Artur Santos Silva: "Nunca senti a presença do Estado angolano"

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Artur Santos Silva, 71 anos, natural do Porto, casado, quatro

filhos, cinco netos, banqueiro. Fundou o Banco Português de

Investimento (BPI) há 30 anos, do qual é presidente do conselho de

administração, e há poucos meses aceitou um desafio diferente, a

presidência da Fundação Calouste Gulbenkian. Por isso, passa a

maior parte do tempo em Lisboa. A entrevista ocorreu na sua casa de

férias, perto de Viana do Castelo, onde passa muitos fins de semana

e o agosto, em família.

As férias são propícias a balanços. Qual a avaliação que faz

do país e o que é que o preocupa?

O mais importante é reconstruir a esperança no futuro. O país

fez um trajeto de sucesso entre meados dos anos 80 e o final do

século xx, sentíamo-nos uns vencedores. A primeira década deste

século foi muito difícil - o país praticamente não cresceu - e os

últimos dois anos foram piores. É fundamental que o país

redescubra a esperança, que acredite nele próprio, que esta

tragédia, que é o desemprego, que nunca foi tão alto, seja

devidamente contrariada e que o país volte a um caminho de

crescimento.

Não se vê luz ao fundo do túnel.

Sim. Uma pré-condição está atingida - a recuperação de uma

certa credibilidade externa. Assumimos compromissos [com a troika] e

é fundamental cumpri-los. O trajeto de mais de um ano mostra que o

país cumpriu grande parte dos compromissos assumidos. Neste momento,

a Europa e o próprio FMI estão já convencidos de que uma

austeridade muito séria acaba por ter resultados contraproducentes,

sobretudo do lado das receitas fiscais. Não havendo crescimento e

com desemprego há consequências sérias para as receitas e para as

despesas do Estado. O país está em condições de, na próxima

avaliação, tentar conseguir melhorar o caminho do futuro.

Pedir mais tempo, mais dinheiro?

A Europa está numa situação de recessão, ou de não

crescimento económico, e de aumento do desemprego. Isto não era

esperado, como também não era esperada uma situação de

praticamente intervenção externa em Espanha, com o que aconteceu no

sector financeiro. Há uma envolvente externa que justifica

determinados ajustamentos. E há lições a retirar destas políticas

porque se o doente não recuperar, são os médicos e as receitas que

falham. Espero que haja condições para discutir melhor o nosso

caminho.

Mas quando fala de ajustamento, o que deve ser feito?

Os resultados conhecidos deste ano mostram que, provavelmente, sem

receitas extraordinárias não recorrentes, será muito difícil

atingir a meta do défice. Já tivemos uma redução brutal do ano

passado para este, pelo que é relevante que se veja que deve haver

uma extensão do prazo de ajustamento. Devemos continuar a reduzir,

sobretudo olhando para o que seria o défice sem as receitas não

recorrentes.

E mais dinheiro?

Não, mas houve um lapso grande no programa: certas empresas

públicas que tinham défices estruturais crescentes e precisavam de

ser financiadas foram-no pelo sector bancário, com sacrifício para

a economia. Teria sido bom que o programa tivesse tido uma fatia para

o financiamento destas empresas. O maior defeito do programa foi

este. Para o futuro, tudo vai depender de o país conseguir ir aos

mercados em 2013.

Qual é a sua expectativa?

Acho que é muito difícil, mas concordo com o Presidente da

República. É muito importante que o BCE assuma o seu papel.

Essa disposição parece existir, mas depois não acontece nada.

É verdade. O Conselho Europeu decidiu certas coisas, mas no dia

seguinte houve logo países a levantar questões. Depois, Mario

Draghi veio acalmar os mercados dizendo que tudo será feito para

resolver os problemas, mas depois surgem logo oposições sérias da

parte da Alemanha. Mas os mercados perceberam que, se os países que

têm problemas os assumirem de forma clara e encontrarem respostas,

haverá uma intervenção do BCE. Portanto, Portugal e a Irlanda, que

têm programas e estão a cumprir, poderão beneficiar da intervenção

do BCE.

A Grécia está a prejudicar Portugal e Irlanda?

Em relação à Grécia, tem de se assumir que é um caso muito

especial. Não é possível deixar a Grécia ajoelhar.

Já ajoelhou.

É preciso levantá-la. O projeto europeu não é compatível com

ausência de solidariedade. As receitas não resultaram, tiveram um

impacto muito mais negativo do que o esperado. Por outro lado, os

gregos também não souberam responder adequadamente às exigências

aceites. Mas houve um erro: a Grécia é um pequeno problema em

termos de PIB da União Europeia.

Bem mais pequeno do que Espanha ou Itália.

Tinha sido fundamental travar a crise de confiança em relação à

Grécia, com um programa exigente, mas realista. E é fundamental

encontrar um programa de reembolso realista para toda a dívida

grega. Ou se dá mais tempo e juros mais baixos ou reduz-se o valor

do capital. Se isso não está previsto nos tratados, é preciso ver

que a história não se escreve para sempre, tem de se ajustar.

Portugal conseguirá financiar-se nos mercados em 2013?

Será difícil, sobretudo, se o BCE não estiver a comprar dívida

soberana e a sustentar a sua evolução. Mas ainda é possível. A

Irlanda está a fazer um percurso muito positivo e é dado como certo

que conseguirá voltar plenamente aos mercados, já está a emitir

dívida de médio, curto prazo. Temos vindo a fazer um percurso quase

igual à Irlanda.

E se não conseguirmos?

Já foi dito que há disponibilidade para apoiar Portugal. E aí é

fundamental que o caso da Grécia, com perdão da dívida do sector

privado, não volte a repetir-se. É fundamental que nessa nova

ajuda, não se verifique qualquer perda para quem investiu em dívida

pública portuguesa.

Quanto ao Governo, qual a avaliação que faz deste primeiro ano?

Em relação a alguns aspetos da política económica e

financeira, fizemos o que devia ser feito, cumprimos com o que nós

tínhamos obrigado. Ao nível das reformas estruturais, não se vê

ainda uma reforma séria na administração central do Estado.

O que quer dizer com reforma?

Reduzir custos na máquina do Estado. Há pessoas a mais e tem de

se encontrar solução. O Estado tem de fazer o que os bancos fizeram

quando precisaram de reduzir custos- negociar reformas antecipadas.

Os custos foram muito relevantes, mas a prazo foi uma ajuda.

O Governo não tem dinheiro.

Isso tem de ser conseguido e analisado como um custo não

recorrente. E, por outro lado, ainda existem processos ineficazes que

têm de ser corrigidos. Em relação às grandes funções do Estado,

não sinto, por exemplo, que existam avanços na Justiça, o que tem

custos brutais.

Então a política do Governo é a da troika, de controlo do

défice?

Essa condicionante é enorme e é muito difícil fazer coisas com

este espartilho brutal. O país tem respondido muito bem. O sector

produtivo deu sinais muito importantes de vitalidade, de dinamismo e

de capacidade de adaptação. Apesar dos níveis elevadíssimos de

desemprego, o país mostra que é competitivo. O crescimento das

exportações tem abrandado por causa da crise europeia, mas temos

tido diversificação de bens exportados, aumento das receitas com

serviços exportados e novos mercados. Os resultados na frente

externa são notáveis. O equilíbrio externo só estava previsto

mais tarde e antecipámos a sua correção. Mais sério do que o

défice ou a dívida pública é o problema da falta de

competitividade externa e, nesse plano, a resposta tem sido positiva.

Sendo banqueiro, sente diariamente o arrefecimento do

investimento, a falta de confiança e o pessimismo dos empresários?

Nas obras públicas e construção civil é evidente que se está

a viver uma situação muito difícil. Depois, todas as atividades

relacionadas com o consumo interno caíram. As pessoas perceberam que

estavam a gastar demais. Também no sector de serviços,

restaurantes, cafés, se sofre. Já o turismo e a prestação de

serviços a estrangeiros continuarão a sofrer bem menos. Os

empresários que trabalham na frente externa e nos bens

transacionáveis estão bem.

Mas tudo o que falou já é uma fatia enorme da economia.

Tudo o que são empresas que produzem bens transacionáveis, que

evitam importações ou contribuem para aumentar as exportações

estão a resistir muito bem. Agora, sinto que, com esta envolvente

externa, os empresários procuram substituir mercados.

Sente o desespero no dia a dia?

Não tenho dúvida de que quem está nos sectores mais expostos

deve ter situações muito difíceis. Noto, apesar de tudo, um

crescimento do crédito problemático muito menor do que em Espanha,

já que o nosso país não tem uma bolha imobiliária. Tenho sinais

de que a situação não irá piorar muito mais e que nos estamos a

aproximar de um ponto de viragem.

O crédito malparado está a comportar-se melhor?

Tenho visto uma evolução menos desfavorável.

Passos Coelho tem sido um bom primeiro-ministro?

Tem sido positivo no que respeita ao cumprimento do acordo de

ajuda externa. É muito difícil fazer tendo esta limitação

financeira. Mas preocupa-me o futuro do ensino superior. Os cortes

devem ser mais seletivos. O mesmo na Ciência e na Cultura. Naquilo

que eram as questões fundamentais a resolver no curtíssimo prazo,

Passos Coelho assumiu uma atitude correta e a resposta foi positiva.

Mas é fundamental criar um clima de esperança.

Um dever do primeiro-ministro.

Claro. É fundamental uma melhor comunicação dos resultados e do

que está a ser feito. Temos de assumir metas devidamente

quantificadas, prestar contas e criar esperança. A redução do

desequilíbrio externo, por exemplo, não tem sido suficientemente

enfatizada.

Mas as metas e o calendário estão definidos pela troika.

Há uma outra série de domínios em que o Governo deveria assumir

objetivos devidamente calendarizados. Coisas até muito simples. Já

em relação às reformas, tem havido um défice de comunicação.

Muitas vezes só quando é dito que não se fez nada é que se

explica o que foi feito. Uma boa comunicação também ajuda a

alterar o clima psicológico. Para isso, antes de virem troikas e de

serem apresentados os resultados dos exames, há que saber comunicar

os objetivos. Há um défice na criação de esperança nas pessoas.

Concorda com o chumbo do Tribunal Constitucional ao corte dos

subsídios na função pública?

Foi um erro, uma interferência na capacidade do poder político

para resolver problemas. É indiscutível que os trabalhadores da

função pública têm aspetos favoráveis que mais ninguém tem.

São privilegiados?

Sim, sobretudo em relação à segurança no emprego e na

progressão de carreira. Em alguns aspetos estão melhor do que os

restantes trabalhadores, pelo que é natural que haja sacrifícios

que os afetem mais.

E agora, faltam dois mil milhões de euros. Mais austeridade para

compensar a falta desse receita?

Este ano o problema não se coloca e isso é importante. Em

relação ao futuro, a austeridade será a mesma, já que o Governo

terá de resolver o problema com outros recursos. A não ser que haja

um gradualismo maior nas metas do défice. Se nos derem mais tempo, é

natural que mais medidas não sejam necessárias.

O ministro da Economia foi um erro de casting?

Não concordo com o modelo de constituição do Governo. O

ministro da Economia tem um conjunto de responsabilidades

desajustado. E o mesmo na Agricultura e Ambiente. São dois

ministérios sobredimensionados. Era preciso corrigir isto na

primeira oportunidade.

E as pessoas são as adequadas?

O ministro da Economia devia ter uma preocupação maior em

comunicar. Tem estado ausente, mas acho difícil julgar pessoas

concretas.

O caso de Miguel Relvas beliscou o Governo?

Sim. Num momento destes, em que pedimos muitos sacrifícios às

pessoas, temos de acreditar que quem nos governa está a fazer as

coisas o melhor possível e com grande isenção. A história da

licenciatura do ministro não enobrece a pessoa. E abalou a

credibilidade do Governo.

O ministro tem condições para se manter em funções?

Espero que este problema seja resolvido prontamente.

O que quer dizer com isso?

Chega, não quero dizer mais nada, não preciso de ser mais

explícito.

Com esta crise, as pessoas alteraram os seus comportamentos.

Sentiu isso na sua vida pessoal?

Sou privilegiado e sofro menos do que outras pessoas, mas passei a

ter mais preocupação com os meus comportamentos. Se gostava de ter

um quadro, penso duas vezes. Não estamos a falar de coisas

essenciais, nas quais, felizmente, não fui beliscado. Mas penso duas

vezes nos meus comportamentos, já que as coisas vão ser mais

complicadas.

Teme pelo futuro dos filhos e netos?

Claro. Tenho uma filha que esteve desempregada porque trabalhava

num banco que foi comprado por outro, estrangeiro, e que ao fim de

dois ou três anos resolveu despedir todas as pessoas que tinham

origem no banco comprado. Foi uma preocupação, mas ficou resolvido

porque se encontrou outra saída profissional. Em relação à

família, procuro que os meus netos tenham a melhor educação

possível, porque essa é a melhor maneira de se defenderem.

A melhor saída é no estrangeiro?

Espero que haja condições para ficarem em Portugal. Gostaria

muito que os meus netos se fixassem cá.

Quantos netos tem?

Cinco. O mais velho tem dez anos e o mais novo, dois.

Já sentiu a necessidade de ser mais discreto por ter dinheiro?

Fui sempre relativamente austero nos comportamentos. Não tenho de

esconder nada, sempre defendi que, num país com muita desigualdade,

a utilização do dinheiro deve ser muito racional. Não tem sentido

destruir dinheiro. Devemos, neste momento, ser mais solidários, mas

não vejo razões para alterar os meus comportamentos, preocupado com

juízos de terceiros.

O BPI recorreu à ajuda do Estado e, por isso, haverá corte dos

salários dos administradores. Já sofreu esse corte?

Já, desde julho. Nos administradores não executivos, como é o

meu caso, foi um corte de 50%. Felizmente, tenho outras fontes de

rendimento.

Concorda com essa medida?

Tem uma carga demagógica, mas compreendo. Tendo sido necessária

a ajuda do Estado, temos de nos sujeitar a um conjunto de regras.

Deveria ser de outra maneira, mas, às vezes, é bom arranjar umas

medidas que sirvam de sinal. Não é o melhor caminho, mas compreendo

e aceito.

O BPI pretende antecipar o reembolso da ajuda do Estado?

O motivo pelo qual precisámos de ajuda é um absurdo. Sofremos

mais com a dívida portuguesa e das autarquias. E as regras, ainda

por cima, são rígidas e estáticas. O Estado reembolsou mil milhões

de dívida em junho, mas é como se isso não tivesse acontecido.

Hoje, já teríamos entre 600 e 700 milhões a menos de necessidades.

Espero que as exigências sejam ajustadas com o passar do tempo e com

a alteração das circunstâncias. Isso permitiria reembolsar o

Estado. Mas, sobretudo, espero que estas exigências desapareçam

assim que tivermos um BCE com as mesmas preocupações do que o Banco

de Inglaterra, o Banco do Canadá, o Banco do Japão e a Fed, que são

não só defender a moeda mas também a dívida pública.

Concorda com a crítica de que a banca não está a ajudar a

economia?

Posso falar pelo BPI. Fomos o primeiro banco a anunciar linhas de

crédito de montantes significativos para todos os segmentos das

empresas e estamos a ajudar a colocar dívida das grandes empresas. O

BPI está com 107% de relação entre crédito e depósitos, quando o

objetivo indicativo para o final de 2014 é de 120%. Gostaríamos

muito de estar a conceder mais crédito à economia, mas a procura é

baixa. A razão principal é essa. Mas, parece-me muito positivo que

o Governo tenha mantido mecanismos de apoio às empresas, que limitem

o risco dos bancos.

O BPI assistiu a movimentações na sua estrutura acionista. Os

espanhóis do La Caixa e Isabel dos Santos reforçaram e o Itaú

saiu.

O Banco Itaú, na reformulação que fez da sua estratégia,

entendeu concentrar-se, sobretudo, na América Latina. Desinvestiu em

Portugal, lamento, mas a vida é assim.

Entretanto, reforçaram os espanhóis e os angolanos.

O La Caixa é a maior instituição bancária em Espanha, é muito

bem gerido e, por isso, é um excelente parceiro para ajudar o BPI

nos desafios que tem pela frente. A eng.ª Isabel dos Santos também

reforçou, o que mostra que acredita no BPI e no seu futuro, o que

também é positivo. Por outro lado, é acionista da Unitel, nosso

parceiro em Angola.

As alterações geraram instabilidade?

Houve a saída de um acionista, uma situação que foi resolvida

pelos acionistas existentes, o que é extremamente positivo. O

aumento de capital, ao contrário de outros, não precisou de tomada

firme porque os acionistas o asseguraram. Temos na estrutura

acionista três instituições relevantes. O La Caixa, que é o maior

acionista da Repsol, da Telefónica, da Abertis, das Águas de

Barcelona, entre outras grandes empresas. A Allianz, que é dos

maiores grupos seguradores do mundo; e Isabel dos Santos.

Como é que vê o enorme interesse dos angolanos em Portugal?

É natural, a língua é um fator fortíssimo de aproximação. E

a nossa presença em Angola, apesar de a saída ter sido traumática,

deixou elementos afetivos fortes. Vejo isso como muito positivo. E é

uma porta de entrada na Europa.

A possibilidade de um banco português passar a ser controlado por

angolanos preocupa-o?

Importante é que os bancos portugueses sirvam a economia da

melhor forma. Para apreciar a idoneidade dos investidores e a

estabilidade do investimento há o Banco de Portugal.

É a idoneidade que tem de ser analisada, não a nacionalidade?

Claro. E a estabilidade do investimento, porque é desejável que

um grande acionista seja estável.

Isabel dos Santos é filha do presidente de Angola. A presença do

Estado angolano não coloca problemas?

Até à data não tem colocado problema nenhum. A gestão do banco

atua com a maior independência. Não tem havido qualquer

comportamento menos correto de nenhum acionista.

Ainda não sentiu o Estado angolano dentro do seu banco?

Não, de maneira nenhuma.

A gestão sofreu alguma alteração?

Não, nem está previsto.

Sente que existe uma disputa pelo controlo do BPI, entre o La

Caixa e Isabel dos Santos?

Não. Num caso, trata-se de um acionista institucional, no outro,

é um investidor privado, com a sua carteira de investimentos. Sobre

acionistas, não falo, mas posso assegurar que o banco atua com a

maior independência.

Em que fase está do seu mandato?

Termina no final de 2013.

A sua intenção é continuar, agora que assumiu também a

presidência da Calouste Gulbenkian?

A intenção, neste momento, é cumprir o meu mandato. O resto não

depende de mim, mas dos acionistas e das circunstâncias.

Não pensou sobre o assunto?

Não tenho de pensar sobre o assunto, o que tenho é de cumprir o

mandato, o que faço com muito gosto.

Algumas empresas portuguesas estão prestes a sair de bolsa - a

Cimpor e a Brisa - e a ser compradas por estrangeiros. A perda de

propriedade e a falta de grupos portugueses é preocupante?

Tenho pena que não haja em Portugal estruturas empresariais que

assumam um papel relevante nas principais empresas. Lamento, mas não

houve acumulação de capital. É o custo de termos tido uma

Revolução em vez de uma reforma. Foi um grande erro termos

nacionalizado muitos sectores. E quando as empresas foram

privatizadas, os grupos portugueses que se interessaram

alavancaram-se demasiado.

Temos um défice de empresários.

Não digo isso, mas não houve uma acumulação de capital que

lhes permita corresponder às oportunidades que surgem.

Chineses na EDP e na REN, angolanos na Zon e nos bancos,

brasileiros na Cimpor. Uma inevitabilidade?

O investimento estrangeiro é desejável. É importante que as

empresas tenham portugueses no seu capital, mas vivemos num mundo

aberto e o que é importante é que haja investidores nessas empresas

e que os reguladores atuem. As empresas devem ser geridas, na medida

do possível, de acordo com os interesses portugueses e isso acontece

quando os gestores conhecem o mercado e são pessoas ligadas à vida

do país. Por outro lado, os reguladores devem exigir às empresas

que cumpram uma missão de interesse pelo país. O país precisa

imenso de investimento estrangeiro, que traga capacidade de gestão,

mercados e tecnologia.

Assumiu a presidência da Gulbenkian em maio. A Fundação tem

1600 milhões aplicados. Como é que se gere este dinheiro no meio de

uma crise?

Numa situação de grande instabilidade, temos sofrido as

vicissitudes do mercado, mas a Gulbenkian, como qualquer fundação,

não é um investidor com movimentos bruscos de curto prazo. Essa é

a razão por que tendo partido de um património muito modesto hoje

já estamos com 3000 milhões de euros. E depois, temos os interesses

no petróleo e no gás que, nesta incerteza, se têm valorizado

bastante e os rendimentos têm sido muito significativos.

O que é que gostava de poder fazer na Fundação?

Estou a chegar. A Fundação tem uma política que é, sobretudo,

a de investir nas áreas da Cultura, Educação, Ciência e Charity

(expressão do seu fundador). A área onde, num momento como este,

temos de intervir mais é na Charity, sobretudo na inovação social

e na solidariedade social, na mobilização da sociedade civil para

problemas novos. É aí que tem havido uma aposta muito forte.

Como é que consegue conciliar a presidência do BPI com a da

Fundação?

Quando me convidaram para a Fundação disse que só poderia

aceitar se me mantivesse no banco.

Consegue dar conta das duas coisas, sem desinvestir no BPI?

Consigo. Reduzi muito a intervenção em outras instituições,

como a Universidade de Coimbra e a Casa da Música. A Fundação

Gulbenkian é, de facto, uma função muito exigente e tenho

procurado conciliar sem prejuízo de nenhuma.

O BPI precisa de si?

Tenho um contributo a dar ao banco e assumi esse compromisso. E

sinto-me muito ligado à instituição porque fui o seu fundador

primeiro e promotor.

É o pai do banco?

Não, mas vejo-me muito bem nas atuais funções.

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