A escalada de sanções contra a Rússia impostas pelos Estados Unidos e adotadas pela União Europeia estão desenhadas para desacoplar violentamente a economia europeia da economia russa. Os Estados Unidos, instigadores desta estratégia de guerra económica, não têm qualquer ligação significativa com a economia russa pelo que as sanções impostas são genericamente inócuas para a sua economia ou até benéficas como acontece com o aumento do preço do gás de que esse país é exportador e agora se prepara para ser o grande fornecedor à Europa.
Quando vemos, porém, que a Rússia é o quinto destino das exportações da Alemanha para fora da União Europeia, percebemos o rombo que essa política está e vai causar na maior economia europeia de que a Alemanha tem sido o motor. Um autêntico tiro certeiro no porta-aviões europeu. A economia germânica, e por arrasto a europeia, vai levar anos a recompor-se. Percebe-se, agora, melhor as vantagens para o Reino Unido do Brexit uma vez que o seu destino económico se desligou do futuro da União Europeia.
Mas não é só o gás mas também os cereais, produzidos na Ucrânia e na Russa, que terão de ser substituídos pelos produzidos noutros países, nomeadamente nos Estados Unidos, a preços mais caros. A lista é longa. Tudo isto vai pesar num período longo de inflação, receção, estagnação e declínio.
Com a Alemanha, previsivelmente, a entrar em forte recessão, quer pela perda do mercado russo, quer pela perda de competitividade advinda da troca de gás, os cereais e outros produtos russos, mais baratos, por bens de proveniência americana, mais caros, a União Europeia ver-se-á confrontada com múltiplas dificuldades económicas e sociais. A possibilidade de desintegração é grande. O exemplo do Reino Unido mostra que é possível prosperar fora da União Europeia. A tentação de lhe seguir o exemplo é grande.
A crise mostrou igualmente que a estratégia do eixo franco-alemão para a contenção da Rússia falhou redondamente e outros países nomeadamente a Leste como a Polónia, a Roménia e os Estados bálticos apoiadas pelos Estados Unidos, procurarão forçar outras abordagens, mais musculadas, a essa magna questão da convivência pacífica entre europeus. À medida que a Nato se reforça a União Europeia declina. O protagonismo do eixo franco-alemão desmoronou-se como se tem visto nos últimos tempos, incluindo nos sucessivos fracassos das mediáticas conversas entre Putin e Macron. Recentemente até o Presidente polaco se deu ao luxo de insultar publicamente o presidente francês como o relatou a imprensa francófona.
Entretanto a exigência de pagamento em rublos das suas exportações levou já a moeda russa a recuperar a sua cotação anterior à guerra. É que as sanções económicas à Rússia estão a ser implementadas basicamente pelos Estados Unidos, para quem são inócuas, e pela União Europeia, para quem são catastróficas. As restantes grandes economias do mundo, a China, a Índia, o Brasil, a Argentina, a África do Sul, não impõem quaisquer sanções à Rússia que assim pode desviar as suas exportações e as suas importações com relativa facilidade.
Eis como pretendendo combater um adversário se enfraquece um aliado concorrente e se substitui uma dependência por outra mais extensa, porque simultaneamente económica e militar. A União Europeia como projecto político estrategicamente autónomo morreu. Vai sobreviver como espaço económico integrado de comércio livre, mas a sua aspiração a potência mundial de primeiro nível apagou-se por muitas décadas.