Turismo do Algarve prepara voo direto entre Faro e os Estados Unidos, com TAP de fora

Região de Turismo do Algarve quer captar mais turistas e investidores norte-americanos e está em negociações para lançar a primeira rota direta entre a região e os EUA.
Publicado a

A Região de Turismo do Algarve (RTA) está a preparar o lançamento daquela que será a primeira ligação direta entre o aeroporto de Faro e os Estados Unidos. O objetivo é criar uma rota sem escalas nem stopovers que permita incrementar o número de turistas norte-americanos a sul do país.

A elevada pressão no aeroporto de Lisboa e a consequente demora nas ligações entre a capital e Faro, bem como a escassa aposta da TAP no Algarve, levaram a RTA a arregaçar as mangas e a procurar outras companhias aéreas para inaugurar a nova rota.

"Estamos a trabalhar com o aeroporto de Faro e com diferentes companhias. A região já deseja esta ligação há muito tempo. Os empresários têm defendido muito a rota, com base no crescimento deste mercado. A questão principal é uma ligação direta ao mercado norte-americano, não com alguma cidade em particular", revela o presidente da RTA.

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, André Gomes garante que as negociações estão em curso e que o objetivo é poder anunciar a nova ligação assim que possível. "São sempre processos negociais que levam algum tempo e que são tratados de uma forma muito reservada. Esperamos poder ter boas novidades para anunciar em breve. A região já demonstrou, de uma forma clara, que está disponível, está interessada, tem possibilidade de investimento nesse sentido e, em conjunto com o aeroporto e com o Turismo de Portugal, estamos a trabalhar para tornar esta ligação numa realidade", adianta.

O novo líder da RTA, que tomou posse em junho, sucedendo a João Fernandes, explica que o mercado norte-americano cresceu, só em agosto, 40% na região em comparação com 2019. O crescente interesse destes turistas por Portugal também se tem manifestado no Algarve e o responsável acredita que facilitar a chegada a Faro é fundamental para incrementar a procura.

"Felizmente, não tem sido pelo facto de não termos um voo direto que não temos tido a visita de turistas norte-americanos. Obviamente que uma ligação direta seria muito mais proveitosa para nós, porque sabemos que é um mercado que acrescenta valor à procura. Já vamos tendo ligações ao norte e ao sul da América através da SATA, com stopover em Ponta Delgada, ou com outras companhias a partir de Lisboa. Para estes mercados é importante chegar mais rapidamente ao destino, não ter paragens demasiado longas entre aeroportos ou stopovers", explica, adiantando que "a pressão muito grande que o aeroporto de Lisboa tem em cima está a causar paragens de muitas horas com as ligações para os voos de Faro", motivo que reforça a urgência numa ligação direta.

O presidente da RTA garante que o Algarve é cada vez mais apetecível aos olhos dos norte-americanos, não só no turismo, mas também no capítulo do investimento. Embora não adiante números concretos, André Gomes garante que há "vários milhões de euros" investidos por norte-americanos em projetos turísticos no Algarve e a perspetiva é de crescimento.

"Temos um conjunto de investimentos muito grandes por parte de fundos e de marcas norte-americanas que estão a investir em força no Algarve. É um mercado que acrescenta valor e com uma capacidade de investimento mais elevada. É também aquilo que queremos, valorizar a nossa oferta e com estes mercados conseguimos fazê-lo", indica.

De fora da equação nesta nova rota entre o Algarve e os Estados Unidos fica a TAP, cujo peso no aeroporto de Faro é de apenas 2%, uma percentagem que fica aquém das pretensões do turismo da região. "A representatividade da TAP no aeroporto de Faro é quase ínfima, é insignificante face ao peso que temos de outras companhias aéreas", lamenta André Gomes. "Gostávamos muito que a TAP reforçasse a operação que faz para Faro, quer de ligação do mercado interno quer de ligação com os nossos PALOP. A TAP sempre desempenhou um papel muito importante a esse nível e também poderia fazer essa aposta em Faro providenciando ligações aéreas a estes países", refere.

Dentro de duas semanas, o presidente da RTA irá sentar-se à mesa com a nova administração da TAP, no World Travel Market London, um certame internacional dedicado ao turismo e às viagens. O encontro servirá também "para reforçar esta pretensão do Algarve" numa maior aposta da companhia a sul. André Gomes admite estar otimista com a liderança de Luís Rodrigues, CEO e chairman da transportadora de bandeira, e com o processo de privatização que se avizinha.

"Tenho muito a expetativa - embora ainda não tenha esse feedback - quer com esta nova administração quer com o próprio processo de privatização, que o Algarve seja visto como uma opção válida, de crescimento, onde a TAP tem muita capacidade para crescer naquela que é a oferta para e a partir de Faro", assume.

Sobre os três principais nomes que estão na corrida à compra da TAP - Air France/KLM, Lufthansa e IAG - o porta-voz da RTA recusa assumir qualquer favoritismo. "Tenho preferência por uma TAP que olhe para o Algarve de outra forma, como não tem olhado até aqui. Espero que a administração que vier olhe para a TAP com outros olhos e com potencialidade para crescer", reitera.

Já sobre o modelo de venda apresentado pelo Estado, assume discordar da alienação da maioria do capital da companhia. "Sou um defensor da TAP na esfera pública, sempre fui, porque é uma companhia aérea de bandeira nacional e julgo que o Estado deveria ter sempre uma posição privilegiada. Uma posição maioritária é uma forma de o Estado ter uma posição mais preponderante", analisa.

Olhando para as infraestruturas aeroportuárias e face ao esgotamento da Portela, André Gomes defende também que Faro tem capacidade para ser uma alternativa ao crescimento da operação aérea enquanto não existir um novo aeroporto na região de Lisboa.

"Perante a pressão do aeroporto de Lisboa, numa solução imediata, devem ser utilizados os restantes aeroportos a nível nacional. Diria mesmo, aproveitar Beja para suprimir esta pressão a que Lisboa está sujeita. Faro está disponível e tem capacidade para tal, gostaríamos muito de ver o aeroporto de Faro a ter um papel mais importante nesse aligeirar da pressão de Lisboa e não ser tudo desviado para o Porto", sugere.

Comparando com a Invicta, o responsável lamenta que o Algarve continue um passo atrás na aposta da TAP e não seja considerado como uma alternativa. "Gostaríamos muito que a TAP apostasse mais nas ligações para Faro e a partir de Faro, não só para o estrangeiro, mas também a nível do mercado interno. Tendo em conta a saturação do aeroporto de Lisboa, tem havido um reforço no do Porto e gostaria muito que também este reflexo acontecesse em Faro", explica.

"Estas ligações da TAP a nível do mercado interno são muito importantes, não só do ponto de vista turístico, mas também do ponto de vista do turismo de negócios. A zona do Porto e Norte beneficia muito com estas ligações e com as pontes aéreas com Lisboa e o Algarve também teria certamente muito a ganhar se houvesse mais ligações quer a Lisboa quer ao Porto realizadas pela TAP", esclarece ainda.

Depois de um verão de recordes para o turismo na região, os meses de frio arrancam com boas perspetivas. Em setembro e outubro, as taxas de ocupação na hotelaria rondam os 80% e o início da época do golfe traz também boas perspetivas para os meses que se avizinham.

"No ano passado registámos mais de um milhão de voltas de golfe e, neste momento, só no arranque da época alta, já temos mais de 730 mil voltas com os mercados britânico, irlandês, holandês a liderar. André Gomes acredita que este será um ano de recordes para o Algarve e afirma que a região "está a acompanhar o crescimento do turismo nacional".

"Os indicadores que temos no acumulado de janeiro a agosto são extremamente positivos, permitindo-nos dizer que caminhamos para um ano melhor do que 2019, não obstante nas dormidas estarmos ligeiramente abaixo de 2019, menos 4%, mas em todos os outros indicadores - hóspedes, proveitos, taxa de ocupação - estamos acima de 2019", enquadra.

"Obviamente que os nossos níveis de crescimento são inferiores ao resto do país. Quando ouvimos dizer que todas as regiões do país estão a crescer muito mais do que o Algarve, é natural. O ponto de partida é completamente diferente, o Algarve está sempre lá em cima nos indicadores do turismo, as outras regiões acabam por ter mais margem de crescimento, porque partem de um patamar abaixo", justifica.

As perspetivas para as receitas turísticas dão conta de um crescimento de 8% face o ano passado e de 0,5% em comparação com o pré-pandemia. Os proveitos do alojamento turístico também dispararam 12% relativamente a 2022 e 29% face a 2019.

O presidente da RTA rejeita que o aumento dos preços na região esteja a afastar o mercado nacional, embora admita que a conjuntura económica possa impactar o poder de compra dos portugueses. Ainda assim, não teme um decréscimo do mercado interno que garante estar a visitar o Algarve, cada vez mais, fora da época alta.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt