Trump ameaça França com tarifas de 200% para pressionar Macron

O presidente norte-americano quer o congénere francês no seu ‘Conselho da Paz’ e está a subir do tom das ameaças
Trump e Macron em encontro na Casa Branca em fevereiro.
Trump e Macron em encontro na Casa Branca em fevereiro.Sara Meyssonnier/EPA
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Tarifas de 200% sobre os vinhos franceses para que Emmanuel Macron se junte à iniciativa criada por Donald Trump parece ser a nova arma de arremesso do presidente americano. Trump acredita que o seu ‘Conselho da Paz’ pode começar por resolver o conflito em Gaza e depois seguir para os outros conflitos existentes no globo, relegando para a insignificância o papel da ONU.

Fonte próxima de Emmanuel Macron referiu, à agência Reuters, que o presidente francês vai recusar o convite de Trump para integrar a nova iniciativa.

Os governos europeus reagiram com cautela ao convite de Trump para o Conselho de Paz, um plano que, segundo diplomatas, poderia prejudicar significativamente o trabalho das Nações Unidas. Um projeto de carta enviado a cerca de 60 países pela administração dos EUA pede que os membros contribuam com mil milhões de dólares (cerca de 930 milhões de euros) em dinheiro se quiserem que sua adesão dure mais de três anos, de acordo com o documento consultado e citado pela Reuters.

Quando questionado sobre a provável recusa de Macron em juntar-se à iniciativa, Trump atirou um “Ele disse isso? Bom, ninguém o quer porque ele deixará o cargo muito em breve […] Vou aplicar uma tarifa de 200% sobre os seus vinhos e champanhes, e ele vai aderir, mas não é obrigado a aderir”, continuou o ocupante da Casa Branca.

Os EUA são o mercado mais importante para vinhos e bebidas espirituosas francesas – as exportações deste setor foram na ordem dos 3,8 mil milhões de euros em 2024.

Também em jeito de chantagem, Donald Trump publicou uma mensagem privada que Emmanuel Macron lhe enviou, afirmando que não entendia a sua posição em relação à Gronelândia. 

Recorde-se que França vai escolher, em 2027, o sucessor de Macron, que, entretanto, cumpriu dois mandatos no Eliseu.

O presidente francês deverá estar em Davos esta terça-feira, 20 de janeiro, antes de regressar a Paris, e os assessores do Eliseu já adiantaram que não há qualquer plano para Macron prolongar a sua estada e aguardar por Trump, que chegará na quarta-feira ao Fórum Económico que acontece naquela cidade suíça.

“Temos as ferramentas; os europeus devem assumir a responsabilidade. Não podemos permitir tal escalada”

Annie Genevard, Ministra da Agricultura francesa

Esta ameaça de Donald Trump junta-se ao anúncio recente de que uma tarifa de 10% será imposta aos produtos originários dos países que enviaram tropas para a Gronelândia, e às taxas de 15% sobre todos os produtos da EU que já estão em vigor desde o ano passado – um imposto que os franceses têm pressionado fortemente para reduzir a zero desde que Trump e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chegaram a um acordo comercial entre os EUA e a UE na Escócia, no verão passado.

Na reação, esta manhã, as ações da LVMH, que detém marcas como a Moët & Chandon ou  Krug, escorregaram logo 2% na abertura dos mercados. Gabriel Picard, presidente do lobby francês de exportação de vinhos e bebidas espirituosas FEVS, disse, na segunda-feira, antes desta nova ameaça, que o setor tinha sofrido um impacto de 20% a 25% nas atividades nos EUA no segundo semestre do ano passado devido a medidas comerciais anteriores, escreve também a agência Reuters.

Um assessor de Macron adiantou, por seu lado, que o Eliseu tomou nota das declarações de Trump e salientou que as ameaças tarifárias para influenciar a política externa de terceiros eram inaceitáveis.

Europa pondera retaliação

Os europeus estão a considerar retaliar com tarifas na ordem dos 93 mil milhões de euros e até mesmo com o uso do “Instrumento Anticoerção” – uma ferramenta do bloco económico para responder contra a ameaça do aumento de tarifas contra o grupo de Estados europeus que está no terreno para defender a Gronelândia.

A ministra da Agricultura de França afirmou, entretanto, na TF1, que considera “escandalosas” as movimentações dos EUA. “É brutal, [é um plano que] foi concebido para nos partir, é uma ferramenta de chantagem. Tudo isto é escandaloso”, considerou Annie Genevard. “Temos as ferramentas; os europeus devem assumir a responsabilidade. Não podemos permitir tal escalada”, defendeu.

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