Antes só eram encontrados, nas bombas low cost, que operam junto dos super e hipermercados. Nas bombas ditas normais, todos os combustíveis vendidos eram aditivados.
Manuel Gameiro, do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra, dá-nos a sua opinião independente e fundamentada.
Que diferenças há entre os combustíveis simples, até hoje só vendidos nas bombas low cost, e os aditivados vendidos nas bombas normais?
As diferenças são ao nível da quantidade e da qualidade dos aditivos usados na sua formulação. Os combustíveis low-cost não contêm os aditivos classificados como melhoradores de desempenho.
Há realmente vantagens em utilizar combustíveis aditivados e quais?
Os aditivos usados nos combustíveis são desenvolvidos com os seguintes objetivos gerais: reduzir os níveis das emissões poluentes resultantes do processo de combustão nos motores dos veículos; aumentar a potência específica dos motores, diminuir os consumos de combustível, aumentar os intervalos de manutenção, melhorar a fiabilidade dos motores. De uma forma não exaustiva, podemos considerar os seguintes tipos de aditivos: controladores dos depósitos de partículas, melhoradores de cetano, modificadores de fricção, melhoradores de lubricidade, inibidores de corrosão, aditivos antiespuma, inibidores de emulsão, e catalisadores com origem no combustível para os filtros de partículas.
Usam-se aditivos nos combustíveis desde praticamente os primórdios da indústria automóvel, tendo os primeiros sido introduzidos para evitar os chamados problemas de autodetonação cerca de 1920. Ao longo da história da indústria automóvel a aditivação dos combustíveis foi respondendo aos novos desafios decorrentes da introdução de novas tecnologias. Há um enorme esforço de investigação no sentido de desenvolver combustíveis e aditivos que permitam responder aos desafios colocados pela legislação internacional em termos de emissão de poluentes e de eficiência energética, que se tem tornado sucessivamente mais exigente. Tenho sérias dúvidas que os veículos de hoje funcionem convenientemente com os combustíveis de ontem.
A minha opinião é que sim, há vantagens em usar os aditivos.
Do ponto de vista do custo/benefício justifica-se o seu uso?
A evolução recente dos motores, nomeadamente com os sistemas "common-rail" nos veículos a gasóleo e os sistemas de injeção direta nos veículos a gasolina, implicou que as pressões e temperaturas nos sistemas de injeção tenham subido muito. Assim, as condições de operacionalidade tornaram-se muito mais exigentes e passou a haver uma maior necessidade de garantir as tolerâncias dimensionais entre os vários componentes mecânicos.
Por exemplo, como os furos dos injetores têm agora diâmetros muito pequenos, da ordem de 0,1 mm, e a as pressões a montante dos mesmos são extremamente elevadas, no caso de não serem usados os aditivos de performance, esses furos vão ser sujeitos ao longo do tempo um processo de deposição de partículas que provoca o seu entupimento parcial, o que tem como consequência a perda de potência do motor e o aumento do consumo de combustível.
Este é um processo que, como referi, corresponde a uma acumulação ao longo do tempo, não é uma degradação instantânea. Podemos estabelecer uma analogia com o efeito das dietas alimentares nas pessoas. Não é uma refeição só que altera significativamente, por exemplo, o nível de colesterol no sangue, mas sim o efeito acumulado de uma alimentação pouco adequada ao longo do tempo. Os aditivos controladores de depósitos funcionam quer como um método preventivo, quer como o medicamento, pois têm capacidade para evitar a deposição e promover a remoção das partículas no interior dos orifícios dos injetores.
Para além deste efeito particular que referi há outras situações a considerar como, por exemplo, a prevenção do aparecimento de depósitos carbonosos no interior da câmara de combustão e nas válvulas. No caso dos modificadores de fricção, há uma diminuição dos atritos internos do motor, com a consequente redução dos consumos.
O uso de combustíveis simples (sem aditivos) pode representar riscos para os veículos ou o seu desempenho?
Principalmente nos motores mais modernos e mais evoluídos, em que o controlo eletrónico é mais sensível, usar combustíveis não aditivados pode significar uma degradação mais rápida do desempenho do motor e a incorrência em maiores custos de manutenção ao longo da vida do veículo.
Num carro em que sempre foi usado combustível aditivado, a mudança para combustível simples pode prejudicar o veículo?
Penso que a resposta já foi, de alguma forma, dada anteriormente. Não quer dizer que o veículo tenha imediatamente uma doença grave, mas vai ficando menos saudável mais rapidamente.
Está de acordo com a nova legislação que obriga todos os postos de abastecimento a venderem combustíveis simples?
Usando a mesma analogia que referi, parece-me que esta lei que foi recentemente publicada teria o equivalente, por exemplo, na obrigatoriedade de todos os restaurantes passarem a ter que servir "fast-food".
Na análise dos custos da utilização de um veículo, o preço unitário do litro de combustível não pode ser a única variável a ter em conta. E, na minha leitura da legislação, não vislumbrei uma explicação técnica ou uma análise económica cuidada que suporte o seu conteúdo, para além do facto de um combustível não aditivado poder vir a ser mais barato do que um aditivado. Receio que este nivelamento por baixo, em termos da qualidade do combustível, que no fundo significa um alheamento relativamente às vantagens do desenvolvimento tecnológico, venha ainda a ter, como consequência, um retrocesso em termos do cumprimento das metas ambientais a que o País está vinculado.