Portugal vive no curto prazo e para o curto prazo. A política fiscal é um exemplo: não olha ao futuro e, em vez de servir a economia, é posta ao serviço dos interesses imediatos e eleitorais do governo.
Para agradar à esquerda que anatematiza o lucro, tributam-se alguns dos mais estruturantes setores empresariais por resultados ditos extraordinários, não cuidando de mostrar sequer se cobrem os custos do capital investido. E assim se prejudica a capitalização e crescimento de muitas grandes empresas e dos milhares de outras que delas dependem, a criação de riqueza e emprego, no fim, toda a economia. Sem lucros e capital não há investimento para o futuro, apenas mal se sustenta o presente.
As taxas de impostos sobre a classe média comparam-se com as mais elevadas das classes ricas de muitos países europeus. A carga fiscal bate anualmente recordes.
O pacote de medidas da habitação não resolve o problema da carência da oferta. Nos últimos dez anos construíram-se em média 12 000 fogos por ano, número que compara com os 85 000 no período de 1991 a 2011. Não se vislumbra qualquer medida consistente para alterar a situação; aliás, até há outras que a agravam, como o congelamento de rendas, dissuasor de investimento.
Meros paliativos como a estatizante Lei de Bases da Saúde e o Estatuto do SNS foram inúteis para obviar à crise estrutural do SNS, privilegiando a sigla em vez de congregar a capacidade disponível para proteger o doente. E foi criado um CEO da Saúde, uma excrescência, sem estatuto definido, nem poder hierárquico e competências, nem normas mínimas de funcionamento face aos organismos da administração pública e das tutelas políticas a que reporta. O resultado está à vista.
Aplicam-se fundos europeus na beneficiação e alindamento de ruas e modernizam-se salas de espectáculos com equipamentos digitalizados, obviamente importados, sem repercussão económica, mera despesa mascarada de investimento.
Assim promovida, a cultura de menosprezo pelo investimento está cada vez mais instalada na sociedade e no espaço mediático. Ainda agora, a propósito da Jornada Mundial da Juventude, o que se analisa não é o investimento e o retorno a prazo, mas os custos, se foram recuperados nos dias em que a JMJ se realizou.
E assim, embalados nas nuvens, dormimos descansados.
António Pinho Cardão, economista