Quando a Apple decidiu transferir parte da sua produção para a
Pegatron, em maio, a medida foi vista como uma resposta aos problemas
nas fábricas da Hon Hai Precision Industry, mais conhecida como
Foxconn.
Não só por questões de qualidade na produção, mas pelas
terríveis condições de trabalho que foram descobertas, incluindo
menores e horários acima do limite legal. Motins e suicídios nas
fábricas da Foxconn chamaram a atenção e levaram a Apple a pedir
melhorias e a transferir contratos para a Pegatron.
O problema é que o novo parceiro é ainda pior que o anterior.
Pelo menos foi o que concluiu um relatório do organismo que controla
as condições de trabalho, China Labor Watch, conhecido na semana
passada. O relatório diz que "as condições nestas fábricas são
tão más que a maioria dos trabalhadores se recusa a continuar a
trabalhar por muito mais tempo." O diretor do organismo, Li Qiang,
não tem dúvidas: "a nossa investigação mostrou que as condições
de trabalho nas fábricas da Pegatron são ainda piores que as da
Foxconn."
A Apple decidiu investigar a fundo as acusações, que refletem um
dos seus piores problemas: apesar de ser uma marca premium e com as
maiores margens de lucro da indústria tecnológica, não consegue
garantir condições de trabalho justas na cadeia de produção. E
não está sozinha nesta questão.
As condições de trabalho são o
ponto fraco de outros grandes grupos económicos, que recentemente se
viram envolvidos em escândalos. A Zara, o império da moda de
Amancio Ortega, está a ser investigada por trabalho escravo nas suas
fábricas na Argentina. Em abril, o regulador do país encontrou
trabalhadores imigrantes, incluindo crianças, a trabalharem nas
roupas da marca em "condições degradantes" e por mais de 13
horas por dia, sem permissão para saírem das instalações.
A
casa-mãe Inditex mostrou-se surpreendida pelas alegações, mas esta
não foi a primeira vez que apareceu envolvida num caso destes. Há
dois anos, foi acusada de aceitar trabalho escravo em fábricas no
Brasil, que subcontratava em regime de outsourcing.
A gigante de retalho online Amazon também teve problemas devido
às condições de trabalho. Em 2011, descobriu-se que os empregados
dos seus armazéns na Pensilvânia trabalhavam com temperaturas
superiores a 43 graus e tinham desmaios frequentes. Aqueles que se
revoltavam eram despedidos, segundo reportou o jornal Morning Call. A
Amazon reconheceu o problema e gastou 40 milhões de euros em ar
condicionado. Esta questão surgiu depois de outro episódio no Reino
Unido, em que o London Times reportou que a firma obrigava os
empregados a trabalhar sete dias por semana e penalizava-os por
tirarem baixa por doença.
Também no Reino Unido, a marca Starbucks sofreu um grande golpe
quando se soube que passou cinco anos sem pagar impostos. A cadeia de cafés pagou este ano cinco milhões de libras em impostos, mas o impacto na sua reputação foi muito negativo e chegou a beneficiar a afluência de clientes à cadeia rival Costa.
O caso da Starbucks foi dos mais mediáticos, mas não é o único. Google, Apple,
Microsoft e HP estão todas debaixo de fogo pelo uso de esquemas que
diminuem os impostos a pagar aos paíoses onde operam. A Comissão Europeia está a estudar formas de evitar estas "fugas" legais, que aproveitam lacunas para pagar somas irrisórias de impostos face aos rendimentos totais das subsidiárias.
Em França, a loja de mobiliário Ikea foi processada depois de
ter sido apanhada a espiar os seus empregados e clientes que fizeram
reclamações. Os executivos em causa foram todos despedidos, mas a
reputação da marca acabou por sofrer.