Venezuela deve 3,5 mil milhões à aviação. TAP está presa por 100 milhões

A dívida da Venezuela às companhias aéreas internacionais não para de aumentar. Dois anos depois das primeiras dificuldades em repatriar dinheiro de bilhetes vendidos naquele país, as transportadoras têm já 3,5 mil milhões de euros a receber. Só a portuguesa TAP fechou o ano passado com mais de 100 milhões de euros em pagamentos retidos, isto numa altura em que os prejuízos do grupo ultrapassam 85 milhões de euros e a empresa está em processo de privatização.
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O bolívar venezuelano, a par da libra, do franco suíço, das moedas nórdicas, do Leste Europeu e do metical de Moçambique representam 20% das vendas da TAP. A pressão da companhia nacional sente-se, desde logo, pelo valor do câmbio face ao euro. Mas no caso da divisa venezuelana sente-se "igualmente um peso importante a nível da posição financeira, na tesouraria". A TAP tem 101 milhões de euros a receber, que resultam de "a transferência do valor acumulado resultante das vendas de períodos recentes se encontrar pendente de decisões morosas das autoridades da Venezuela".

Isto acontece porque o governo de Nicolas Maduro obriga a que a venda de bilhetes feita na Venezuela seja efetuada na moeda local e a uma taxa de câmbio oficial de 6,3 bolívares para cada dólar. O valor tem posteriormente de ser convertido e pago às companhias, mas as várias reuniões e apelos têm sido insuficientes para que aquele governo cumpra com os pagamentos.

A Associação de Linhas Aéreas da Venezuela (ALAV) estima que o executivo de Nicolas Maduro só tenha pago um quinto das dívidas que mantém perante as companhias de aviação, que, nas contas da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo), ascende já a 3,5 mil milhões de euros. Este valor abrange um total de 24 companhias internacionais e pagamentos que remontam aos anos de 2012, 2013 e 2014.

"Infelizmente, a Venezuela ainda não libertou quaisquer fundos em 2015", adiantou fonte oficial da IATA, que agrega 250 companhias internacionais, cerca de 84% do total de tráfego aéreo mundial, ao Dinheiro Vivo. Em 2014 "foram feitos alguns pagamentos, mas em muitos casos a taxas de câmbio inferiores às que tinham tido lugar quando os fundos foram gerados". Isto "produziu uma redução dos valores entregues", acrescentou a organização.

A ALAV estima que apenas três companhias respondam por mais de metade do total em dívida: a American Airlines tem retidos cerca de 650 milhões de euros, a Copa Airlines 560 milhões de euros e a Avianca, de Germán Efromovich, 765 milhões de euros.

Os constrangimentos financeiros que a retenção de pagamentos está a gerar nas companhias já levou algumas empresas de aviação a desistir de voar para a Venezuela. São os casos da Air Canada, Alitalia, Delta Airlines e American Airlines. Além disso, a ALAV refere que 40% das companhias que voavam para Caracas reduziram a sua oferta, entre elas a TAP, que passou a fazer apenas três ligações semanais a Caracas.

No Relatório e Contas de 2014, a empresa deixa ainda em cima da mesa a hipótese de avançar para outras soluções: "Importa salientar que as flutuações e desvalorizações futuras da moeda, bem como a política futura de repatriamento de capitais, não são controladas pelo grupo, pelo que um desfecho menos favorável desta situação poderá vir a originar, no futuro, a necessidade de algum ajustamento no valor das disponibilidades localizadas na Venezuela e, consequentemente, afetar negativamente o resultado das operações e a posição financeira do Grupo". No mesmo documento, a companhia aérea refere que tem mantido negociações regulares com o governo venezuelano "relativamente ao timing de repatriamento dos montantes indicados e taxas de câmbio aplicáveis."

Estes montantes são uma pedra no sapato de Fernando Pinto que, em pleno processo de privatização, tem dificuldades em aceder a crédito bancário. "Em condições normais contaríamos com praticamente mais 100 milhões de tesouraria da TAP e isso é uma situação que não nos agrada e traz dificuldades", afirmou Fernando Pinto na apresentação de resultados da TAP. Em 2014, a TAP apresentou um resultado líquido negativo de 85,1 milhões de euros, com os capitais próprios a recuar para 512 milhões negativos.

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