À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta. Como todos os bons provérbios, este tem um suporte histórico. Refere-se à segunda mulher de Júlio César, Pompeia, de quem ele se divorciou por suspeitar que ela o traíra, mesmo sem ter provas. Também como todos os provérbios, esta frase é vaga e imprecisa e por isso pode-se aplicar a muitos casos.
Por exemplo, ultimamente usou-se o provérbio para criticar a ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque por ter aceitado um cargo numa empresa do sector financeiro. Albuquerque pode ter beneficiado no passado o seu novo patrão de formas escondidas pelas quais estará agora a ser recompensada.
Provavelmente não podemos saber com certeza se assim foi, mas podemos investigar. Temos um Ministério Público para investigar as relações passadas de Albuquerque com esta empresa financeira. Temos a Assembleia da República para nos seus inquéritos avaliar a ética desta escolha profissional. E temos os media para revelar informação e fazer censura pública e moral nos espaços de opinião.
Se nada se achar, então o provérbio é injusto e tem um efeito corrosivo. Achar que todos à nossa volta parecem ser ladrões ou corruptos, independentemente de serem ou não, torna impossível a cooperação e confiança necessária para viver em sociedade.
Um segundo exemplo vem dos mercados da dívida portuguesa. Olhando objetivamente para o orçamento de 2016, continua a austeridade quase ao mesmo ritmo de antes. As escolhas de quais impostos usar e quais os grupos a penalizar mudaram, mas não mudou o compromisso com os objetivos do défice e de algum corte na despesa. No entanto, desde novembro e das discussões do orçamento, as taxas de juro cobradas a Portugal dispararam. Depois de anos em que as nossas condições de crédito se moviam em linha com as de Espanha ou Itália, o novo governo e orçamento são tratados com um caso especial e problemático, em linha com o que se passou com a Grécia há anos atrás. Portugal parece ter perdido algum crédito e capital de confiança.
Ao novo governo não bastou ser honesto e fiscalmente responsável. Ele até conseguiu cooptar a extrema esquerda para este compromisso com a austeridade, o que parecia impensável há apenas meses atrás, e devia revelar o compromisso nacional com as nossas obrigações internacionais. Os discursos sobre o virar da página, a retórica inflamada no passado dos que hoje são governantes, e os pequenos atos que pareceram demonstrar pouca hesitação em rasgar acordos e contratos, foram interpretados no exterior como sendo próprios de quem não queria pagar as dívidas.
Neste caso, o parecer da mulher de César tem a ver com aquilo que os mercados esperam do futuro. Ele afeta o presente pelo simples facto de Portugal ter uma enorme dívida. Ao devedor não basta ser, mas tem de parecer, porque ele tem de convencer o credor a emprestar-lhe dinheiro. É injusto e corrosivo, e afeta-nos a todos, mas é o resultado de termos escolhido acumular uma divida tão grande nos últimos 20 anos.
Professor de Economia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque