Um francês que investe para abrir os bairros de Lisboa a todos

Almoço com Geoffroy Moreno, um ex-parisiense e hoje alfacinha de gema que se orgulha de ajudar a tornar Lisboa melhor e mais bonita.
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Aos 40 anos, Geoffroy Moreno ainda força os erres mas tirando esse tique que persistirá é um alfacinha de gema. A paixão por Lisboa fê-lo deixar Paris e mudar-se de armas e bagagens e família em 2004. E não mais arredou pé da sua Alfama, onde "os vizinhos se tratam pelo nome, se ajudam e convivem como numa aldeia", aquela que escolheu como casa para os três filhos pequenos.

Encontramo-nos no Zé da Mouraria para almoçar e se este "francês apaixonado pela alma antiga de Lisboa" -- como era descrito pouco depois da chegada, numa reportagem do Público sobre estrangeiros que para aqui tinham vindo viver -- já se sente português, ainda consegue ser surpreendido por locais como este, onde se serve boa comida sem cerimónias.

Não negamos o pão saloio, queijo e azeitonas temperadas a rigor, boas vindas comuns nestes cantinhos que vão resistindo às piores tentações da fama e Geoffroy vai-me contando da sua escolha de vida. Formado em Economia e Gestão e com um irmão mais velho, Arthur, engenheiro, que já se mudara para cá, a prospeção de destinos potenciais para uma vida melhor já vinha contagiada pelas maravilhas da cidade que lhe era descrita e que já experimentara numa ou outra visita prévia. Uma capital europeia do sul, com bom clima, mar por perto, próxima da família... enfim, o destino estava marcado para a sua chegada, em 2004. E a aventura em que havia de embarcar traçada pela paixão que logo sentiu por uma cidade cheia de história, de recantos e tradições envelhecidos por anos de afastamento.

"Adorei a cidade, a sua escala", conta, mas sentia alguma tristeza conforme ia descobrindo o tecido urbano lisboeta, parco de investimentos e moribundo no centro histórico. "Vindo de uma capital como Paris, onde o que é antigo é tão valorizado, entristecia-me ver que os bairros tradicionais aqui eram pouco valorizados, as famílias não os queriam porque eram velhos, tinham maus acessos, não tinham estacionamento..." Foi isso que o levou a trocar a captação de investimento estrangeiro que fazia para a Cushman & Wakefield por um projeto seu.

A Stone Capital nasceu então, com uma reabilitação na Travessa das Freiras, a cinco minutos do Panteão, e a vontade de recuperar sem estar refém do lucro. Com o apoio de um grupo de investidores franceses que partilhavam a sua visão, Geoffroy comprou então dois prédios pequenos e antigos e dedicou-se a descobrir o seu ADN, a sua história, para os poder reerguer integrados na identidade do bairro. Essa tornou-se a sua assinatura, profissionalizada com recurso a um equipa de historiadores, arqueólogos e antropólogos que trabalham com a Stone Capital no diagnóstico que serve de base aos projetos arquitetónicos que desde então constrói. "Queremos manter a substância, não apenas a fachada", justifica, com o almoço a chegar num tacho e numa travessa para seis -- são as meias doses do Zé da Mouraria, de choquinhos à lagareiro e bife de atum, que escolhemos partilhar para não perdermos nada de bom.

A descoberta acontecia já em 2010 e o segundo projeto de reabilitação de Geoffroy, um prédio de escritórios na esquina da Avenida da Liberdade com a Alexandre Herculano, veio já com o mercado congelado e os cofres do financiamento bancário fechados a sete chaves por uma crise que traria momentos difíceis mas se revelaria como uma oportunidade para a renovação de Lisboa. Os fundos continuaram a chegar à Stone vindos de fora, de França, das mãos de investidores que partilhavam os seus ideais.

"A evolução da cidade, programas como os vistos gold, o boost do turismo trouxeram agressividade ao setor e percebemos que às vezes a nossa visão bonitinha da reabilitação se perdia, que perdíamos o controlo no momento em que vendíamos os prédios e quem comprava os transformava em alojamento local, ou vendia logo para fazer negócio. Então começámos a ter vontade de fazer projetos diferentes, que valorizassem mais os bairros."

Um dos primeiros a responder a este novo desejo foi um projeto de dez apartamentos em Alfama que Geoffroy reabilitou em 2012, pondo metade no mercado de arrendamento a longo prazo e os outros cinco a curto prazo. O barulho das rodinhas das malas de viagem ajudou-o a entender que não era bem esse o futuro que desejava -- "os turistas não traziam grande mais-valia ao bairro" -- e pouco mais de um ano depois todo o prédio estava no mercado de arrendamento tradicional, as rendas reduzidas para 400 a 600 euros. "Queria que ficassem acessíveis a famílias portuguesas de rendimentos não muito altos."

Quando tudo começou a mexer, em 2013, a reabilitação e o turismo empurravam para o negócio investidores de todo o tipo. Com mais financiamento disponível, os irmãos Moreno conseguem profissionalizar a empresa, mantendo o traço que haviam firmado desde o início. "Apostámos mais no no centro histórico, nas zonas vizinhas de onde moramos, até porque temos ali uma responsabilidade, conhecemos as pessoas, há aquela vida de bairro que queremos manter." Castelo, Alfama, Chiado e também a Avenida da Liberdade são foco de desenvolvimento acelerado, mas assegurando sempre a âncora do ADN dos edifícios em que intervêm, a identidade dos bairros, a ligação a quem já ali vive. E com essa preocupação em tornar as casas acessíveis a famílias comuns.

"Aquele primeiro projeto que fizemos fez-me sentir feliz. Era por ali que queria seguir. Depois fizemos uma grande intervenção na Mouraria, com a reabilitação de um conjunto de edifícios com essa preocupação de manter o património e criar um bom mix." Ali se juntavam casas em regime de alojamento local com residentes, fizeram os arruamentos no espaço público e até juntaram à panela uma componente social com um espaço para a cozinha social da Mouraria -- "cedemos um espaço mais nobre para ela produzir e sentimos que mudámos o bairro". Para melhor. Também nesse puzzle, Geoffroy fez questão de manter 14 apartamentos (20% do edifício) com rendas controladas.

E uma vez que essa decisão era totalmente privada, sem interferência ou expressão de vontade da autarquia, foi preciso convencer os investidores das virtudes desta "mistura justa", como lhe chama o dono da Stone. "Os nossos parceiros franceses entenderam que não iam ganhar tanto, mas tinham um bom retorno e que o projeto era equilibrado, gostaram do conceito e foram sensíveis." Quando sete desses apartamentos foram arrendados, há um ano, foi preciso decidir entre 300 famílias candidatas. "O que revela a falta gritante de casas a preços razoáveis no centro histórico de Lisboa", conclui Moreno, para justificar o seu empenho em participar num esforço coletivo de tornar a cidade mais acessível a todos. Foi esse, aliás, o drive para a Stone Capital avançar para o concurso da Câmara de Lisboa para criar um espaço de rendas acessíveis na Rua de São Lázaro (do Martim Moniz ao Campo dos Mártires da Pátria).

O concurso era complexo, implicava renovar os 103 apartamentos da autarquia intervir nos arruamentos, dinamizar a componente comercial e beneficiar toda a zona, ficando com a gestão a preços controlados durante 30 anos e devolver 70% à câmara no final da concessão. Poucos concorreram e a Stone venceu. "Era um sonho para mim!" Um sonho que está à espera que se resolva o diferendo entre o Tribunal de Contas e a autarquia lisboeta para avançar.

Já a tentar ignorar os sinais de que comemos mais do que o suficiente, pergunto-lhe se acha que Lisboa está a mudar para melhor ou se é preciso travar esta evolução rápida e repentina. Diz-me que a resposta não é linear. "Eu também sofri com alguma descaracterização da cidade, mas Lisboa estava muito necessitada de energia, de investimento e os bairros históricos que hoje nos queixamos de estarem a perder identidade estavam quase ao abandono. Nos 80 ou 90 apartamentos que fizemos na Mouraria, havia antes cinco ocupantes legais -- e depois havia moradores clandestinos, drogados... agora há uma mistura boa e muito mais residentes, uma meia centena."

Serve a imagem para ilustrar que a evolução trouxe mais ganhos do que perdas, mas nem por isso Geoffroy acredita que se deve deixar tudo acontecer. "Agora, governo e autarquia têm de tomar medidas para controlar a evolução -- e achei boas as medidas tomadas para travar a escalada do alojamento local." Conta que trouxe de Paris o exemplo que o inspirou nos projetos de manter uma parte dos edifícios dedicada a famílias com menos capacidade financeira -- ali, em cada novo projeto 20% tem de ser para alojamento social, "vendido a preço de custo a uma entidade pública que depois arrenda a pessoas com rendimento modesto". E quem compra a casa do lado por muito mais dinheiro? "Tem de se adaptar."

A base lógica é simples: houve um momento em que era preciso incentivar a reabilitação, hoje é preciso refrear a especulação. E se a esmagadora maioria dos promotores imobiliários não o fazem por sua iniciativa -- "nós somos antimarcas internacionais e antitudo quanto coma a identidade e a cultura locais", explica --, é preciso tomar medidas, criar regras que assegurem esse equilíbrio difícil. E para Geoffroy uma coisa é certa: Lisboa podia estar a dinamizar-se muito mais depressa se houvesse mais projetos à imagem do que ele importou de Paris, do que a Câmara quer agora começar a lançar.

Entregues à evidência de que não é humanamente possível meter nem mais uma garfada na boca, peço um café enquanto Moreno acaba a sua água Castelo e pergunto-lhe por outros projetos que tem na cidade. Como a escola primária internacional que abriu há um ano em Campo de Ourique, construída de raiz e toda em madeira, que já conta com 200 miúdos de 17 nacionalidades, até aos 12 anos. O ensino é privado, mas mantendo o traço que caracteriza todos os seus projetos, a ideia é ter ali uma IPSS. Por agora, "estamos a consolidar, a perder muito dinheiro mas empenhados nessa ideia".

Há ainda o mais recente, o mal-amado novo Martim Moniz, que tem merecido oposição de um grupo de moradores e da própria junta de freguesia. Porquê? "Aquelas pessoas querem sossego, não querem atrair turistas e gostavam de ver ali nascer um jardim", justifica Geoffroy. O seu projeto para o local, garante, dá para isso e mais. "A ideia não é maximizar lucros. O que queremos fazer ali é um mercado de qualidade, integrado no bairro, e completo com um jardim público. A praça é enorme, tem 1 hectare, dá para tudo."

O compromisso que espera que acabe por convencer os moradores tem as suas virtudes: um conjunto de lojas de comércio local que reflita a diversidade da zona e integre as comunidades, "que seja um prolongamento da atividade das lojas do bairro com conceitos diversificados que vão de pequenos espaços para quem monta o primeiro negócio a lojas de caráter social para moradores sem pagar renda, blocos culturais como uma loja de vinil, uma rádio local, demonstrações de cultura urbana... é isso o mais importante na base do nosso projeto, que seja uma coisa integrada, com oferta diversificada".

Nessa lógica também, está integrada uma bolsa de emprego que pretende fazer a ligação entre as carências desses espaços e os moradores que estão à procura de trabalho. "Vão criar-se 300 empregos", concretiza. "Os investidores sabem que a taxa será sempre limitada porque mesmo que as receitas cresçam, esse dinheiro a mais já está destinado para investir mais no projeto. O que queremos é reconstruir a alma daquela zona."

Despedimo-nos com essa esperança de que os que ainda se opõem à ideia de Geoffroy Moreno para aquela área usem algum tempo para conhecer o projeto. E quem sabe até o enriqueçam com ideias de dentro, de quem ali vive. Seja como for, Lisboa continuará a ser a cidade que este parisiense quis viver. E a dos seus três filhos portugueses, a quem quer deixar o melhor sítio do mundo para crescer.

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