Quando foi publicada a investigação do consórcio de jornalistas ICIJ sobre práticas ilícitas da Uber para expandir o negócio até 2017, a executiva e porta-voz mundial da empresa, Jill Hazelbaker, rapidamente reconheceu "falhas" e "erros", mas procurou esvaziar potenciais efeitos negativos da notícia afirmando: "pedimos que nos julguem pelo que fizemos nos últimos cinco anos e pelo que faremos nos próximos anos". Mais tarde, num comunicado oficial, a empresa deixou a sua versão dos factos.
Ao contrário do que Hazelbaker afirmara, que a empresa não iria "arranjar desculpas para o comportamento no passado", no statement publicado pela empresa, a Uber diz ter sido alvo de um dos "mais infames acertos de contas da história", há cinco anos, pelas "milhares de histórias" sobre os erros da Uber. E responsabilizou Travis Kalanick, cofundador e líder da empresa até ao verão de 2017.
A investigação do ICIJ revela que Kalanick deu aval a uma estratégia que explorava a violência contra motoristas da Uber e, ao mesmo tempo, criou uma rede de lobi que chegava a Emmanuel Macron (presidente da República francesa, então ministro da Economia), Joe Biden (então vice-presidente dos EUA, hoje presidente) e Mark Rute (então primeiro-ministro da Holanda). Algo que acabou no verão de 2017 - garantiu a empresa - com mudanças na direção da Uber, após "ações judiciais, investigações governamentais e demissões de vários administradores seniores".
Kalanick demitiu-se da presidência executiva da Uber no final de junho de 2021, pressionado pelos investidores que estariam desagradados com o rumo da empresa. Naquela altura, a Uber vivia um momento de incerteza: os resultados financeiros não satisfaziam e somavam-se acusações de políticas de recursos humanos negativas e práticas machistas. Agora - revelou a empresa - a saída do cofundador também se deveu à rede de lóbi descoberta pelo ICIJ.
"Foi também por isso, precisamente, que a Uber contratou um novo CEO, Dara Khosrowshahi", lê-se.
Khosrowshahi chegou com a missão de "transformar todos os aspectos de como a Uber operava". A seu lado tinha Eric Holder, relembrou a empresa, que ajudou a nova administração "a investigar e a rever práticas comerciais" do anterior CEO. Antes de entrar na Uber, Holder foi procurador-geral dos EUA, nomeado pela administração de Obama (recorde-se que na era Obama, o então vice-presidente Biden era um defensor da Uber).
"Orientado desde o início pelas recomendações de Eric Holder", o novo CEO "reescreveu os valores da empresa, reformulou a administração, tornou a segurança uma prioridade, implementou outra política de governança, contratou um presidente de conselho independente e implementou rigorosos controlos necessários para operar", defendeu-se, agora, a Uber.
"Quando dizemos que a Uber é uma empresa diferente hoje, queremos dizer literalmente: 90% dos atuais funcionários da Uber entraram depois que Dara se tornou CEO", lê-se.
"Agora, somos uma empresa regulada em mais de dez mil cidades em todo o mundo, trabalhando em todos os níveis com governos para melhorar a vida daqueles que usam a nossa plataforma e as cidades que atendemos", acrescenta o comunicado.
De acordo com a investigação Uber Files, Portugal está entre os países onde Uber usou violência de taxistas para obter benefícios. E, no caso de Portugal, a regulação das plataformas tecnológicas para o transporte de passageiros só se tornou uma realidade em 2018. O governo já fez saber que pretende rever as regras determinadas para as plataformas como Uber e táxis.
A empresa diz, ainda, ser atualmente uma "das maiores plataformas de trabalho do mundo e parte integrante da vida quotidiana de mais de 100 milhões de pessoas".
"Passamos de uma era de confronto para uma de colaboração, demonstrando vontade de ir para a mesa e encontrar um terreno comum com antigos adversários, incluindo sindicatos e empresas de táxi", lê-se.
O comunicado termina com a empresa a assegurar que investe "fortemente" na segurança e que tem um "compromisso" com a mobilidade com zero emissões poluentes até 2040. "Estamos a investir 800 milhões de dólares para ajudar os motoristas a mudar para veículos elétricos".
"Não temos e não vamos arranjar desculpas por comportamentos passados que, claramente, não estão alinhadas com os nossos valores atuais. Em vez disso, pedimos ao público que nos julgue pelo que fizemos nos últimos cinco anos e pelo que faremos nos próximos anos", lê-se.