Desde a sua primeira edição em Lisboa, em 2016, que a Web Summit suscita paixões e ódios. Se foi apregoado por uns como um evento “catalisador da economia portuguesa”, capaz de transformar o ecossistema das startups nacionais, outros rapidamente o tentaram apoucar, caricaturando-o como um local onde os empreendedores e as suas equipas vinham fazer umas festas.
Um cofundador de um dos unicórnios portugueses, a Remote, chamou-lhe “uma Exponoivos para startups”, um local que não traz o “negócio real” que as empresas precisam. Paixões e ódios.
O certo é que a Web Summit entrou na vida dos empresários e empreendedores portugueses, que consideram o evento como um ponto importante da sua agenda, um momento para analisar “o estado da arte” dos diferentes setores (tecnológicos ou não), um local para uma reflexão conjunta com alguns dos melhores pensadores mundiais na matéria.
A agenda deste ano não tem falta de temas. Portugal, o país anfitrião da Web Summit, é um case study de fuga de cérebros formados nas universidades nacionais, instituições que fizeram bem o seu trabalho na formação de talento, mas que não foram acompanhadas pelas empresas na valorização salarial.
Resultado: no Portugal de 2024 exportam-se engenheiros e coders para os Países Baixos, para a Alemanha e para o Reino Unido. E importa-se (excelente) talento proveniente da América Latina. Será que o crescimento anémico da economia portuguesa transformou este cenário numa inevitabilidade? E será este um problema assim tão grande? Não é este o futuro global, com cada vez menos preconceitos e receios de trabalhar fora do país natal? Os “tech influencers” presentes na Web Summit poderão responder.
Outro tema será o de perceber se países pequenos como Portugal podem ser fortes e relevantes em setores nos quais têm pouca indústria. Explico. Há pouco mais de um mês, uma multinacional suíça de indústria aeroespacial, a Beyond Gravity, anunciou que os seus escritórios em Lisboa serão o principal centro de investigação do grupo, reunindo centenas dos melhores especialistas, focados em soluções de colocação de carga e satélites no espaço. Em Portugal, um país com pouca tradição e quase nenhuma indústria neste setor. A tecnologia e a inovação encurtaram assim tanto as distâncias que Portugal agora é central devido ao seu talento, às suas universidades, à sua cultura de colaboração e ética de trabalho?
As respostas a estas e outras (muitas) perguntas podem e devem levar os empreendedores portugueses à Web Summit deste ano, mesmo que para isso tenham de sofrer os mais de 15 minutos do habitual desfile político nos palcos do Meo Arena. Afinal de contas, há Estado (central e local, seguramente) a pagar, com vários milhões, a presença da Web Summit de Paddy Cosgrove em Lisboa. Por quanto tempo e em que formato também poderá ser motivo de notícia na edição deste ano.