

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