O Ministro da Economia afirmou recentemente que em Portugal as empresas estão "muito viciadas" no endividamento bancário. Tem toda a razão. É, aliás, um fenómeno bem documentado que encontra as suas raízes em fatores tão diversos como a falta generalizada de capital e a aversão ao risco.
Inspirando-me naquela expressão, posso também afirmar que o nosso país é viciado em salários baixos. Estamos todos acomodados a níveis de remuneração ridículos face ao potencial de criação de riqueza: as empresas estão acomodadas, o Estado idem aspas e os trabalhadores também. Exceção feita a algumas classes mais reivindicativas, geralmente associadas ao funcionalismo ou empresas da esfera pública, como é o caso dos professores e dos ferroviários.
A verdade é que com o nível atual de criação de riqueza a margem para aumentar os salários é diminuta. Os partidos mais à esquerda e os sindicatos que nela orbitam adotam uma postura à Robin dos Bosques: há que tirar aos ricos para dar aos pobres. Afirmam, aliás, que os lucros aumentaram em muitos casos de forma significativa, coisa que não aconteceu com os salários.
Têm toda a razão, embora se deva reconhecer que se trata de lucros extraordinários decorrentes de uma situação conjuntural. Isto não significa que a atuação de certos agentes económicos não mereça fortes críticas neste aspeto, como é o caso da banca e de vários grupos ligados à grande distribuição.
A solução não passa por aumentar salários à custa dos lucros de hoje - até porque ninguém nos garante que esses lucros se mantenham no futuro. O desafio passa por aumentar de forma sustentável a geração de riqueza, aproveitando todo o potencial que possuímos. E isso não se consegue com decretos (do governo), greves (dos sindicatos) e oportunismo (das empresas).
Consegue-se, sim, com mais produtividade dos serviços públicos e maior competitividade das empresas. Àqueles pede-se que cumpram a missão para que foram concebidos usando de forma eficiente recursos que são todos. A desorganização em que caiu o SNS não decorre de falta de meios financeiros - é, essencialmente, o resultado de erros de gestão que se foram acumulando.
Por outro lado, às empresas pede-se que sejam mais eficazes, acrescentando mais valor aos produtos e serviços que vendem, assegurando níveis de produtividade que tirem partido efetivo da evolução tecnológica e, last but not least, adotando estratégias de marketing que conduzam à criação de marcas internacionalmente fortes.
Tudo isto pressupõe duas coisas: melhor organização e maior ambição. Enquanto continuarmos a coletivamente trabalhar mal (compensando, muitas vezes, com demasiadas horas passadas no posto de trabalho) e nos contentarmos com o pouco que criamos (afirmando que "coitadinhos, somos pobres"), vamos continuar a assistir à saída de talento, mantendo-nos assim na trajetória descendente que só irá parar quando chegarmos definitivamente à cauda da Europa.
Professor da Universidade do Porto - Faculdade de Economia e Porto Business School