Trabalho híbrido veio para ficar, mas há desafios a ultrapassar

Ferramentas digitais e bem-estar dos colaboradores ganham cada vez mais peso no futuro do trabalho, defenderam especialistas durante o IDC FutureScape 2023, que se realizou esta quinta-feira em Lisboa
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A forma como as empresas organizam a sua força de trabalho mudou, definitivamente, com o embate da pandemia. A certeza é de Angela Salmeron, diretora de investigação na IDC e perita no tema, que sublinha o papel crescente da colaboração entre pessoas de carne e osso e ferramentas de automação, como a inteligência artificial (IA) ou o machine learning. "Cada vez mais, a IA está a fazer o nosso trabalho, a orientar-nos e a apoiar-nos no dia-a-dia", aponta a consultora, lembrando que serão as capacidades intrinsecamente humanas aquelas que vão fazer a diferença nas equipas. Ao evento anual IDC FutureScape 2023, que se realizou esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Salmeron levou algumas previsões sobre o futuro do trabalho.

Com os modelos remoto e híbrido a ganharem espaço nas operações das organizações, Angela Salmeron defende que é hoje "mais importante do que nunca" para os colaborares sentirem que têm "um propósito na função que desempenham", com significado e impacto no mundo. Esta nova exigência dos trabalhadores assume particular importância numa altura em que a escassez de talento é um dos maiores desafios enfrentados pelos gestores. "Quando as pessoas estão felizes no trabalho são produtivas. Isto é positivo para a empresa", assinala a especialista. Por isso, acredita, mais do que pensar no local onde cada colaborador vai desempenhar o seu papel, é fundamental garantir as condições ideais para que, independentemente do sítio, possam ser produtivos.

Entre as cinco tendências identificadas pela IDC, destaque para o papel da cibersegurança. "Até 2025, as empresas que apostem em soluções de segurança para modelos de trabalho híbrido e que desenvolvam uma cultura de confiança vão ter três vezes menos probabilidade de sofrer quebras de segurança", assegura. Além dos sistemas de proteção, é essencial "formar os colaboradores" e tornar "visível" os protocolos de segurança implementados para que todos tenham consciência "dos riscos que existem".

Por outro lado, acelerar a produtividade depende de um ambiente de trabalho que descomplique funções repetitivas e burocráticas, em especial para os trabalhadores da linha da frente. "São estes colaboradores que são o ponto mais próximo dos vossos clientes. Façam os vossos colaboradores felizes para terem clientes satisfeitos", afirma Salmeron. A consultora fala num aumento das receitas em 20% nas empresas que disponibilizem "acesso democrático a ferramentas de colaboração digital e automação de processos".

Adotar um sistema inteligente de gestão das ferramentas de trabalho é, também, um passo que as empresas devem dar na era do digital. "Este sistema vai permitir monitorizar toda a vossa operação e prever eventuais problemas, mas sobretudo permitir uma ação mais rápida e eficaz", exemplifica. Neste campo, e tendo em conta que a pesquisa da IDC aponta que 40% dos trabalhadores diz ter dificuldade em adaptar-se a novas tecnologias, a "formação é essencial". Para a IDC, os responsáveis tecnológicos das organizações que apostem em programas de adaptação digital vão conseguir um aumento de 40% na produtividade até 2025.

Desafios culturais e tecnológicos
O embate pandémico, em 2020, criou obstáculos à forma como as equipas se organizavam e foi necessário encontrar respostas tecnológicas para que o trabalho remoto fosse possível. Neste momento, diz Pedro Coelho, area category manager da HP Portugal, a dificuldade é equilibrar as pretensões dos empregadores com as dos colaboradores. "De um lado temos os empregadores a pedir aos colaboradores que regressem ao escritório e, do outro, temos os trabalhadores a dizer que só voltam quando se justificar e que até são mais produtivos em remoto", aponta.

De acordo com um inquérito da HP, 60% das empresas reconhece, porém, que o modelo híbrido se tornou estratégico para as suas operações e apenas 5% acredita que não é importante. "2023 será o ano da recalibração híbrida", defende Pedro Coelho, em referência à adaptação dos escritórios para, por exemplo, terem mais espaço dedicado a reuniões colaborativas e menos para secretárias individuais.

"A tecnologia já existe e os desafios tecnológicos podem ser resolvidos. Temos de ter também a vontade de mudar culturalmente e redefinir a forma como vamos trabalhar daqui para a frente", assinala. Para lá de garantir aos colaboradores as ferramentas tecnológicas para serem produtivos onde quer que estejam, Pedro Coelho considera fundamental que as organizações não esqueçam a importância de ter um propósito. "As pessoas vão para organizações com base no que estas querem atingir, com base no seu propósito. Estamos na era do propósito, depois da era industrial e da era da informação", remata.

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