Verificação paga. Faz sentido monetizar a reputação?

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Há uns doze anos, correu pelo Facebook um desses trotes que eram muito populares no início da explosão das redes sociais e dizia que a empresa ia começar a cobrar uma mensalidade a todos os utilizadores. A revolta assumiu proporções virais, o que era claramente o intuito de quem criou o rumor, e o CEO do Facebook Mark Zuckerberg apressou-se a garantir que a rede social era gratuita e ia manter-se assim. Escreveu-se sobre a monetização das redes sociais. Sobre não haver almoços grátis, e se não pagamos por um produto, nós - os utilizadores - é que somos o produto.

Chegamos agora a um momento notável em que não só somos o produto, como nos pedem que paguemos para o ser. Esse é, no fundo, o racional por detrás das novas subscrições criadas primeiro pelo Twitter e agora pelo Facebook e Instagram. O Twitter de Elon Musk lançou no final do ano passado a mensalidade Twitter Blue por 8 euros na versão web e 11 euros para aplicações móveis. A Meta de Mark Zuckerberg anunciou este fim-de-semana que o Facebook e o Instagram vão passar a cobrar pela verificação com o serviço Meta Verified, que custará 11,99 na web e 14,99 nas aplicações móveis.

O serviço oferece a qualquer pessoa a possibilidade de pagar para obter o selo de verificação azul que até aqui tinha sido apanágio de celebridades, políticos, marcas e outras organizações relevantes. Se pensarmos bem nisso, é uma proposta bizarra: o selo de verificação era muito cobiçado precisamente porque não podia ser comprado. Era atribuído para garantir que uma conta pertencia realmente a uma personalidade ou marca, e assim evitar os problemas associados a contas falsas e usurpação de identidade. Se qualquer pessoa pode pagar para ser verificada, o selo perde a sua importância distintiva. O Twitter e a Meta conseguem aqui uma coisa fenomenal, que é ganhar dinheiro ao mesmo tempo que eliminam o valor do que estão a vender.

Para adoçar a proposta, ambas as redes sociais vão adicionar mais serviços à subscrição. No caso do Twitter, só quem pagar poderá ter funcionalidades como autenticação de dois factores ou usar o TweetDeck. No caso da Meta, será preciso pagar para ter acesso directo a suporte ao cliente - um serviço que hoje funciona extremamente mal e demora semanas, se alguém conseguir sequer uma resposta.

Do ponto de vista do negócio, faz sentido as empresas lançarem assinaturas em torno de propostas com valor inequívoco para os utilizadores. O Twitter está a braços com uma gestão caótica e a perder anunciantes como se não houvesse amanhã. A Meta está em espiral descendente depois das mudanças da Apple que diminuíram a sua capacidade de monetizar os dados dos utilizadores - e depois de um investimento colossal no metaverso que não teve ainda resultados práticos. São empresas privadas, podem experimentar novos serviços e testar a resposta do mercado.

Mas parece-me que são passos equivocados. Estas empresas não vendem bens como a Amazon nem oferecem acesso ao consumo de música como o Spotify. O valor destas redes sociais é criado exclusivamente pelos seus utilizadores. Não produzem notícias como o New York Times, nem conteúdos próprios como o Netflix. Os utilizadores são o produto. E agora querem cobrar-lhe uma subscrição para oferecer coisas básicas como a verificação de identidade, algo que beneficia a rede social porque garante aos utilizadores que estão a interagir com a celebridade ou marca certas.

A reputação é algo que, na minha opinião, não deve ser monetizado. Isso derrota o conceito. Também não me parece que milhões de utilizadores corram a adicionar mais uma subscrição a um lote cada vez maior de assinaturas, e este tipo de serviços só gera receitas significativas se ganhar massa crítica. Até ver, o Twitter não conseguiu: segundo o site The Information, o novo Twitter Blue atraiu apenas 290 mil assinantes. A rede social tem cerca de 354 milhões de utilizadores.

Zuckerberg prometeu que o Meta Verified vai dar "protecção extra" contra contas que tentem usurpar a identidade de alguém. Isso tem de ser pago? Não devia ser uma função por defeito numa rede social em que os utilizadores são o produto?

O que estes lançamentos sugerem é que estas redes sociais estão realmente em maus lençóis em termos de perspectivas futuras de rentabilização. Atentem que pagar a subscrição não isenta ninguém de ser monitorizado e ter os seus dados recolhidos e vendidos. É uma adição a um modelo de negócio já de si eticamente dúbio.

A minha previsão é de que o Meta Verified vai pelo mesmo caminho do Twitter Blue. Haverá uma pequena parcela de utilizadores a assinar e pagar. E todos os outros vão ficar irritados com a mudança.

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