Foi Prémio Valmor em 1909 e recentemente voltou a encher páginas de jornais. O Palacete Henrique Mendonça, portfólio imobiliário da Universidade Nova de Lisboa até 2016, foi escolhido pelo príncipe Aga Khan para acolher a nova sede mundial do Imamat Ismaili. Foi uma venda de luxo numa altura em que o mercado imobiliário português começava a ganhar força nos circuitos internacionais mais fechados e a que, mais recentemente, a procura estrangeira deu gás.
Na Private Luxury Real Estate assiste-se da primeira fila ao novo apetite. No ano passado, o volume de negócios cresceu 30% e foram vendidos 50 imóveis, que não são prime nem premium, mas sim casas de superluxo. Os valores acima de um milhão de euros por imóvel ajudam a ditar a categoria, num mercado onde os estrangeiros já valem 75% das vendas. Mas há um pormenor fundamental, lembra Filipe Lourenço, diretor executivo da mediadora: “Temos produtos muito bons em Portugal, com muito bons materiais de construção, desde madeiras exóticas a cerâmicas, mas se há um fator que determina o luxo-luxo é a localização”, conta ao Dinheiro Vivo.
Em Lisboa, as zonas estão mais do que definidas: Príncipe Real, Chiado e Avenida da Liberdade são os três grandes polos de luxo portugueses, onde os preços por metro quadrado mais têm crescido e onde a oferta exclusiva gera maior concorrência. “A valorização acontece sempre que a oferta é menor e a procura maior. Os imóveis de luxo acompanham esta evolução do mercado. É óbvio que um bloco de apartamentos valoriza sempre menos do que um imóvel isolado”, assume Lourenço, que, mesmo servindo clientes para quem o preço pouco parece importar, pede atenção: “Há sempre espaço para a valorização, temos é de ter cautela. Se não houver um controlo na subida dos preços começamos a virar o foco de quem agora quer comprar em Portugal para outros países com valores um pouco mais baixos.”
Os trunfos são muitos. “Os clientes que nos procuram sabem exatamente o tipo de produto que querem porque vivem diariamente no mundo do luxo e vêm atraídos por algumas características como a luz, os edifícios históricos, a proximidade à costa...”
Neste campeonato, os estrangeiros dominam, e com o imobiliário nacional a ganhar nome lá fora, os mercados de origem têm-se multiplicado. “Já saímos do padrão normal dos europeus ou dos norte-americanos. Temos pessoas da Malásia, da Índia, entram-nos pela porta libaneses, finlandeses, pessoas do Canadá ou do Dubai, cada vez mais cidadãos do Médio Oriente.”
Os franceses e os norte-americanos preferem casas para short-rental, ou para investimento mais duradouro, mas “o segmento que alimenta o mercado é sem sombra de dúvida o particular”. São estes investidores que procuram as casas maiores “e têm uma capacidade financeira que lhes permite comprar porque gostam do apartamento”.
O que procura um investidor deste segmento? “Sempre a mesma coisa: imóvel com um terraço fantástico ou jardim e vista desafogada e panorâmica para o rio, o que já começa a não haver em Lisboa. Quando saem do eixo de Lisboa e vão para Cascais, pelas semelhanças à Florida, querem a casa com o oceano a entrar pela sala na primeira linha do mar.”
Os europeus juntam a estes critérios o desejo de viver em palácios antigos e são os franceses que mais procuram casas com história. Preferem a região de Lisboa e não pagam 400 ou 500 mil euros. “Nestes casos já estamos a falar da fasquia dos cinco milhões.” A Private Luxury Real Estate vendeu dois imóveis deste valor em 2017, depois de duas vendas no ano que antecedeu. “Foram dois palácios na Grande Lisboa.”
Os portugueses, apesar de em menor número, também acompanham este mercado e os valores por praticados. Além disso, têm uma vantagem em relação aos estrangeiros: “conhecem Portugal” e sabem “exatamente o que querem”. Talvez por isso fujam um pouco da zona do Chiado e prefiram comprar casa na Avenida da Liberdade, nas Avenidas Novas ou no Príncipe Real. Apenas “três ou quatro” procuram imóveis para investimento, mas a grande maioria opta por uma casa para a vida. “Porque moram em Lisboa, têm os filhos nos mesmos colégios que os estrangeiros procuram, e têm essa capacidade financeira.”
Mas sejam estrangeiros ou nacionais, uma coisa é certa: pagam pelo conforto. “O luxo está nos pormenores e muitas vezes na simplicidade”, diz Filipe Lourenço, que espera para 2018 um novo ano de recordes e o sexto de crescimento consecutivo.