Vinhos do Douro e Porto querem chegar a 2030 com vendas de 800 milhões

Estimativas da AEVP mostram que a região deverá ter repetido, em 2022, os 606 milhões de euros obtidos no ano anterior, máximo histórico do setor, mas as exportações caíram de 403 para 381 milhões.
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A Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) estima que o setor dos vinhos do Douro e Porto tenha fechado 2022 com vendas totais de 606 milhões de euros, em linha com o ano anterior, o máximo histórico da região. A diferença está no aumento do peso do mercado nacional que, com o regresso do turismo, cresceu face ao ano anterior, assegurando mais de 37% das vendas. Em sentido contrário, as exportações ficaram-se pelos 381 milhões, contra os 403 milhões de euros registados em 2021. A meta do setor é chegar a 2030 no patamar dos 800 milhões de euros.

"606 milhões de euros é muito poucochinho quando sabemos que uma Corticeira Amorim vende qualquer coisa como 900 milhões de euros em cortiça ou que a região de Champagne tem vendas de seis mil milhões de euros. Temos que ter a ambição de fazer crescer isto, porque não podemos distribuir [pela produção] o que não temos e não geramos", diz o presidente da AEVP. Num encontro com jornalistas, António Filipe acrescentou, ainda que 2022 "não foi, infelizmente, um ano bom porque se traduziu numa quebra de margem dos operadores, que não foram capazes de repercutir nos seus preços o aumento dos custos que tiveram".

Numa análise mais detalhada aos números, que são uma estimativa da AEVP com base nos dados "já fechados, a dezembro, das exportações", mas ainda sem os dados finais do mercado nacional no mesmo mês, a associação aponta para uma quebra de 1,5% nas vendas totais de vinho do Porto em 2022, que se ficará pelos 385 milhões de euros, bem longe dos 429 milhões do valor histórico desta denominação de origem, atingidos há 20 anos, em 2002.

Mais grave ainda é a quebra das categorias especiais de vinho do Porto que deverá ter caído 11,5%, fruto do comportamento do mercado britânico, que terá caído na ordem dos 22%, fruto de uma "enorme quebra de confiança e desencanto dos consumidores ingleses". Uma quebra que se poderá ainda acentuar em 2023, com a entrada em vigor de alterações a nível fiscal para os vinhos licorosos.

Mas há outros mercados em queda no top 10 dos principais destinos de vinho do Porto, como é o caso da Bélgica (-13%), Estados Unidos (-7%), Dinamarca (-6%), Países Baixos (-5%) e Alemanha (-1%). Em contrapartida, Portugal lidera o crescimento de vendas desta categoria, com mais 22%, seguido de Espanha (+5%), França (+2%) e Canadá (+1%).

Já os vinhos do Douro mantêm a sua tendência de crescimento, com uma previsão de subida de 8,3% face ao ano anterior. É verdade que, em mercados como a Alemanha, o Brasil ou a França, as vendas caíram, com quebras que vão dos 12 a 8%, mas, em contrapartida, as exportações para Angola praticamente duplicaram e o consumo em Portugal e nos Estados Unidos estão a crescer a 15 e a 13%, respetivamente. Até o Reino Unido e a Bélgica cresceram (5% e 4%, respetivamente).

Para a direção daAEVP, os números de 2022 mostram que, mais uma vez, a região duriense teve "duas bóias de salvação", com os vinhos DOC Douro a, "mais uma vez, socorrerem as perdas" do vinho do Porto e o turismo em Portugal a compensar as perdas de outros mercados.

A meta da nova direção da AEVP, para o triénio 2022-2024, aponta para que o setor possa atingir, no final do próximo ano, os 610 milhões de euros de vendas, mas António Filipe quer mais. "Temos que ser mais ambicioso do que isso. Já chegamos aos 606 milhões, temos que rever este objetivo para 2024. Chegar aos 800 milhões de euros, a preços constantes, em 2030, seria um objetivo muito interessante para o setor", defende.

De que modo contribuiriam as duas denominações de origem para esta meta já é mais difícil de prever. "Se admitirmos que os vinhos DOC Douro crescerão a 7% ao ano e o vinho do Porto a 1,5%, teremos os vinhos do Douro a valer 365 milhões e o Porto na ordem dos 435 milhões", refere este responsável.

No encontro com os jornalistas, a AEVP pediu a alteração do quadro regulamentar do setor ao mesmo tempo que reiterou um pedido antigo no sentido da alteração da configuração institucional do setor. "É impossível manter este figurino jurídico do IVDP sem perda clara e visível de eficácia de funcionamento. Todo o setor está a perder com este imobilismo da decisão política", defende.

Em causa está o estatuto de Instituto Público do IVDP que retira "flexibilidade e capacidade de resposta" da instituição, cujo orçamento, gerado pelas taxas que cobra ao setor, entra na contabilidade pública, sendo os seus saldos de gestão sucessivamente cativados pelo Estado.

Diz a AEVP que o instituto apenas cumpriu com metade do seu plano de promoção em 2022 "por não ter tido autorizações de despesa" por parte do Ministério das Finanças. "As cativações e a não possibilidade de trânsito para o ano seguinte dos saldos não executados traduz-se já num saldo atual de 12,5 milhões de euros correspondentes à negação de serviços prestados em 10 anos", sublinha a associação.

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