Quando as rádios e televisões norte-americanas começaram a noticiar que o responsável por uma das mais graves fugas de informações classificadas nos Estados Unidos se chamava Jack Teixeira, houve um levantamento coletivo de sobrolhos entre os portugueses. Este sobrenome tem indiscutivelmente origem portuguesa. E estando a falar de Massachusetts, o segundo estado com maior comunidade portuguesa dos EUA, era quase certo que o jovem preso fosse luso-descendente.
Assim mesmo se confirmou e deu origem a um alvoroço mediático tremendo, buscando informações, histórias e testemunhos da comunidade luso-americana sobre Teixeira. Mas a comunidade em si não tinha muito a dizer.
Na verdade, este alvoroço aconteceu apenas em Portugal. Nos meios de comunicação norte-americanos, não houve qualquer referência à ascendência de Jack Teixeira, nem sequer a sugestão de que ele pertencia a um grupo de herança étnica específica. A sua origem foi totalmente irrelevante perante a gravidade dos actos - o que, sabemos, não teria sido o caso se ele fosse neto de afegãos, iraquianos, sírios, paquistaneses ou outras etnias consideradas antagónicas dos Estados Unidos.
Mas não deixa de ser notável a disparidade do foco. Quando perguntei à cientista política Daniela Melo a sua análise, ela que vive em Massachusetts e leciona na Universidade de Boston, foi isso mesmo que frisou. Não houve grandes menções à origem dos avós de Jack Teixeira deste lado do Atlântico.
Mostrou-se até algo perplexa pela aparente fixação dos meios de comunicação portugueses nisso, uma vez que a sua classificação como luso-descendente não teve qualquer influência no que fez. Não parecia sequer ter envolvimento na comunidade ou ligação a Portugal, ao contrário de outras segundas e terceiras gerações de luso-americanos.
O relevante nesta história, que deve dar-nos arrepios na espinha, é a forma como alguém tão jovem e inexperiente conseguiu aceder a informações tão classificadas do Pentágono, e depois difundi-las no Discord sem ser descoberto durante meses.
É também a forma como a doutrinação online do rapaz, amante de Deus e de armas (como se as duas coisas fossem compatíveis), o levou a cometer um acto com consequências tão irreversíveis.
E ainda o facto de tantos extremistas republicanos estarem a correr em sua defesa, algo que seria impensável há alguns anos. A congressista espalha-brasas Marjorie Taylor Greene disse que Teixeira só está a ser acusado por ser "branco, homem, cristão e anti-guerra." A parte em que cometeu a pior fuga de dados de inteligência em mais de uma década parece ser trivial. Qual a mensagem disto, que crimes não se punem se o autor tiver o tom de pele certo e praticar uma religião aceitável?
Percebo que o sobrenome nos tenha aguçado a curiosidade, mas a história é tão mais profunda que isso. No rescaldo da cobertura, vi circular um famoso meme com uma colagem de imagens associadas a Portugal - um galo de Barcelos, caldo verde, pastéis de nata, Quim Barreiros, bacalhau, Cristiano Ronaldo, azeite Gallo, uma caravela, um brasão - e uma frase em inglês em torno de "Uau! Isso é uma referência a Portugal??"
Tem piada porque é muito nosso, isto de empolar toda e qualquer menção a alguma coisa ligeiramente portuguesa em qualquer parte do mundo. Possivelmente enraizada nesta nossa tendência para acharmos que somos, em simultâneo, os piores e os melhores do mundo. Mas o que eu gostava era que este entusiasmo todo acontecesse também quando as comunidades luso-americanas fazem eventos, investem em aulas de português e promovem a sua cultura na América. Eça de Queirós que venha cá abaixo analisar isto.