Um líder transacional na Casa Branca

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Há vários estilos de liderança, sendo difícil dizer que uns são melhores do que outros. Tudo depende do perfil das pessoas e das próprias circunstâncias. Com efeito, não é possível garantir se Winston Churchill, que foi um fantástico líder num dos períodos mais negros da história do seu país, seria hoje um político relevante.
Uma das tipologias mais interessantes - e digo-o porque é transversal a diversas áreas da gestão das organizações - é a que distingue líderes relacionais de líderes transacionais. Os primeiros, como próprio nome sugere, estão mais focados nos relacionamentos interpessoais e interorganizacionais, dando ênfase à prossecução de objetivos coletivos assente numa base de confiança. Richard Branson, Howard Schultz e Rui Nabeiro personificam este tipo de liderança.

Já os líderes transacionais tendem a estar mais focados em resultados e no cumprimento de tarefas. A sua abordagem pressupõe uma permanente “transação entre líder e liderados, muito assente num sistema de recompensas e punições. Casos deste tipo de liderança são os de Jack Welch, Elon Musk, Jeff Bezos… e Donald Trump.

Para se saber lidar com o futuro presidente dos Estados Unidos da América há que entender, de uma forma muito clara e não preconceituosa, o seu estilo de liderança. Dizer que é autocrático, egoísta, arrogante e mal-educado e que “nós“ é que somos democráticos, altruístas, comedidos e bem-educados irá ajudar pouco, em particular a nós europeus.
Para lidar com Trump, a primeira coisa a fazer é procurar “entender o homem” - e não apenas criticá-lo - nomeadamente quanto ao seu estilo de liderança. Estilo que, pelos vistos, é eficaz pois cativa metade da população de uma grande nação que é considerada um dos berços da democracia.

Tratando-se de um líder eminentemente transacional, a sua governação estará muito focada em resultados para os EUA, pelo que irá dar prioridade em atingir metas concretas e mensuráveis, como crescimento económico e redução da imigração. A sua forma de negociar será baseada em trocas, com grande ênfase em acordos bilaterais, o que pressuporá uma renegociação de tratados e acordos comerciais existentes de modo a gerar benefícios imediatos para os Estados Unidos.

Recompensas e punições serão um pilar da sua governação. Irá beneficiar aliados e apoiantes políticos e não terá pejo em penalizar com sanções económicas ou outras quem não atender às suas expectativas. O enfoque será sempre no curto prazo através da adoção de políticas que proporcionem ganhos imediatos, nem que para isso seja necessário sacrificar o longo prazo.

E, last but not least, irá assumir um estilo de comunicação e liderança autoritário, usando o habitual tom direto e polarizador, pouco preocupado em construir consensos amplos. Irá tomar decisões de forma centralizada e impulsiva, assumindo um papel ativo, mesmo em matérias que não domina, e supervisionando diretamente as questões mais importantes.
Donald Trump tem 78 anos, é um gestor experimentado e não é agora que vai mudar. Este é e será o seu estilo de liderança.

Os países europeus e a União Europeia em geral terão de encontrar a forma certa de lidar com a sua forma de governar. Não bastará dizer que é arrogante, impulsivo, agressivo, egoísta, autoritário (quiçá fascista), ignorante e irresponsável. Há que saber dialogar com alguém que é obcecado por resultados, principalmente económicos e de curto prazo, para o seu país.

Isto significa que do lado de lá do Atlântico vamos ter um presidente que, sendo visionário do MAGA (Make America Great Again), paradoxalmente não tem visão de longo prazo, o que não facilitará em nada a resposta aos grandes desafios globais como os que decorrem das alterações climáticas ou das desigualdades entre países; um presidente que terá sempre dificuldade em gerir situações complexas como as associadas a crises geopolíticas e de saúde pública - veja-se a forma desastrosa como geriu a pandemia da covid-19; um presidente que irá sempre dar preferência a acordos bilaterais, com a Rússia e a China à cabeça, em detrimento de uma cooperação multilateral que proporcione benefícios coletivos.
É este o perfil do novo presidente dos Estados Unidos da América. Estarão os europeus à altura de negociar com um líder assim tão obsessivamente transacional?

Professor da Porto Business School

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