Vera era uma mulher num mundo de homens. Era uma das poucas presidentes de uma empresa de dimensão em Portugal e no mundo da construção, dominado por homens.
Nem sempre era compreendida no sector, nota Diogo Vaz Guedes, ex-presidente da Somague, apesar de lhe reconhecerem grande conhecimento do negócio onde trabalhou 22 anos. "A construção é um mundo de homens, mas a Vera sabia lidar com isso. É uma mulher de armas".
Vera Pires Coelho chegou à presidência da Edifer aos 33 anos, depois da morte do pai, numa escolha que à partida não era mais a provável.
"Porque é que são sempre os filhos rapazes a suceder na presidência?" A pergunta foi feita pela própria num evento promovido pela Carris, em dezembro. "Sou a terceira de quatro filhos, tenho um irmão e primos só homens, mas fui eu a escolhida. A decisão baseou-se em dez critérios estabelecidos pelo conselho de administração. Eu era a única que preenchia esses requisitos."
Hoje, admite, "pensaria tanto que não sei se aceitaria esse cargo".
Haverá mundo mais feminino do que a construção? Vera Pires Coelho reconhece que é um sector "agressivo, masculino e profundamente duro". Apesar disso, na Edifer, 14% dos cerca de 2500 colaboradores, em 2010, são mulheres e na empresa quase não há diferença entre os salários pagos a eles e a elas.
"Só posso dizer bem dela", diz Jorge Armindo que foi chairman da Edifer, cargo que era ocupado pela própria Vera até abandonar a empresa da família, esta semana. "É uma excelente profissional, completamente dedicada ao trabalho.
Os outros acionistas da família, nomeadamente os tios, depositaram toda a confiança nela. Foi sempre considerada a pessoa mais capaz. A sua saída da empresa é, por isso, "uma solução muito radical. Se calhar foi uma injustiça não ter ficado", realça.
"Vera geria a sua vida pessoal em função do trabalho. Começava a trabalhar às 8h30 e só acabava lá para as dez da noite". Mas para as mulheres que querem ser líderes fica o conselho de quem trabalha 14 horas por dia. "É preciso equilíbrio. Não devemos abdicar de ter vida familiar, ou somos incompletas."
Com formação em economia, Vera Pires Coelho conseguiu consolidar a Edifer como uma das principais construtoras portuguesas. A empresa foi das primeiras a perceber a necessidade de diversificar o negócio para outros sectores e novas paragens.
À história de sucesso empresarial, só faltou dar o salto decisivo na consolidação para ganhar escala. Nos anos 90, a Edifer esteve em negociações avançadas para se fundir com a Engil, mas a operação não avançou - há quem diga que por causa de um desentendimento de última hora com alguns membros da família.
A Engil foi alvo de uma oferta pública de aquisição da Mota & Companhia, uma das poucas OPA hostis com sucesso em Portugal que criou a maior construtora nacional.
Diogo Vaz Guedes defende há muito a consolidação no sector "e, até mais do que isso, a realização de operações transfronteiriças. E o que a Somague fez (a venda da maioria do capital à espanhola Sacyr) veio provar que tínhamos razão".
A Edifer sempre procurou um parceiro estratégico, reconhece Jorge Armindo, mas nunca conseguiu entrar na primeira divisão, o que era essencial para ganhar massa crítica. A partir de certa altura o distanciamento do líder em relação às restantes construtoras começou a fazer muita diferença.
Houve muitas conversas e rumores de negócios. Ainda no verão passado era dada como certa a fusão com a Opway, a construtora da Rio Forte (holding do Grupo Espírito Santo). Seria uma operação movida pela elevada pressão da banca, a braços com as dívidas fora de controlo das construtoras.
O negócio terá sido travado pela chegada de Almerindo Marques à Opway. A fusão de dois problemas, em vez de os resolver pode criar um ainda maior, diz uma fonte do sector.
Mas era uma questão de tempo. "Clientes importantes não nos pagaram, em consequência temos vindo a atrasar pagamentos aos nossos fornecedores, que são determinantes para a nossa atividade, e começámos a registar quebras na produção das nossas obras com a faturação a diminuir mês após mês. O mercado da construção parou em Portugal."
O cenário, traçado pela presidente da Edifer numa nota aos colaboradores, retrata a "tempestade perfeita" que se abateu sobre um sector que está em crise há vários anos.
No início do ano, a ANA rescinde um contrato importante com a Edifer para a ampliação da Portela. Pouco tempo depois, sabe-se que há salários em atraso na construtora.
A situação poderia ter sido mais negativa para a imagem da empresa, mas na Edifer "há muito respeito pela gestão de Vera porque ela sempre deu a cara e falou com os trabalhadores", sublinha Jorge Armindo.
Numa nota aos colaboradores, em janeiro, conta que, "durante os últimos meses, fomos pagando a todos os trabalhadores do grupo com muito esforço e tentando que todas as operações das empresas corressem com a normalidade possível nesta conjuntura muito difícil".
Em jeito de despedida, a presidente da Edifer voltou a escrever aos colaboradores depois do acordo com o fundo Vallis. "Desde o primeiro dia de trabalho, assumi a missão de preservar esta organização, a sua história e reforçar os valores que a caracterizavam. Senti que tinha uma enorme responsabilidade perante todos vós. No último ano lutei arduamente para arranjar uma solução que permitisse regularizar os compromissos que estavam em falta para com todos e nunca desisti de atingir esse objetivo. Finalmente, é com profunda satisfação que vos informo que serão pagos todos os salários em atraso no Grupo Edifer."
O preço a pagar é a saída dos atuais acionistas e da própria Vera da administração - condição do acordo com a Vallis, fundo liderado por Pedro Gonçalves, ex-presidente da Soares da Costa, criado pelo sector bancário para consolidar as construtoras nacionais.
"Ao sair, só prova que pôs os interesses da empresa acima dos dos acionistas e dos seus. Foi uma atitude de grande coragem e doação à causa empresarial", diz Jorge Armindo.