Três homens e um destino

"O fim do seu mandato [de Obama] faz com que tenhamos saudades do presente, não porque o presente seja bom, mas porque tudo tende a piorar
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Na parede do café, em Lisboa, há três televisores, cada qual num diferente canal de notícias.

Por um destes acasos do destino, por alguns segundos, três presidentes distintos discursam nos aparelhos de TV sem som.

Ainda penso em recorrer-me do telemóvel para captar a imagem, mas dá-me preguiça de procurar o iPhone no bolso. É cedo pela manhã, ainda é noite lá fora, já disse que chego ao trabalho pelas 06h30?, estou meio a dormitar, os meus vizinhos de mesa são dois guardas, um trolha e meia dúzia de idosos.

Esta é a plateia para as atuações de três presidentes mudos. Vemos os seus lábios a mexer mas o que ouvimos é uma canção do Enrique Iglesias. Três presidentes mudos mas eloquentes nos seus gestos. Três figuras históricas, de passado, de presente e de futuro.

No primeiro ecrã, vemos Soares a preto e branco, um momento repescado do arquivo, provavelmente a dizer algo que marcou o século XX português. É o presidente que nos faz dialogar com o passado.

A não ser que tenha mais do que 90 anos, nenhum português vivo sabe o que é este país sem Mário Soares. O seu desaparecimento obriga-nos a termos saudades de nós mesmos.

No segundo ecrã, há Obama. Os cabelos brancos denunciam que é um discurso recente. Obama, que ainda é um arquétipo do agora, estás prestes a ser arquivado numa pasta qualquer, guardado no armário das nossas vidas.

Foram oito anos mas pareceram menos. Ainda me lembro da noite eleitoral em que ele se sagrou o primeiro presidente afro-americano dos EUA. Eu estava em Los Angeles numa tarde que mais parecia noite (devido ao fuso horário, na Costa Oeste tudo acontece horas mais cedo) e vi vários negros a chorar, no caso, de felicidade. Choravam por um amanhã que hoje é ontem.

O fim do seu mandato faz que tenhamos saudades do presente, não porque o presente seja bom, mas porque tudo tende a piorar.

No terceiro ecrã, sim, lá está ele. O coisa ruim, o de pele laranja, o de boca contrita, o canhoto, o encardido, o lá de baixo, o sete-peles, o duas caras, aquele que desvia, o de olhos pequenos, o tinhoso, o papão, o olho de cobra, o amigo de Putin, o mal-amado, o adepto do bullying, o mochila de criança, o beiçudo, o brigadeiro do inferno, o que não ouso dizer o nome. E aí, amigo, ficamos com medo, muito medo do que ainda vem por aí.

Ou como diria o meu Tio Olavo, cintando o poeta Mário Quintana: “O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.”

Storyteller e publicitário

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