Uber Files. Dos erros de Kalanick à mudança de rumo de Khosrowshahi

"Passamos de uma era de confronto para uma de colaboração", garante a empresa que chegou a Portugal no verão de 2014. Investigação aponta práticas ilícitas para expandir negócio até 2017.
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Quando foi publicada a investigação do consórcio de jornalistas ICIJ sobre práticas ilícitas da Uber para expandir o negócio até 2017, a executiva e porta-voz mundial da empresa, Jill Hazelbaker, rapidamente reconheceu "falhas" e "erros", mas procurou esvaziar potenciais efeitos negativos da notícia afirmando: "pedimos que nos julguem pelo que fizemos nos últimos cinco anos e pelo que faremos nos próximos anos". Mais tarde, num comunicado oficial, a empresa deixou a sua versão dos factos.

Ao contrário do que Hazelbaker afirmara, que a empresa não iria "arranjar desculpas para o comportamento no passado", no statement publicado pela empresa, a Uber diz ter sido alvo de um dos "mais infames acertos de contas da história", há cinco anos, pelas "milhares de histórias" sobre os erros da Uber. E responsabilizou Travis Kalanick, cofundador e líder da empresa até ao verão de 2017.

A investigação do ICIJ revela que Kalanick deu aval a uma estratégia que explorava a violência contra motoristas da Uber e, ao mesmo tempo, criou uma rede de lobi que chegava a Emmanuel Macron (presidente da República francesa, então ministro da Economia), Joe Biden (então vice-presidente dos EUA, hoje presidente) e Mark Rute (então primeiro-ministro da Holanda). Algo que acabou no verão de 2017 - garantiu a empresa - com mudanças na direção da Uber, após "ações judiciais, investigações governamentais e demissões de vários administradores seniores".

Kalanick demitiu-se da presidência executiva da Uber no final de junho de 2021, pressionado pelos investidores que estariam desagradados com o rumo da empresa. Naquela altura, a Uber vivia um momento de incerteza: os resultados financeiros não satisfaziam e somavam-se acusações de políticas de recursos humanos negativas e práticas machistas. Agora - revelou a empresa - a saída do cofundador também se deveu à rede de lóbi descoberta pelo ICIJ.

"Foi também por isso, precisamente, que a Uber contratou um novo CEO, Dara Khosrowshahi", lê-se.

Khosrowshahi chegou com a missão de "transformar todos os aspectos de como a Uber operava". A seu lado tinha Eric Holder, relembrou a empresa, que ajudou a nova administração "a investigar e a rever práticas comerciais" do anterior CEO. Antes de entrar na Uber, Holder foi procurador-geral dos EUA, nomeado pela administração de Obama (recorde-se que na era Obama, o então vice-presidente Biden era um defensor da Uber).

"Orientado desde o início pelas recomendações de Eric Holder", o novo CEO "reescreveu os valores da empresa, reformulou a administração, tornou a segurança uma prioridade, implementou outra política de governança, contratou um presidente de conselho independente e implementou rigorosos controlos necessários para operar", defendeu-se, agora, a Uber.

"Quando dizemos que a Uber é uma empresa diferente hoje, queremos dizer literalmente: 90% dos atuais funcionários da Uber entraram depois que Dara se tornou CEO", lê-se.

"Agora, somos uma empresa regulada em mais de dez mil cidades em todo o mundo, trabalhando em todos os níveis com governos para melhorar a vida daqueles que usam a nossa plataforma e as cidades que atendemos", acrescenta o comunicado.

De acordo com a investigação Uber Files, Portugal está entre os países onde Uber usou violência de taxistas para obter benefícios. E, no caso de Portugal, a regulação das plataformas tecnológicas para o transporte de passageiros só se tornou uma realidade em 2018. O governo já fez saber que pretende rever as regras determinadas para as plataformas como Uber e táxis.

A empresa diz, ainda, ser atualmente uma "das maiores plataformas de trabalho do mundo e parte integrante da vida quotidiana de mais de 100 milhões de pessoas".

"Passamos de uma era de confronto para uma de colaboração, demonstrando vontade de ir para a mesa e encontrar um terreno comum com antigos adversários, incluindo sindicatos e empresas de táxi", lê-se.

O comunicado termina com a empresa a assegurar que investe "fortemente" na segurança e que tem um "compromisso" com a mobilidade com zero emissões poluentes até 2040. "Estamos a investir 800 milhões de dólares para ajudar os motoristas a mudar para veículos elétricos".

"Não temos e não vamos arranjar desculpas por comportamentos passados ​​que, claramente, não estão alinhadas com os nossos valores atuais. Em vez disso, pedimos ao público que nos julgue pelo que fizemos nos últimos cinco anos e pelo que faremos nos próximos anos", lê-se.

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