

A Celita, empresa de calçado de homem, em Guimarães, está a comemorar 30 anos e quer chegar a novos mercados e a novos consumidores. Presente em mais de 50 países, e com mais de 700 pontos de venda, a dona da marca Ambitious não esconde a esperança de chegar mais longe, replicando nos países do centro da Europa a posição destacada que conseguiu já assegurar em Itália, mercado que funciona como uma vitrina da moda para o mundo e que vale já 30% das vendas da Celita. Em preparação está também uma coleção específica de calçado de senhora.
Foi do insucesso com o lançamento de uma linha de vestuário, apresentada no início de 2020, pouco antes do confinamento da covid-19, que a Ambitious acabou a dar os primeiros passos no calçado de senhora, a partir da adaptação de alguns dos seus modelos de homem para o segmento feminino, que apresentou, em setembro de 2021, na Micam, a feira de calçado em Itália. Agora quer ir mais longe. “Neste momento, nem sequer se equaciona a questão do vestuário. Há males que vêm por bem, e isso ajudou-nos a repensar aquilo que podemos fazer para acrescentar ao portefólio. Foi assim que surgiu a coleção cápsula de senhora e agora estamos a preparar-nos algo a sério nessa área”, explica o CEO da Celita e criador da Ambitious.
Paulo Martins reconhece que não é um caminho fácil de trilhar. “O nosso ADN é calçado de homem e o facto de termos sucesso não quer dizer que o tenhamos no de senhora. É algo que tem que ser muito bem preparado e é o que temos estado a fazer nos últimos meses, em busca do produto certo”, diz. E parece tê-lo encontrado: “Acredito que nas próximas épocas [o calçado de] senhora será certamente algo com sucesso.”
Com 205 trabalhadores, distribuídos por dois polos industriais, a Celita produz 500 mil pares de sapatos ao ano, que destina a 58 mercados, liderados por Itália, Estados Unidos, Países Baixos e Alemanha. Fechou 2023 com vendas de 25 milhões de euros, 40% dos quais assegurados pela Ambitious, que cresceu 47% face ao ano anterior. Globalmente, a faturação aumentou 16%, embora, até agosto, a empresa estivesse a registar um acréscimo de vendas de 37%. O último quadrimestre foi “mais complicado”, com “uma quebra acentuada” do negócio. “As vantagens de uma marca própria fazem sentir-se neste tipo de conjuntura. O abrandamento em 2023 foi transversal, mas mais acentuado no private label”, refere Paulo Martins.
Para 2024, e apesar do arranque do ano se antecipar difícil, “muito difícil, tendo em conta as notícias que nos chegavam da Europa”, na verdade, os receios não se materializaram e a época está a correr bem. “Há um decréscimo em alguns clientes, o que é perfeitamente normal, mas há novos clientes a procurarem-nos. Estou contente, as vendas estão a superar as expectativas iniciais”, refere o empresário. O que não significa ultrapassar a fasquia do ano passado. “2023 foi um ano excecional e atípico. 2024 é o regresso à normalidade, se conseguir atingir os mesmos volumes do ano passado já ficaria híper contente, mas não me parece”, admite.
Sobre as dificuldades do setor e a grande preocupação dos empresários no arranque do ano, face à quebra da procura, o CEO da Celita lembra as características intrínsecas de uma indústria de mão-de-obra intensiva. “Uma empresa parada, mesmo com os mecanismos de apoio ao lay-off e outras ferramentas para ajudar, é muito dispendiosa. E não nos podemos esquecer que este é um setor que vive de duas janelas de oportunidade para receber encomendas. Se elas não chegarem, não há forma de reagir a meio da época, só seis meses depois, quando for apresentada nova coleção”, sublinha.
No caso específico da Ambitious e da Celita, Paulo Martins acredita que o sucesso em Itália dá visibilidade à marca e à empresa. “Estamos muito bem implantados e Itália, queiramos ou não, continua a ser a vitrina do mundo da moda. Mas não se pense que é fácil, é um mercado e um cliente muito difícil. A diferença é que, enquanto o cliente alemão pressente uma crise e fecha logo a torneira, o cliente italiano tem o culto da moda e do bem-vestir”, refere.
Chegar a novos mercados, mas sobretudo consolidar aqueles onde já está é a grande aposta da empresa no futuro mais próximo, com Paulo Martins a admitir que gostaria de ter, “nos principais países da Europa Central, a representatividade que tem em Itália”. Ao mesmo tempo que trabalha para recuperar aquele que foi o primeiro mercado da Celita, o francês, mas que, “fruto de algumas más decisões”, perdeu fulgor. A criação de uma estrutura própria de distribuição está em marcha.
Do lado dos investimentos, a aposta é no reforço da automação e na descarbonização. Em fase final de execução estão projetos de investimento de 1,3 milhões de euros, apoiados por fundos comunitários. A instalaçao de painéis fotovoltaicos vai permitir gerar poupanças estimadas de 40% nos custos energéticos.