Contas feitas, após a vitória nas urnas, o eleito tinha em torno de 200 parlamentares do seu lado na Câmara dos Deputados, menos da metade do universo de 513, ou seja, um número que não lhe permitiria governar sossegado.
Entretanto, no período que mediou o sufrágio e a posse, três dos partidos neutrais aceitaram trocar apoio parlamentar por um ou dois ministeriozinhos, como é comum na política do mundo todo mas mais ainda na do Brasil.
O executivo inchou - 37 ministérios - mas Lula lá garantiu a metade mais um dos deputados, condição essencial para aprovar projetos que considera essenciais, condição essencial para, portanto, governar.
Outros projetos, porém, por alterarem a Constituição, requerem a aprovação de dois terços do parlamento, como a reforma tributária, votada favoravelmente no início de julho.
Essa aprovação só foi possível graças à preponderante ação de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, eminência parda de Brasília e aliado conjuntural de Lula.
Conjuntural porque Lira, que engavetou mais de cem pedidos de impeachment de Jair Bolsonaro, pertence ao Partido Progressista (PP), uma formação, apesar do nome, altamente conservadora que apoiou o candidato presidencial derrotado nas eleições do ano passado.
Lula, a quem interessa os votos do PP, e Lira, a quem interessa estar ao lado do poder executivo, exerça-o quem exercer, já começaram esta semana a elaborar os termos oficiais de uma aliança formal.
Esses termos, claro, são um ministeriozinho aqui e a presidência de um banquinho estatal ali para o PP em troca dos 49 votos dos deputados do partido no parlamento.
Na mesma onda, até o Republicanos, o braço político da IURD onde militam, por exemplo, Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e suposto sucessor do inelegível Bolsonaro em 2026, e Carlos Bolsonaro, um dos filhos do ex-presidente, negoceia a entrada no executivo em troca da adesão legislativa.
Também entrega os seus votos na Câmara a Lula desde que lhe seja destinado um quinhão de ministeriozinhos porque isto de ser da oposição é muito mais stressante do que ser da situação.
Entretanto, como já não dá para inchar mais ainda o governo, Lula terá de colocar os novos amigos no lugar dos velhos amigos - isto é, substituir ministros de esquerda por ministros de direita em nome da governabilidade frágil do Brasil. Nada que não tenha feito já nos seus dois primeiros mandatos: "Se Jesus Cristo fosse presidente do Brasil, aliava-se até com Judas", afirmava na altura.
Noutros pontos do globo, um arranjo assim seria chamado de "geringonça" ou coisa que o valha. No Brasil, é o pão nosso de cada dia ver políticos, muitos e poderosos, agirem como lulistas desde pequenininhos mesmo tendo votado em Bolsonaro há coisa de nove meses.
"Votado", note-se, é particípio passado. E, como dizia Pedro Malan, ministro da Economia de Fernando Henrique Cardoso, outro presidente que também fez contorcionismos impossíveis em nome da governabilidade, "no Brasil, até o passado é incerto".