Em média, cada português gera cerca de 1,7 quilogramas de resíduos por dia que são, em grande parte, desperdiçados e colocados em aterros. Se fossem separados e encaminhados para as estações de tratamento apropriadas, seria possível reaproveitá-los para diferentes fins, desde a reutilização de materiais à transformação em biocombustíveis ou até produtos cosméticos. O papel da economia circular e da bioeconomia esteve no centro do quarto debate do movimento Faz Pelo Planeta by Electrão, na passada quinta-feira. Na conversa participaram especialistas ligados à indústria e à reciclagem que elencaram os desafios e as oportunidades da sociedade nesta transição verde. "Hoje em dia, o desenvolvimento económico do nosso continente está muito assente na sustentabilidade. As empresas que hoje não perceberem isso não vão ter o crescimento que pretendem", acredita Miguel Aranda da Silva.
O diretor de resíduos da Veolia aponta ainda a importância de reforçar a colaboração entre a academia e as indústrias para fomentar a inovação, que, defende, deve ser usada para reformular modelos de negócio e de produção. "Diria que é essencial", refere. Apostar em ações de investigação e desenvolvimento é, por isso, fundamental para encontrar formas de reintroduzir materiais reciclados no ciclo produtivo, que permitam diminuir a necessidade de extração de novos recursos naturais. Ricardo Rato, diretor de Investigação, Desenvolvimento e Inovação da ISQ, explica que a missão da instituição que representa passa por apoiar as empresas nesta mudança através de projetos inovadores. Um dos exemplos dados pelo responsável foi a procura de uma solução para uma empresa bioquímica que utilizava panos absorventes nas limpezas, que eram descartados após uma utilização. "Encontrámos forma de poderem ser lavados e conseguir fazer-se 50 ciclos com cada um dos panos. Com isso, a empresa conseguiu poupar 42% de custos", atesta.
Ricardo Rato não tem dúvidas de que este é um dos métodos para convencer a indústria a adotar novos processos, já que oferece a hipótese de contribuir para a preservação do ambiente, mas também poupar dinheiro. "Estamos a falar de soluções que convergem, porque, por um lado, [as empresas] poupam e, por outro, têm um benefício económico", diz. Sobre o argumento muitas vezes utilizado em relação à diferença de preço entre um produto poluente e um produto sustentável, Miguel Aranda da Silva lembra que "quando falamos neste tipo de soluções [mais verdes], não as podemos comparar com os custos de soluções convencionais" porque estas não têm em conta o verdadeiro impacto do produto - custos diretos da produção, a que acrescem os custos energéticos e a origem dessa energia ou ainda a sua pegada ambiental.
Catarina Duarte, que em conjunto com Rita Leitão criou o projeto Zero Lixo, pede que as pessoas deixem de olhar os resíduos como algo inútil e passem a valorizá-los da melhor forma possível. "O lixo não é lixo, pode ser algo bastante útil", garante a ativista. As duas empreendedoras da sustentabilidade abriram uma loja, com balcão físico e virtual, onde vendem produtos amigos do ambiente e alguns provenientes da economia circular e reconhecem ter havido uma procura maior durante a pandemia. "Já conseguimos ter na loja alguns produtos de economia circular, como detergentes e alguma cosmética, e quando dizemos às pessoas que a base dos detergentes é óleo alimentar usado ficam surpreendidas", diz. A prioridade, acredita, deve ser mudar a mentalidade dos consumidores e fazê-los entender que "o benefício que estão a fazer é tão maior do que o conforto [que iam ter]".
Do lado da economia do mar, Vanda Dores, da Direção-Geral de Política do Mar, sublinha que existem já diversas iniciativas em Portugal que procuram aproveitar o mais possível os desperdícios marinhos para criar produtos. "Já existem chinelos, sapatos, roupa ou bijuteria", exemplifica. "Os desperdícios de pesca podem ser utilizados para as rações animais", acrescenta ainda. Susana Ferreira, da Electrão, afirma que entre todos os desafios que a economia circular e a bioeconomia representam para a sociedade, "a sensibilização do consumidor é o mais importante de todos". "É necessário aumentar a capilaridade desta rede [de recolha de resíduos para reciclagem], chegando cada vez mais perto do consumidor", remata.