Zelensky: uma lição de comunicação

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Ontem assistimos a uma intervenção histórica de Volodymyr Zelensky no Congresso norte-americano. Uma verdadeira lição de comunicação.

O líder ucraniano entrou no Congresso norte-americano vestido de camuflado, vindo de campo de batalha e afirmando a sua identidade: eu sou um guerreiro.

Uma das principais características das intervenções públicas de Volodymyr Zelensky é a clareza e emotividade das palavras. O presidente ucraniano usa palavras simples, fáceis de compreender por qualquer pessoa. As suas intervenções são sempre claras no seu propósito e sempre carregadas de emoção, seja ela, combatividade, urgência ou mesmo repreensão.

Volodymyr Zelensky vende a ideia de um líder simples, claro e que sabe o que quer. Não perde tempo com discursos sofisticados, oratória elegante. Ele é um soldado. Pelo menos é agora um soldado.

Ontem, a sua primeira intervenção é dirigida ao povo americano, sublinhando os principais valores que estão em causa, liberdade e justiça, como lutas comuns e assim conectando cada americano, cada família, cidade e estado a cada ucraniano. Esta não é uma luta só do povo ucraniano, mas de todos os americanos e por isso mesmo lhes agradece e afirma o seu respeito por eles. O mundo está demasiado interligado para alguém poder ficar de fora desta batalha. Todos temos famílias, todos desejamos o melhor para os outros que partilham os mesmos valores.

Imagine que um soldado ucraniano, em uniforme de batalha, gasto e cansado pela guerra que trava longe da nossa porta, lhe bate à porta para lhe agradecer o seu apoio e afirmar o respeito que tem por si. O que faria?

Além de uma ótima noção de tempo e cadência, Zelensky estabelece de forma quase imediata a relevância da sua intervenção para quem o está a ouvir. Como? Criando comparações históricas claras e balizando os valores em causa. Já o tinha feito na Câmara dos Comuns quando evocou os feitos dos soldados britânicos na Segunda Guerra como ponto em comum com os soldados ucranianos. Criando empatia.

A empatia é um sentimento poderoso e motivador. Volodymyr Zelensky definiu propósitos e objetivos concretos, estabelecendo relações diretas entre famílias e pessoas.

Vejam de novo o discurso, tomem especial atenção à tensão que o mesmo transmite. Muita dessa tensão deve-se ao facto de ele estar em esforço, ao falar em inglês, obrigando-o a estar muito concentrado e isso é bastante notório numa testa sem quase movimento, na forma como cada palavra é usada, martelada até. Por outro lado, houve momentos-chave (quando agradece à diáspora e aos jornalistas) onde a sua linguagem não-verbal transmite verdadeira comoção. Existe desprezo verdadeiro na expressão facial quando menciona a presença de mercenários no Dombass. Até a desilusão demonstrada pelo próprio quando o paralelismo entre os mísseis Patriot e os patriotas ucranianos não foi bem transmitido.

O Presidente ucraniano falou na luta dos corações e mentes do mundo contra a tirania do Kremlin. Este conceito de soft power designado por "winning the hearts and minds" presente na origem da independência norte-americana, durante a guerra do Vietname e no conflito iraquiano. Não surgiu por acaso e liga umbilicalmente os dois povos na luta contra um inimigo comum.

Ao recordar a bravura das tropas americanas no Natal de 1944 e a coragem dos soldados ucranianos no Natal de 2022, Hitler e Putin são colocados no mesmo prato. É uma luta de valores que exige um compromisso concreto que envolve artilharia, mísseis, munições e armas.

Volodymyr Zelensky, como os bons comediantes, tem uma excelente noção de tempo e cadência. Como os bons atores é capaz de evocar emoções verdadeiras para ilustrar o que está, dizer e transmitir uma ideia ou um propósito. Quer isto dizer que a sua intervenção não é verdadeira? Não. Quer dizer que num cenário de guerra fazemos o que for necessário para sobreviver e Volodymyr Zelensky está a lutar pela sobrevivência, a sua e do seu povo.

Afonso Azevedo Neves, account director da AMPAssociates

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