A temperatura amena e a incrível luz natural de Los Angeles pintaram um cenário ideal para a abertura do primeiro Primavera Sound de sempre fora da Europa, durante o último fim-de-semana. A expansão do icónico festival de música que nasceu em Barcelona e cresceu no Porto estava a ser sonhada há vários anos, mas a covid-19 "teve outros planos", como disse o vocalista dos Nine Inch Nails, Trent Reznor, no magnífico concerto que a banda deu na segunda noite.
Los Angeles, com todo o seu glamour, concentração de celebridades e tradição na indústria, não era o sitio mais óbvio para esta expansão. Há muitos festivais à escolha para quem vive no sul da Califórnia e a cidade é paragem obrigatória para qualquer artista em tourné. Isso significa que a audiência tem um leque de escolhas variado e não necessariamente acorrerá a comprar bilhetes para o próximo novo festival.
Mas o Primavera Sound esculpiu um lugar muito único na indústria dos festivais, com o seu alinhamento eclético e uma vibração única, misturando bandas consagradas com estrelas prestes a explodir. E quem esteve no LA State Historic Park este fim-de-semana deixou-se enlevar pelo sopro ibérico do festival. Houve qualquer coisa de específico, diferente e internacional no evento. Isso mesmo foi-me repetido por vários entrevistados, que apontavam para um certo factor "cool" e sentimento "chill" no festival e nas suas multidões.
Terá sido possível exportar o espírito ibérico que criou o Primavera Sound? Certamente parece que sim. Alfonso Lanza, co-director do festival, disse que Los Angeles foi escolhida por ter uma "vibração" semelhante a Barcelona e, de certo modo, também ao Porto, começando pela proximidade ao mar. Os próximos destinos de expansão são radicalmente diferentes - São Paulo, Santiago do Chile e Buenos Aires - mas os organizadores sabem que cada cidade tem o seu espírito e que um festival não é um franchise.
Isso torna-se ainda mais relevante quando olhamos para o peculiar panorama em que a indústria se encontra. Depois da paragem devastadora da covid-19, houve um renascimento espectacular dos eventos de entretenimento. As pessoas estavam sedentas de distracções, viagens e diversão, e os eventos que anunciaram o seu regresso facilmente conseguiam vender a maior parte das entradas ou até esgotar a capacidade.
No entanto, algures entre as variantes da Ómicron, a escalada da inflação e os receios de uma recessão, o cenário começou a mudar. Em 2022, múltiplos festivais foram cancelados devido a baixa venda de bilhetes, problemas logísticos ou questões com as bandas. O Viva! LA Music Festival em junho foi cancelado, assim como o Day N Vegas em Las Vegas e o Soulfrito Music Fest em Nova Iorque, ambos em setembro.
Analistas falam em saturação do mercado mesclada com outros condicionantes, como a escassez de mão-de-obra, o número de artistas que estão em tour e o preço elevado dos bilhetes. O passe de três dias do Primavera Sound LA, por exemplo, custava 425 dólares, e quem quis acesso à zona VIP pagou 925 dólares. E isto não é um preço fora do normal para um festival desta natureza, com 65 bandas e cabeças-de-cartaz de primeira linha - Lorde, Nine Inch Nails e Arctic Monkeys. A questão é, haverá procura para a diversidade de oferta que encontramos nesta pós-pandemia?
Eu diria que para o Primavera Sound LA sim, haverá. O festival é específico o suficiente para atrair o que Lorde chamou de "cool kids", uma audiência angelina que sabe divertir-se e apreciar boa música. Nota também para a organização impecável do evento, com palcos bem distribuídos, horários de concertos sem grande sobreposição (algo que é uma dor de cabeça no Coachella) e fluidez geral. As filas andavam depressa, o chão estava constantemente a ser limpo e as casas-de-banho bem cuidadas. As experiências de marketing estavam interessantes sem serem demasiado intrusivas. O sinal luminoso "Criado em Barcelona", em contraste com o horizonte da baixa de LA, não deixava esquecer de onde veio tudo isto.
Talvez só mesmo no próximo ano seja possível perceber que lugar o Primavera Sound ocupará, e também será interessante ver como a indústria irá responder à saturação que se verifica.
Aparte de tudo isto, apercebi-me de quão ao lado atirámos quando previmos que tudo iria mudar de forma permanente por causa da covid-19. A ideia de que seríamos uma sociedade diferente, desconfiada de grandes amontoados em público e agarrada às máscaras durante anos estava 100% errada. Se alguém caísse de pára-quedas neste Primavera Sound sem saber que tinha havido uma pandemia, não o adivinharia. Tão rapidamente quanto nos fechámos em casa a fazer pão também voltámos, de braços abertos, a fazer tudo como era dantes. Desconcertante, talvez prematuro, e surpreendente: é quase como se a pandemia não tivesse existido.