Quem desejar fazer uma análise mais detalhada sobre o mundo ibero-americano o melhor é começar já aqui ao lado, pela nossa vizinha Espanha. É neste contexto que nos deparamos, uma vez mais, com a já clássica comparação entre as duas cidades de referência: Madrid versus Barcelona. Esta rivalidade alcança a sua máxima expressão popular no mundo do futebol, mas na verdade tem raízes históricas, políticas e, naturalmente, económicas.
No século VIII, a Catalunha formou-se como um condado ibérico dependente do Rei dos Francos. Nos finais do século X, as desavenças entre o conde de Borrell e Hugo Capeto levaram o nobre catalão a cunhar a própria moeda. Mais tarde, em 1137 dá-se a união dinástica com a coroa de Aragão. Além de condado foi principado, e fez parte de uniões e confederações até ficar sob o domínio da Monarquia de Espanha, ou seja, dos Reis Católicos e sua descendência. Isto significa que, embora quase sempre autónoma, em termos administrativos e simbólicos (o escudo, a moeda), nunca foi verdadeiramente independente, pelo menos no mesmo sentido que Portugal o é desde 1143.
A identidade catalã existe, mas sempre deambulou entre acordos e cisões com reinos dominantes, tais como a França, Aragão, Castela e a Coroa Espanhola. Ora, aparte as razões politicamente corretas ou de revisionismo histórico, existe uma razão fundamental para a Catalunha nunca ter conquistado o seu lugar no mundo como um reino ou uma república totalmente independente: a sua dimensão, ou falta dela. Na realidade, a Catalunha nunca teve, por si mesma, a dimensão superior a um principado. E ainda hoje isto se reflete na comparação entre a sua principal cidade, Barcelona, e a sua rival e primaz referência, Madrid.
A prova do algodão está na economia. O PIB de Espanha é de aproximadamente 1.18 Triliões de Euros (2019), do qual 20% provém da Catalunha, com 236.8 mil milhões; sendo que apenas Barcelona representa 35% do PIB catalão e 7.4% do total nacional, com 87.4 mil milhões. Além disso, a cidade das Ramblas é a sede de alguns dos maiores grupos espanhóis, tais como a SEAT, Caixabank e a Naturgy (ex-Gas Natural Fenosa, que lá mantém o centro administrativo e operacional). Não é coisa pouca. Principalmente, se a isto juntarmos o facto de ser a 10.ª maior cidade europeia, em termos populacionais, com 1.6 milhões de habitantes, e gozar de uma situação geográfica privilegiada; tanto em relação a França e ao centro da Europa, com voos de curta distância, bem como à Itália e ao Mediterrâneo. No entanto, quando comparamos estes dados com os da capital espanhola logo nos damos conta da diferença entre ser um "principado" e um "reinado" que se destaca a nível global.
Madrid tem a sua própria comunidade ou região autónoma, a qual produz 240.1 mil milhões de euros (20.3% do PIB espanhol), cerca de 3.3 mil milhões mais que a Catalunha inteira. Só o município madrileno produz 133.1 mil milhões, mais 45.7 mil milhões que Barcelona, representando 12% do total nacional. Deste modo, monopoliza as sedes dos maiores grupos económicos da Península Ibérica, desde a Repsol, CEPSA, Endesa e Iberdrola, à Telefónica, Orange, Iberia, Santander, El Corte Inglés, entre outros. Até a Naturgy tem a sua sede legal na capital, ainda que o centro de operações se mantenha no berço catalão.
Sendo hoje a 2ª cidade mais populosa da UE, Madrid tem aproximadamente 3.3 milhões de habitantes, atrás somente de Berlim, com 3.4 milhões. No que respeita a sua localização geográfica, apesar de não estar tão próxima de França e do centro da Europa, goza da localização perfeita para agregar a Península Ibérica e liderá-la na sua relação com o mundo global. Com efeito, foi justamente por isso escolhida para assentar a Corte de Filipe II, em 1561, situando-se num eixo que conecta Lisboa, Sevilha, Málaga, Corunha, Bilbao, Barcelona e a fronteira dos Pirenéus. A partir de Madrid, temos linhas férreas e aéreas que nos ligam diretamente a todos os cantos da península, e que, por sua vez, a interligam a qualquer parte do globo. Outro aspeto relevante é o preço das casas, ou dos alquileres. Pois, apesar de ser mais caro viver nos melhores bairros da capital, esta também oferece uma variedade de opções menos dispendiosas e com melhor relação qualidade preço que na cidade condal.
A estes fatores, junta-se a mentalidade política. Com um eleitorado mais conservador, Madrid tende a eleger programas que favorecem a unidade e estabilidade de Espanha, além de serem um pouco menos propícios ao estatismo e a impostos absurdos, de cariz socialista e marxista, como é o caso das heranças. Com efeito, as sucessões na capital espanhola têm uma bonificação de 99%, pelo que a quantia taxada é, geralmente, irrisória. Já em Barcelona, essa bonificação só se aplica a cônjuges, estando os demais herdeiros sujeitos à taxa que vai dos 7% aos 32%. Isto para não falar dos independentismos e da indústria do conflito (feminismo radical, justiça racial, etc.), fenómenos com demasiada recetividade na Catalunha e que, regra geral, conduzem ao termo que mais afugenta o investimento sadio: imprevisibilidade.
Enfim, não me interpretem mal. A ideia deste artigo não é pregar contra lutas e opiniões políticas das quais discordo, nem muito menos desvalorizar a cidade do Gaudí e da Sagrada Família, das Ramblas e do Camp Nou. Tenho profundo respeito pela história e cultura de Barcelona. Outro aspeto que admiro é a boa imprensa que a cidade, e a comunidade em geral, conseguiu fomentar. Em parte, com os apoios que deu às artes e cultura, nomeadamente ao cinema. Quem não se recorda do Vicky Cristina Barcelona (2008), de Woody Allen, ou do clássico The Passenger (1975), de Michelangelo Antonioni? E já que falamos em memórias, quem poderá esquecer-se dos magníficos Jogos Olímpicos de 1992 e do dueto de Freddy Mercury com Montserrat Caballé?
A perspetiva que sobretudo me importa é a do investidor. Para tal, há que ter noção das dinâmicas, potencialidades e dimensão económica dos países e localidades em análise. Neste caso, comparando as principais cidades de Espanha, é certo que Barcelona pode destacar-se pelas suas especificidades. Por exemplo, tem excelentes condições para negócios de alguma forma ligados ao sul de França, ao Mediterrâneo ou à própria Catalunha que, sem dúvida, é uma zona rica. No entanto, não podemos ignorar as suas limitações, entre os demais fatores mencionados.
Por melhores características que tenha, Barcelona é justamente conhecida como a cidade condal. Ela é a estrela do antigo condado, ou do antigo principado, mas não tem capacidade para agregar mais que a comunidade à qual pertence. A questão do idioma, aliás, ilustra bem esta realidade. Com apenas 9.1 milhões de falantes, o catalão ocupa o modestíssimo 88º lugar entre os mais falados no mundo. Sejamos práticos. Pode ser divertido, nos primeiros dias, deambular entre indicações de trânsito escritas numa língua vagamente compreensível. Mas, depois há os documentos oficiais, manuais, regras e códigos que nos afogam inevitavelmente no provincianismo. Uma cidade verdadeiramente cosmopolita tem de falar e escrever numa linguagem global, a qual assenta necessariamente na língua que a sustenta e lhe dá vida.
Por fim, temos a ligação com a Ibero-América, quase toda ela alicerçada no castelhano - nada menos que o 2º idioma com mais falantes nativos no mundo, 480 milhões. Deste modo, não espanta que seja Madrid quem efetivamente compete pela liderança da constelação Iberoamericana - e com concorrentes de peso, como é o caso de Miami (tema sobre o qual falaremos noutra ocasião). Afinal de contas, não é por ser a capital que Madrid passou a ter capacidade agregadora, mas o contrário. Foi escolhida para ser a capital precisamente pelo seu potencial de agregação. E hoje congrega em seu torno não apenas as diferentes comunidades espanholas (incluindo a Catalunha) como, em certa medida, todo o mundo hispanófono.
Segundo o ranking de monitorização empresarial Merco, entre o top 50 das multinacionais mais reputadas a operar na Ibero-América, estão sediadas em Madrid a Telefónica (7º), Santander (14º), MAPFRE (21º) e a Repsol (41º). Ao todo, quatro. Barcelona não tem nenhuma.
João AB Silva, Economista e Investidor