Um país duplamente envelhecido?

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A população portuguesa é das mais envelhecidas do mundo. Ainda nesta semana a comunicação social revelava que Portugal está a envelhecer a um ritmo mais acelerado do que qualquer outro país da União Europeia. Na última década a idade mediana da nossa população aumentou 4,7 anos, existindo neste momento mais de 180 idosos por cada 100 jovens.

As grandes causas estão identificadas: aumento da esperança de vida (o que é bom) e quebra da taxa de natalidade (o que é mau). E as consequências também, sendo transversais a todos os setores da sociedade, desde o funcionamento do mercado laboral até à estruturação das famílias.

Uma das implicações mais graves prende-se com a sustentabilidade da Segurança Social uma vez que há cada vez menos trabalhadores a contribuírem para as reformas - e não só - daqueles que já se retiraram da vida ativa. Muito se tem escrito sobre isto, estando as soluções bem identificadas, a começar no apoio à natalidade e a acabar na adoção de políticas de atração de imigrantes.

Mas será que é só do ponto de vista biológico que Portugal está a envelhecer? Não haverá também um estado de espírito igualmente envelhecido, quiçá até mais do que aquilo que é revelado pelo cartão de cidadão?

Quando vejo desinteresse onde devia ver ambição.

Quando vejo aversão ao risco onde devia ver espírito de iniciativa.

Quando vejo pessimismo onde devia ver confiança.

Quando vejo modéstia a raiar a pequenez de espírito onde devia ver orgulho e grandeza.

Quando vejo fatalidade onde devia ver reconhecimento do sucesso.

Enfim, quando vejo tudo isto, fico a pensar: Portugal está a envelhecer duplamente. Não é só do ponto de vista biológico, mas também no que respeita ao espírito coletivo do povo. Não vou entrar em divagações, tentando adivinhar qual irá condicionar mais o país que vamos deixar aos nossos filhos e netos. Mas relembro aquilo que Aristóteles, há mais de dois milénios, dizia: "Uma nação não é feita de montanhas e árvores, mas sim, do carácter dos seus cidadãos".

Esse é o problema de Portugal - ou melhor, o desafio, pois é necessário mudar muita coisa. Mas seguindo a perspetiva positiva virada para as soluções e não para os problemas que sempre procuro adotar, não me posso esquecer de que, como Albert Einstein afirmou, "os problemas não podem ser resolvidos com o mesmo mindset de quem os criou".

Carlos Brito, professor da Universidade do Porto - Faculdade de Economia e Porto Business School

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