Descarbonização: hidrogénio verde e biometano são alternativa à eletrificação

Há mais do que uma via para alcançar a neutralidade carbónica. Principalmente para as indústrias onde a eletrificação é um desafio, se não mesmo impossível, defende Jesús Rodríguez González, partner da McKinsey.
Jesús Rodriguez González, partner da McKinsey. Foto: Reinaldo Rodrigues/GI
Jesús Rodriguez González, partner da McKinsey. Foto: Reinaldo Rodrigues/GIJesús Rodriguez González, partner da McKinsey. Foto: Reinaldo Rodrigues/GI
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Quando o objetivo é descarbonizar há duas vias possíveis: a eletrificação, “assumindo que a eletricidade é verde”, ou os gases renováveis. E se em alguns setores a eletrificação parece ser a solução mais fácil e evidente, há outros, nomeadamente as indústrias pesadas, os transportes de mercadorias, a aviação, só para mencionar alguns, onde isso não acontece. Aqui o gás parece ser a melhor opção, mesmo porque é uma solução que não implica novos investimentos em termos de mudança de infraestrutura, defende Jesús Rodríguez González, partner da McKinsey, em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Ou seja, sempre que se avança para a eletrificação deve ter-se em conta se é necessário (ou não) fazer investimentos ao nível da mudança da infraestrutura, para além do custo previsto da eletricidade verde. É certo que “praticamente tudo se pode eletrificar”, reconhece o partner da McKinsey. A questão é, para Jesús Rodríguez González, que as empresas já fizeram todo um investimento nas suas instalações. Tudo o que seja necessário substituir para levar a cabo a eletrificação é um investimento adicional. Enquanto se a opção for optar por usar o gás “não tens de pôr um euro”.

O consultor reconhece que houve uma altura em que o discurso só incidia na eletrificação, mas aponta que, nos últimos dois anos, isso mudou e começou a falar-se de alternativas. Porque elas existem. Há os gases renováveis. É certo que são mais caros do que a eletricidade, mas “reciclas o investimento feito”.

Há ainda uma outra questão, alerta Jesús Rodríguez González. É que quando se fala na eletrificação parte-se do princípio que se usa eletricidade verde. O que não é sempre verdade.

“Há dois caminhos e ambos são válidos”, reconhece o gestor, que alerta que se terá de fazer investimentos substanciais para se fazer a eletrificação. Cada caso deverá ser analisado individualmente, principalmente, porque pode acontecer que, em alguns, pode ser mais custoso avançar para a eletrificação do que investir nos gases renováveis.

“A Comissão Europeia diz que, em 2030, 10% do gás tem de ser gás verde”, lembra o partner da consultora, acrescentando que as metas definidas obrigam à descarbonização da indústria, sendo que “a Comissão é tecnologicamente neutra”. Quer isto dizer que não obriga a ir por um determinado caminho.

Na opinião de Jesús Rodríguez González, o gás natural é imprescindível para o desenvolvimento do setor energético da Europa. É certo que os estudos indiciam uma diminuição do consumo, com o aumento da eletrificação, mas o certo é que verifica-se “um declive muito suave” e que “continuará a ser relevante na matriz europeia e ibérica durante os próximos 20 anos”.

Que alternativas existem? A nível económico, o biometano “será a alternativa economicamente mais viável”, dado que já se está a assistir ao desenvolvimento de fábricas de biometano em Portugal e Espanha. “A

limitação aqui prende-se com a escala”, reconhece o consultor. 

Aliás, nesta semana, na Lisbon Energy Summit, que decorreu em Lisboa e no âmbito da qual o partner da McKinsey falou com o Dinheiro Vivo, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, anunciou o lançamento de um leilão para incentivar a produção de hidrogénio verde e biometano, no valor de 140 milhões de euros em dez anos (14 milhões anuais), financiados pelo Fundo Ambiental, que vai proteger os produtores da flutuação de preços. 

Há outras soluções, nomeadamente o hidrogénio, e com esse, sim, será possível ter escala. “Aqui o desafio está relacionado com o custo”, aponta Jesús Rodríguez González, que sublinha que os custos de produção não são tão competitivos como os do gás, o que pode levar a algum atraso na sua adoção. Rodríguez González acredita que isso poderá ser alterado na próxima década, no entanto, reconhece que a adoção do biometano deverá ocorrer de forma mais rápida.

Com tudo isto, poderemos estar a assistir a uma Europa mais independente a nível energético. A questão que se coloca, alerta o especialista, prende-se com “quanta ajuda se quer dar a esta viagem, com que rapidez queremos ir e a quanto nos podemos permitir”.

É verdade que o consumo do gás, fruto da invasão da Ucrânia pela Rússia, diminuiu na Europa. No entanto, o cenário é hoje diferente. Como lembra Jesús Rodríguez González, o preço do gás varia consoante a procura. E a guerra na Ucrânia fez disparar os preços desta commodity.

Um evento que revelou a dependência europeia face ao gás russo, assim como a falta de infraestrutura (construída) para obter o gás por vias alternativas. Algo que está ultrapassado, dado que, lembra Jesús Rodríguez González, foi construída, em muito pouco tempo, uma infraestrutura de GNL. O consultor diz que o gás pode ser fornecido ou através de tubagem ou de barco. “Espanha e Portugal são uma anomalia, no sentido em que recebem gás da Argélia, e também de barco”. Convém lembrar que ambos os países são fornecidos, desde 2011, de gás argelino a partir do gasoduto de Medgaz. Já países como França e Alemanha, na prática toda a Europa Central, não dispunham desta vantagem.

Isto na prática significou que Portugal e Espanha estavam mais bem preparados do que outros países, já que tinham uma infraestrutura para este cenário, explica Jesús Rodríguez González. A questão que se coloca é: quanto tempo vai durar essa vantagem? Mesmo porque “a Alemanha e a Holanda estão a construir, de forma acelerada, terminais de GNL”.

Procura de gás aumenta até 2050

Dados do estudo Global Energy Perspective, da McKinsey & Company, indicam que a procura de gás vai aumentar até 2040, em todos os cenários. Segundo o estudo, o crescimento no setor da energia compensa o declínio na indústria e nos edifícios - até que a procura pelas atividades energéticas também comece a diminuir.

Os dados recolhidos pelo estudo indicam que a energia, a indústria e os edifícios continuam a ser os principais setores que impulsionam a procura de gás até 2050. Os números indiciam que, a longo prazo, a importância crescente do gás utilizado na produção de hidrogénio azul também deverá impulsionar a procura. Os produtos químicos e a produção de hidrogénio azul são os únicos setores que deverão apresentar um crescimento contínuo da procura de gás até 2050.

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