Sobre o Rio de Janeiro não se abateu apenas a maior crise financeira da história, que levou à paralisação de serviços públicos básicos. Nem o caso extremo da violência, que levou o presidente Michel Temer a assinar decreto de intervenção federal na segurança para “restabelecer a ordem” e “derrotar o crime organizado”. Nem sequer o trágico incêndio do Museu Nacional, que levou ao desaparecimento de boa parte da memória histórica do país e não só. Abateu-se também um vendaval político, que levou a maioria das lideranças para a cadeia.
Desde logo, o ex-governador Sérgio Cabral, cuja gestão cleptocrata já lhe custou 170 anos de penas acumuladas de prisão. Mas também Eduardo Cunha, o todo-poderoso ex-presidente da Câmara dos Deputados que, logo depois de cumprir o serviço sujo de provocar o impeachment e derrubar Dilma Rousseff, foi preso e preso continuará. E ainda Jorge Picciani, que de influente presidente da Assembleia Regional do Rio passou a presidiário, por corrupção, associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Além destes três, todos do MDB, o controverso casal Anthony Garotinho-Rosinha Garotinho, do PRP, também anda sempre num entra e sai da cadeia, acusado de crimes eleitorais.
E, no entanto, Cabral, Cunha, Picciani e Garotinho lá estarão na corrida eleitoral de 2018. Em vez de Sérgio, concorre como deputado federal o filho Marco Antonio Cabral, o Cabralzinho, “um jovem com história”, como se vende no jingle de campanha; em vez de Cunha, a filha, Danielle, com a missão de “carregar o legado político” do pai na Câmara dos Deputados; não há Jorge Picciani mas há Leo, o seu primogénito, rumo a mais um mandato em Brasília, indiferente à sorte do pai porque “todos os partidos brasileiros tiveram quadros com problemas”; e preso o casal Garotinho, o casal de filhos, Clarissa e Wladimir, tentará a sua sorte rumo ao parlamento federal.
Já se sabe que, apesar da força dos lóbis da Bíblia (evangélicos neo-pentecostais e afins), da Bala (polícias, militares e afins) e do Boi (pecuaristas, latifundiários e afins), o maior de todos eles na política brasileira é o do DNA. Quase sete em cada dez congressistas (319 deputados e 59 senadores) tem familiares na política.
O antigo governador Jackson Lago empregava 23 parentes no seu executivo; há clãs espalhados por quase todos os estados do Brasil, dos Sarney do Maranhão aos Campos de Pernambuco, passando pelos Neves de Minas Gerais, pelos Virgílio do Amazonas, pelos Calheiros de Alagoas, e por tantas outras famiglias que governam, e se governam, há séculos; de entre um grupo de candidatos falados para a função, o prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella escolheu para secretário-geral da cidade o inexperiente Marcelinho Crivella.
E segundo a manchete do jornal O Globo de ontem, o MDB destinou a maior fatia das verbas públicas de campanha a que tem direito a esses três herdeiros, Cabralzinho, Danielle e Leo, de tão nefasta herança.
Incêndios devastadores, tiroteios em série ou crises financeiras são fenómenos terríveis mas que encerram neles, por natureza, algo de passageiro. A tragédia das castas no poder, apesar da criminalização de uma ou outra geração, tem o potencial de se tornar ainda mais danosa, por ser, a história do Brasil prova-o, perene, permanente, definitiva, eterna.