Underdog Founders. Português que lançou empresa com o ChatGPT cria plataforma para fazedores subestimados

João Ferrão dos Santos está à frente de duas ideias com grande potencial de crescimento: uma empresa criada a partir do ChatGPT, AIsthetic, e uma plataforma para ajudar fundadores a encontrar investidores, clientes e talento, Underdog Founders.
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O mito dos fazedores que fundam empresas em garagens ou dormitórios e por golpes de genialidade atingem a glória e a fortuna omite as partes menos poéticas da construção de uma startup. Ou então salta a parte das condições privilegiadas em que isso aconteceu. É precisamente o contrário que o empreendedor português João Ferrão dos Santos, 34 anos, está a fazer com a criação de uma plataforma para fazedores sem privilégios, que à partida têm mais para falhar do que para vencer. Chama-se, apropriadamente, Underdog Founders.

"A ideia é mostrar uma perspetiva mais autêntica, mais real, de como é que é o percurso a sério de um empreendedor", disse o português ao Dinheiro Vivo, durante uma recente viagem aos Estados Unidos. "O que acaba por se ver nos média é sempre uma visão um pouco mais glorificada, sem aqueles momentos em que está tudo a arder."

A ideia é dar exposição online a fundadores inesperados, "contando a sua história e ajudando-os a encontrar investidores, clientes e talento". Com a montagem do site e a partilha de conteúdos no LinkedIn e Substack, o passo seguinte será a criação de um fundo de investimento para investir nas melhores ideias que passem pela plataforma. O fundo será lançado na segunda metade de 2023.

"Estou especialmente interessado nas histórias dos empreendedores que ainda não tiveram uma saída e estão a inovar num mercado onde não estiveram a trabalhar nos últimos três a cinco anos", detalha João Ferrão dos Santos. "Ou seja, se alguém vier ter comigo e disser que trabalha em moda há cinco anos e quer promover a sua história, eu não quero."
O português, que trabalha em startups há dez anos e está ele próprio a viver uma história de Cinderela com uma empresa gerada a partir do ChatGPT, procura fundadores sem experiência nem bolsos fundos que decidiram dar o salto.
"O objetivo é cobrir o percurso de pessoas que decidem montar uma empresa sem terem um imenso conhecimento dentro da indústria e sem terem levantado milhões", sublinhou. "Normalmente têm muitas rejeições de clientes e investidores de capital de risco. O ponto mais importante de todos é que, apesar disso, eles não desistiram e conseguiram encontrar o "product-market fit"."

Há um elemento de coincidência notável entre aquilo que João Ferrão dos Santos está a montar e o que lhe aconteceu como fundador no último mês. O português, licenciado em Economia e com um mestrado em Gestão, trabalhou como nómada digital nos últimos dois anos e passou por vários países, de Espanha ao México. Estava a viver em Banguecoque, Tailândia, quando em meados de março viu um tweet de Jackson Fall que lhe chamou a atenção.
Era sobre instruir o bot conversacional ChatGPT a criar a empresa mais lucrativa de sempre com um capital inicial de 100 dólares e documentar a evolução. João Ferrão dos Santos questionou-se sobre o que aconteceria se mudasse algumas das variáveis.

"Estou em startups há dez anos e andava a seguir o que acontecia, mas ainda não tinha passado muito tempo a explorar a ferramenta. E então pensei, adoro esta ideia e vou dizer ao sistema que quero trabalhar uma hora por dia e ter capital inicial de mil dólares." Ia fazer o que o ChatGPT lhe dissesse durante 30 dias.

O bot deu três ideias de empresa e uma delas mostrou-se ideal: um negócio online de impressão de t-shirts a pedido, com um parceiro que trata de tudo.

"A impressão on demand não exige stock do que se vende. Quando alguém compra no site temos um parceiro que estampa o logotipo ou design, tem a morada do consumidor final e envia tudo." A premissa era simples e a ideia estava montada ao final de duas horas, já com 2500 euros de capital inicial porque alguns amigos quiseram entrar na experiência. O ChatGPT sugeriu o nome AIsthetic Apparel, com designs criados por modelos de Inteligência Artificial generativa, elaborou um plano de negócios de dez passos e o gerador de imagens Midjourney criou o logotipo. A loja ia ser no Shopify e o parceiro de impressão a Printful. Estava tudo a postos, sem grande necessidade de intervenção adicional. João Ferrão achou que ia funcionar pela simplicidade do processo. "Não tens de tocar nas operações. Só tens de ter uma loja e promovê-la para que as pessoas queiram comprar o que estás a vender."

E essa promoção foi feita no LinkedIn, com uma publicação detalhada sobre o processo que se tornou viral.
"Tinha passado algum tempo a estudar como é que o algoritmo do LinkedIn funciona e já tinha estado a publicar histórias de Underdog Founders", explicou João Ferrão dos Santos. "Já tinha um "following" consistente e escrevi o post de forma estratégica para ser uma coisa entusiasmante, dizendo simplesmente a verdade, mas bem escrito", acrescentou.

A fórmula funcionou. A publicação começou a ser partilhada e comentada aos milhares e já tem mais de 5,5 milhões de visualizações. O interesse traduziu-se em vendas: com empresa criada e lançada em quatro dias, a AIsthetic Apparel atingiu vendas de 12 500 euros no primeiro mês, sem outra promoção além de posts diários no LinkedIn.

"A insanidade total começou a acontecer", descreveu João Ferrão dos Santos. "Tive mais de 40 pessoas a perguntar se podiam investir na empresa. Tive mais de 20 a pedir se podiam fazer um franchise da marca." A resposta foi tão avassaladora que acabou por ter a ajuda de dois amigos dinamarqueses, Martin Petersen e Frederik Van Deurs, que não só contribuíram para o capital inicial como ajudaram com a abertura da empresa, que assim ficou com sede em Copenhaga.

O interesse gerado chamou a atenção da CBS News e levou o gestor português a ser convidado a entrar num documentário sobre Inteligência Artificial, que foi gravado na semana passada. Também foi notado pelo Consulado da Dinamarca em Nova Iorque, que convidou João Ferrão dos Santos para ser orador num evento de investimento em países nórdicos, marcado para 10 de maio.

E traduziu-se numa ronda inesperada de financiamento: "O montante total que investidores ofereceram para investir é de 300 mil euros e 120 mil já estão assinados."
O curioso é que a ideia da AIsthetic Apparel não é propriamente disruptiva. Para o português, mostra o impacto que o ChatGPT e tecnologias adjacentes estão a ter atualmente.

"Isto prova que, neste momento, há um interesse gigante em tudo o que tem a ver com Inteligência Artificial", afirmou. "É o que toda a gente no LinkedIn está a falar a toda a hora. Acho que prova que, além de saber aproveitar o tema do momento, se conseguirmos criar conteúdo interessante para as pessoas, porque elas conseguem aprender alguma coisa ou ficam inspiradas, tem um impacto muito forte."

Com o progresso a um ritmo estonteante, depois de participar em podcasts de seis países diferentes e organizar "meetups" de Singapura a Palo Alto, Ferrão dos Santos percebeu que este era o momento para capitalizar a atenção. Vai esvaziar o apartamento em Banguecoque e pretende mudar-se para os Estados Unidos, possivelmente Silicon Valley, de forma a alavancar as duas empresas que lidera. A sua paixão é a Underdog Founders e o sucesso inicial da AIsthetic pode permitir-lhe dar o salto. Até porque, refere, não precisa de um investimento gigantesco para montar a estrutura base: entre 250 a 400 mil euros. A ambição é, no entanto, mais rica do que isso.

"Um dos meus objetivos com a Underdog Founders é conseguirmos juntar-nos à TechCrunch no pódio como uma marca que mostra o percurso autêntico de empreendedores que têm boas jornadas de vida."
O modelo de negócio será baseado na publicidade, mas Ferrão dos Santos apressa-se a sublinhar que "é mais por paixão do que por dinheiro" que está a montar a ideia.

"É para ajudar estas startups a crescer e a ter mais visibilidade e ao mesmo tempo mostrar às pessoas que gostam de empreendedorismo como é que estas histórias de vida evoluem de uma forma um pouco mais real."
O mercado parece estar recetivo, com as primeiras publicações a atingirem centenas de milhares de visualizações e Ferrão dos Santos a ser "apresentado a fundadores por todo o mundo."

A seguir, vai montar o fundo de investimento para investir nos melhores Underdog Founders. "Este é o meu projeto para os próximos cinco a dez anos", afiança. "É o meu bebé."

Em Los Angeles

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