As principais bolsas subiram este ano mais de dois dígitos. Nos EUA, passaram mesmo a barreira dos 20%. O S&P 500 ganhou 300% desde 2009 e em menos de dois anos valorizou 50%. São valores muito expressivos, se tivermos em conta o crescimento real das economias e o nível da inflação. À pergunta “o que justifica uma subida tão pronunciada das bolsas, sem sinais de abrandamento?”, a resposta mais fácil será: o excesso de liquidez no mercado.
Enquanto as taxas de juro se mantiverem em níveis historicamente baixos, sem que os investidores tenham uma alternativa rentável para aplicar o dinheiro, é natural que os mercados bolsistas prossigam o seu caminho ascendente. No entanto, é igualmente natural que se assista a correções, como a que se verificou nos últimos dias. Na Europa o índice das 600 maiores empresas recuou em vários dias consecutivos e na Ásia a bolsa japonesa caiu fortemente, arrastando para o vermelho os restantes índices da região, durante vários dias seguidos. Foi a maior sequência de quedas desde 2015.
Não será ainda motivo para alarme, contudo não convém ir de férias natalícias e deixar a ficha ligada à corrente. É que os principais gestores de património também querem acabar o ano de 2017 sem sobressaltos. E para isso estão a aproveitar a euforia para encaixar algumas mais-valias e vender as estrelas do ano - empresas tecnológicas e de mercados emergentes.
Adicionalmente, a consciencialização do valor colossal do défice dos EUA, conjugado com a reforma fiscal de Donald Trump, vieram ajudar ao movimento vendedor por parte dos grandes investidores, que não querem correr o risco de comprometer os bons resultados alcançados durante o ano. Na dúvida, vende-se e espera-se pelo começo de um novo ano. É uma estratégia inteligente, mas que poderá causar alguma volatilidade até ao final de dezembro. Seguindo a mesma lógica, se nada de dramático acontecer entretanto, há boas perspetivas para que 2018 comece com fulgor.
Para já, a onda negativa que assola os mercados parece ser apenas um movimento de realização de ganhos. Mas convém estar atento aos sinais para não ser apanhado por uma multidão que se decida despedir de 2017 vendendo em massa.
Miguel Gomes Silva, Diretor da sala de mercados do Montepio