Tripulantes dizem que easyJet tem "budget para greves" e acusam acompanhia de fugir às negociações

Os tripulantes de cabine da easyJet acusam a low cost de más práticas laborais e pedem melhores condições salariais. Já o diretor-geral da empresa em Portugal, José Lopes, diz que a proposta do SNPVAC, que pede aumentos salariais de até 96%, é "completamente irrealista".
Publicado a

O braço de ferro entre os tripulantes de cabine da easyJet e a direção da low cost britânica está para durar. Depois da primeira greve realizada no início de abril, que levou ao cancelamento de 220 voos, os trabalhadores anunciaram que irão avançar com uma nova paralisação ainda em data a definir. Em causa estão as negociações dos novos acordos de empresa (AE) e a exigência de melhores condições salariais e laborais.

Sem um entendimento à vista, os trabalhadores acusam a empresa de "não querer negociar". "Eles têm budget para greves e estão à espera de nos cansar. Só negoceiam à segunda ou terceira greve", disse esta quarta-feira, 3, a dirigente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), Ana Dias, durante uma audição na Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão.

A estrutura sindical, que foi ouvida esta manhã no âmbito de um requerimento do PCP, exige que os salários dos trabalhadores "acompanhem o crescimento da companhia aérea em Portugal" e acusam a companhia de discriminação dos trabalhadores portugueses face aos de outros países onde opera. "Auferimos menos 60% que os colegas da Europa. Não pedimos para ganhar o mesmo mas queremos um aumento que acompanhe o crescimento da easyJet em Portugal", pediu Ana Dias que relembrou que a aquisição dos 18 slots da TAP pela low cost permitiu aumentar a operação da britânica no país.

"A insatisfação dos tripulantes atingiu um grau tão grande que não queremos conversações, queremos ações. A política da easyJet mudou nos últimos três anos. Apesar de low cost, havia, antigamente, uma diferença abismal entre easyjet e a Ryanair na forma de tratamento dos trabalhadores. Passado este tempo, a easyJet passou a ter uma política diferente com irregularidades de pagamentos, já não é defeito é feitio", apontou ainda o presidente do SNPVAC, Ricardo Penarroias.

O sindicalista justificou ainda a recusa por parte do SNPVAC à intervenção da mediação da Direção Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT) nas negociações dos AE. "Se déssemos esse passo faríamos o que a empresa pretende, que é não quer negociar connosco", explicou.

Já o diretor-geral da easyJet em Portugal, que foi ouvido no Parlamento logo depois do SNPVAC, garantiu que a companhia aérea "implementa as melhores práticas" no país regidas pelo "cumprimento escrupuloso da política de emprego". José Lopes assegurou aos deputados que a direção da empresa tem reunido com o sindicato para debater o novo AE e que os timings das negociações "não são fora do normal".

O responsável considerou também que as duas propostas apresentadas pelo SNPVAC são "completamente irrealistas" ao apresentarem pedidos de aumentos salariais entre os 60% e os 96%. "Queremos melhorar condições mas não podemos estar alheados dos realidade financeira da empresa", sustentou, relembrado os prejuízos da companhia que totalizaram 2149 milhões de libras (2441 milhões de euros) nos últimos três anos devido à pandemia.

"Da parte da easyJet existe uma proposta concreta que está ainda aberta a negociação. Esta proposta propõe aumentos acima da inflação e não conheço nenhuma empresa que esteja a apresentar os valores que estamos a apresentar", garantiu José Lopes.

"A negociação do AE é feita de boa-fé e disponibilizamo-nos a apresentar com a DGRET uma proposta revista e essa hipótese foi recusada pelo SNPVAC", lamentou. O porta-voz da low cost britânica no país informou que ainda esta quarta-feira está marcada uma reunião entre a direção da easyJet e o SNPVAC para dar continuidade às negociações.

Outra das reivindicações do SNPVAC é que o modelo contratual aplicado aos trabalhadores da base sazonal do Algarve seja revisto. "Queremos eliminar por completo esta forma contratual do 8/12. Os trabalhadores passam grandes dificuldades, e há tripulantes a ganhar entre 350 a 500 euros. Há situações muito dramáticas em Faro", referiu Ana Dias.

Quando a easyJet abriu a base de Faro assinou um AE com o SNPVAC, a 07 de outubro de 2020, que implementou um novo modelo de contrato temporário, denominado de 8/12. Esta versão prevê um período de atividade anual (que inclui tempo de voo, deveres em terra, formação e tempo de férias) de oito meses e um período de inatividade de quatro meses. O pagamento é realizado em 14 prestações e implica uma redução proporcional de todos os termos e condições face a um trabalhador a tempo completo.

O SNPVAC justifica que assinou este contrato para salvar postos de trabalho nos anos da pandemia mas que o modelo já não faz sentido à luz da retoma da operação.

José Lopes defendeu que este modelo contratual permitiu "criar mais de 100 postos de trabalho a tempo parcial, pagos acima da média nacional". "Um tripulante de cabine de Faro recebe uma remuneração anual de 18 mil euros para uma jornada anual de trabalho de 66%", enquadrou.

"O contrato de Faro, criado para abrir uma atividade sazonal não é full time. Temos atualmente uma proposta [de atualização] para pagar nove meses em vez dos atuais oito", adiantou ainda.

As ameaças de greve dos tripulantes de cabine da easyJet em Portugal começaram no passado, conforme o Dinheiro Vivo avançou. Sem conseguirem chegar a um entendimento com a direção, os trabalhadores avançaram com três dias de paralisação em março. Na semana passada, o SNPVAC informou que irá apresentar um novo pré-aviso de greve, ainda em data a anunciar.

Atualizada às 13:03

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt