Um sobressalto que se estende para lá de março

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Temos de sair da primavera sem o verão e o outono ameaçados." As palavras são do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no discurso que ouvimos nesta semana, a propósito da renovação do Estado de Emergência. São vários os agentes económicos que, em off, admitem antever mais um ano perdido. Porquê? É realismo e não pessimismo, respondem as mesmas vozes. Com a vacinação de 70% da população europeia a chegar só lá para a rentrée - na melhor das hipóteses e se nenhum laboratório voltar a falhar os prazos de entrega -, as atividades económicas ficam em suspenso.

Veja-se o caso de Portugal: além da violência da terceira vaga de covid, que ainda estamos a sentir, o país depara-se com a redução do número de vacinas disponíveis e previstas pela União Europeia: em vez de 4,4 milhões, que dariam para cerca de 2 milhões de portugueses, vão chegar apenas 1,98 milhões de doses no primeiro trimestre. Portanto, só metade das vacinas estimadas desembarcarão em território nacional até março. Este é, aliás, um dos riscos identificados nesta semana pelo primeiro-ministro, a que somou o risco das novas variantes do vírus.

Os novos perigos tenderão a fazer prolongar o confinamento, receiam os empresários. Fazendo as contas apenas até dia 31 de março, o fecho do país poderá fazer com que desapareçam mais de mil milhões de euros, antecipou a Comissão Europeia no boletim económico de inverno. Bruxelas lamenta e diz que Portugal acaba por aparecer como o pior caso da União Europeia em termos de desempenho da economia neste arranque de ano. E continua: constata que Portugal teve, no início do ano, um dos piores desenvolvimentos na "curva" pandémica, com um aumento enorme de casos, de internados e de óbitos. Estima que a introdução de medidas mais restritivas no âmbito do confinamento a partir de meados de janeiro deverá levar a uma nova quebra do PIB no primeiro trimestre de 2021 de -2,1%. É o retrato mais negativo, seguido da Irlanda (-1,6%) e da Áustria (-1,4%).

É precisamente por a economia cair 2,1% que o país pode perder esses mais de mil milhões de euros, devido às restrições à atividade empresarial e à circulação de pessoas. Este é um valor pesado, um fardo que fica sobre os nossos ombros. Não é, para já, uma fatalidade e pode até ser recuperado mais adiante, mas deixa o país e as empresas em total sobressalto.

Jornalista

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