O historiador Joel Cleto inaugurou em meados de 2017 o projeto Viseu no Porto conduzindo na altura um grupo de personalidades pelas ruas da Invicta à descoberta das afinidades entre as duas metrópoles. Uma viagem que incluía associações entre pessoas, monumentos e acontecimentos de ambas as cidades à medida que eram desfiados acontecimentos, histórias e lendas. A intenção primordial era despertar o interesse dos nortenhos em redescobrir a Beira Alta.
Sabia que o romance maior de Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição, cruza os dois territórios? Pois além da narrativa acontecer entre o Porto e Viseu, a leitura da obra permite identificar quais os locais viseenses onde o autor buscou inspiração para a sua pena de que será exemplo a Fonte de São Francisco. Isto à janela da Cadeia da Relação, no Porto, de onde redigiu o Romeu e Julieta português.
Também é verdade que a Torre dos Clérigos, o ex-líbris de excelência da Invicta, contou com a colaboração de José Figueiredo Seixas, arquiteto nascido na cidade de Viriato nesses tempos braço direito de Nicolau Nasoni. Inversamente, a Praça do Rossio, no coração da capital da Beira Alta, é rodeada pelo icónico painel de azulejos do mestre Joaquim Lopes, pintor nascido às margens do Douro. Ainda nos domínios arquitetónicos, o Farol-Capela de São Miguel-o-Anjo, na Foz do Douro, a primeira obra renascentista em Portugal, foi mandado construir por D. Miguel da Silva, bispo de Viseu.
Ora, entre muitos outros vínculos imemoriais, surge agora renovada conexão entre as duas urbes: a tecnologia. Na verdade, o Porto tem acumulado distinções no universo high-tech (cidade mais acolhedora para startups nos World Excelence Awards de 2018; terceiro hub tecnológico com maior crescimento na Europa em 2018; melhor cidade europeia no apoio a startups e pequenas e médias empresas em 2019-20), captado projetos de investimento (Natixis, Critical TechWorks, Euronext), e expandido infraestruturas de suporte (Porto Innovation Hub, Porto Tech Hub, UPTEC). Já Viseu está a transformar-se num polo de inovação do interior. Isso fruto da aposta na criação de um ecossistema de qualidade de vida – saúde, emprego, educação, cultura, ambiente – que tem retido talento, atraído novos profissionais e seduzido grandes empresas nacionais e multinacionais.
De resto, nos últimos três a quatro anos o montante global de investimento privado de base tecnológica realizado em Viseu ascendeu a 226 milhões de euros, foram criados 750 postos de trabalho qualificados na sequência desse montante aplicado, e o município viseense destinou 4,9 milhões de euros à Vissaium XXI (incubadora de startups). A prova de que um país a duas velocidades é um discurso ultrapassável com ousadia, trabalho e determinação. Mas sobretudo a demonstração de que a malfadada interioridade está longe de constituir-se como uma fatalidade.
José Pedro Salas Pires, Presidente da ANETIE