Vero. A rede social sem anúncios nem algoritmos que “imita a vida real”

Tem mais de cinco milhões de utilizadores em todo o mundo e quer conquistar os portugueses com a sua política livre de anúncios.
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Ayman Hariri nunca tinha estado em Lisboa. Quando aterrou, foi na aplicação da Vero que ficou a saber quais as recomendações dos seus amigos sobre a capital portuguesa. Não faltavam sugestões de restaurantes, bares ou até de ruas inteiras para visitar. Na mesma aplicação, Hariri partilha diariamente com os seus mais de 14 mil seguidores e 31 amigos chegados as músicas que ouve, os filmes que vê ou os vídeos que grava. O fundador da Vero quer que a aplicação seja uma réplica da “melhor rede social do mundo”: a vida real.

Foi como orador da Web Summit que Ayman Hariri passou na semana passada por Lisboa. O multimilionário libanês, filho de um ex-primeiro-ministro do Líbano, é formado em Ciências da Computação e “viciado em tecnologia” desde que se lembra. Em 2015, juntou-se ao primo e ao melhor amigo dos tempos da escola para criar uma rede social que funcionasse como “antídoto” para tudo o que as pessoas rejeitam hoje em dia nestas aplicações. Foi buscar ao latim a palavra “verdade” e criou uma rede social sem anúncios, sem algoritmos e sem mineração de dados.

“Quando a ideia surgiu eu não tinha redes sociais, cheguei a este mundo bastante tarde. Mas quando entrei, notei que o comportamento das pessoas tinha mudado face ao que eu conhecia delas na vida real. E tive a sensação que isso se devia à forma como estas plataformas foram desenhadas. Ora, eu acredito que a verdadeira rede social é a que existe na vida real, cara a cara. Foi essa rede que nos tirou das cavernas e hoje faz-nos querer ir a Marte. Há uma generosidade implícita no espírito humano que faz com que queiramos partilhar as nossas descobertas”, explica Ayman Hariri ao Dinheiro Vivo.

"Não precisamos de seguir os utilizadores"

Foi a sensação de estar encurralado numa “armadilha” virtual e a certeza de que era possível “fazer melhor” que impulsionou Hariri e os seus cofundadores a criar a Vero. “Menos redes sociais, mais vida social. Seja online como é offline”, são os slogans com que a aplicação brinda os novos utilizadores.

Para o fundador, a grande diferença da Vero face a gigantes como o Facebook ou o Instagram é o facto de “tratar os utilizadores como clientes”. A aplicação é “limpa e sem rasteiras”, não tem anúncios, não aplica algoritmos nem faz mineração de dados.

“Esse foi logo o primeiro ponto assente: não queríamos ser mais uma empresa que se alimenta dos dados dos utilizadores. Eles são a nossa principal preocupação porque são os nossos clientes. Num negócio baseado em mineração de dados e em anúncios, os clientes acabam por ser os anunciantes, pois são eles que pagam. O nosso modelo de negócio é o mais simples e transparente possível: a subscrição”, que torna “inútil para o negócio” o recurso a publicidade e aos dados. “Não precisamos de seguir os utilizadores nem de saber o que eles andam a fazer. Não são o nosso alvo”.

É com a cobrança de uma quantia mensal que os fundadores da Vero esperam rentabilizar a aplicação. Mas as subscrições ainda não estão ativas. Os cinco milhões de utilizadores já inscritos terão o serviço grátis para sempre. Quem se inscrever nos próximos meses também. “Queremos uma plataforma baseada na generosidade e temos de liderar pelo exemplo”, explica o responsável.

A partir do próximo ano, ainda sem data definida, a Vero passará a custar uma “quantia simbólica”, que o fundador costuma comparar a “dois cafés por ano”. A aplicação será “o mais democrática possível e acessível a todos”.

Ayman Hariri, que além de ser fundador é também o financiador da plataforma, acredita que o negócio acabará por se tornar rentável. “Não precisamos de uma grande empresa. Quando o WhatsApp foi comprado pelo Facebook tinha 50 funcionários e hoje tem 800 milhões de utilizadores. Nós temos cerca de 50 pessoas a trabalhar e estamos a crescer um pouco por todo o mundo”.

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Imagem: Vero[/caption]

No ano passado, a Vero tornou-se num fenómeno em alguns países, e chegou a estar em primeiro lugar na lista de downloads de redes sociais. Em fevereiro de 2018 foi considerada pela CNN como “a rede social do momento”. Hariri garante que “o feedback é ótimo” e é, para já, a principal ferramenta de marketing da aplicação. E espera crescer em Portugal.

“Ao contrário das outras redes, que medem o seu sucesso pela quantidade de tempo que as pessoas lá passam, nós não queremos que as pessoas gastem muito tempo na Vero. Só o tempo que precisam e que lhes permita tirar algo de útil”.

A aplicação permite categorizar os seguidores em amigos chegados, amigos ou seguidores, sem que do outro lado se saiba, o que permite gerir quem vê as partilhas. É possível criar playlists, para já apenas ligadas à Apple Music, e até fazer comércio, já que a Vero tem a sua própria plataforma de vendas. No fundo, a Vero junta várias funcionalidades de outras redes, “mas sem ruído”, sintetiza Ayman Hariri.

O multimilionário libanês, cuja fortuna está estimada pela Forbes em 1,3 mil milhões de dólares, afirma que não tem como objetivo ultrapassar o Facebook ou o Instagram, porque “quando nos definimos como o contrário de algo, nós próprios deixamos de ser alguma coisa”.

Ayman acredita que “com o tempo”, as atuais gigantes do social media podem vir a perder relevância. Na palestra que deu na Web Summit, o fundador falou dos seus receios no que toca aos efeitos que as redes sociais têm na sociedade.

“Quando olho para algumas empresas, vejo-as a provocar efeitos que vão além dos propósitos pelas quais foram criadas. Têm efeitos na democracia, na sociedade, na saúde mental, nas eleições, em tudo. Isto quando o objetivo do seu negócio é simplesmente permitir a partilha de coisas que gostamos. Essas empresas cresceram tanto que eu temo o alcance da sua influência e do poder que conquistaram”.

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