A matéria negra também é uma belíssima metáfora para dar conta do que se passa na ponta oeste de um continente do hemisfério norte do terceiro planeta a orbitar uma estrela situada numa das espirais da galáxia conhecida como Via Láctea; um sítio onde a percentagem de negro deve rondar os 99% de tudo o que é actualidade veiculada nos media. Senão, vejamos:
Dando de barato que a imprensa generalista tem a missão do negro - dívida, bancos falidos, gestores e políticos manhosos, sindicatos vociferantes, Rússia e Alemanha, arte e artistas neo-deprimidos e crime sem castigo - resta o entretenimento, as publicações cor-de-rosa e a publicidade, supostas fontes de sorriso e de luz. Mas nada disso se vê faz tempo.
O entretenimento é banal, repetitivo e cheio de lugares comuns. A principal ideia do planeta entretenimento é quatro tipos a falar sobre bola em todos os canais de televisão ao mesmo tempo. Nada haveria de menos luminoso, não fosse a obsessão de todas as revistas cor-de-rosa, todo o santo Verão, pela Judite de Sousa; foram bancas e escaparates pintados de negrume cor-de-rosa. Uma neura.
Noutros tempos, como contra-peso, havia publicidade divertida, inteligente, e esteticamente cuidada. Um oásis de luz num deserto de pó preto. Mas também aqui se desistiu da inteligência e do humor. Tudo é banal ou estúpido ou irritante (às vezes faz-se o pleno).
O universo das artes da comunicação em Portugal é composto quase exclusivamente de matéria negra: lugares-comuns, parvoíce e imitações baratas do que noutros sítios se faz. São raros, raríssimos, os exemplos de luz.
A minha perplexidade não é com o negro. A minha perplexidade é que não apareça nada de original e radiante de energia criativa, algo diferente do breu, porque a acontecer resultaria como resulta o Sol. Isso eu sei de certeza absoluta. Ora se, como eu sei, a luz triunfa sobre as trevas, ou pelo menos dá mais nas vistas, por que razão não aparece uma excepção luminosa?
Os velhos e instalados criadores de conteúdos, de cabelos brancos e com uma caixa de truques gastos - e pais de um rol de filhos cujos colégios têm de ser pagos -, já não conseguem fazer luz. Estão resignados, têm filhos e têm medo por eles. É a vida, ou melhor, a vidinha.
Mas não haverá ninguém novo, criativo e estupidamente sonhador, sem nada a perder para aproveitar este marasmo da cor do sovaco de um grilo?
"Ah pois é", disse-me um amigo. "Essas já não são as regras do jogo. Hoje, o sonho de quem é estupidamente novo e criativo não é arriscar e fazer diferente aqui; o sonho estúpido é fugir para longe daqui." Parece que os novos e ambiciosos criativos passam o tempo a fazer protótipos de ideias e a enviá-las, com o curriculum, lá para fora. Instalou-se a ideia de que aqui só ficam os losers - e não é só no universo das artes da comunicação.
Havia um graffiti que dizia "o último a sair apague a luz". Amanhã, se não ficar ninguém para a manter acesa, só haverá matéria negra.
Publicitário, psicossociólogo e autor
Escreve à sexta-feira
Escreve de acordo com a antiga ortografia