Colombo e NorteShopping. Os gigantes reinventam-se

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"Era uma vez um centro com um jardim no meio de 400 lojas." O jardim e as esplanadas deste anúncio de 2010 continuam lá. As lojas é que são diferentes. E pelo menos 18 estão fechadas. É possível que seja um recorde na história do centro comercial Colombo, desde que abriu em setembro de 1997.

Aliás, o documento de junho da casa-mãe Sonae Sierra indica que o centro tem 371 lojas a funcionar. Algumas das lojas encerradas são pequenas e ficam em ruas paralelas, menos visíveis ao público. Outras são espaços emblemáticos, como o Funcenter, nada menos que 12300 metros quadrados vazios, no que foi o maior espaço de entretenimento "indoor" da Europa.

Agora está fechado há sete meses e vai reabrir como Primark, sendo uma das poucas lojas encerradas que já têm destino certo. Dos espaços abandonados, nove estão no piso zero. Ao pé do globo gigante que encarna o símbolo do centro, há quatro lojas fechadas. A crise apanhou o Colombo na curva? A meca do consumo nacional perdeu o fulgor?

Pelo menos clientes perdeu, e muitos: só em 2012, passaram pelo Colombo menos 1,6 milhões de visitantes, passando de 23 milhões em 2011 para 21,4 milhões. Antes da crise (2007) tinha, em média, 26 milhões de visitantes anuais. Bateu o recorde em 1999, com 35 milhões.

O diretor do centro Colombo, Paulo Gomes, argumenta que "o encerramento e abertura de lojas é uma atividade normal num centro comercial, sendo que nos últimos anos o Centro Colombo teve uma rotação na ordem dos 10%." O responsável acrescenta que as mudanças se devem ao "dinamismo" dos retalhistas, que experimentam novidades para fazer face à crise.

Carlos Récio, diretor de agência de comércio da consultora imobiliária CB Richard Ellis, diz mais ou menos o mesmo: que o encerramento de lojas "não significa necessariamente que seja um resultado direto de uma falta de interesse dos operadores." Poderá ser o reflexo da transferência de operações, rearranjo de "layout", nova distribuição ou reorganização.

Paulo Gomes admite que o centro "não está imune à situação económico-financeira que Portugal atravessa", o que é evidente pelos números. O que não parece ter caído foi o valor das rendas pagas pelos lojistas no Colombo e noutros centros de primeira linha. O mais recente estudo da CBRE sobre imobiliário comercial em Portugal mostra que as rendas "Prime" se mantoveram estáveis em 2012. Carlos Récio admite pressão sobre os centros, "não ficando certamente imune o Colombo a esta dinâmica", mas a descida tem acontecido sobretudo nos centros em localizações secundárias e terciárias.

A aura do Colombo

Viriato Filipe, diretor de marketing da Fnac, está certo de que "o Colombo não perdeu a aura." A cadeia de eletrónica é uma das suas lojas mais importantes e funciona como um íman, que atrai clientes para o centro todo. "O Colombo continua sempre a ser uma referência e é comercialmente o mais atrativo do país." Em 2007, quando foi remodelado, o valor de mercado ultrapassava 800 milhões de euros.

"A locomotiva da Fnac em Portugal é a loja do Colombo", continua Viriato Filipe. É "a campeã de vendas", muito à frente da número dois, que oscila entre a do NorteShopping e a do Chiado. A loja é tão importante que, quando atrai menos público, todo o centro se ressente. "Daí que também beneficiemos de vantagens em termos de renda."A loja tem conseguido renegociar os valores que paga, o que flutua conforme as vendas.

"Quando abriu a Media Markt, houve uma tendência das pessoas irem todas lá. A quebra significativa da Fnac do Colombo teve reflexos imediatamente no centro todo", lembra. "Se temos menos vendas eles não podem pedir tanto de renda e têm de participar para aumentar a nossa atratividade e capacidade de reação perante a conjuntura." Esta conjuntura não é apenas a crise económica, é também a menor procura por produtos como CD e DVD. A faturação caiu, embora o tráfego se tenha mantido estável.

É certo que a queda das vendas não surpreende. O desemprego em Lisboa e Vale do Tejo subiu 7,1% no segundo trimestre do ano, em relação ao mesmo período de 2012. Em todo o país, o consumo privado registou um recuo histórico de 5,6% em 2012 e o Banco de Portugal aponta para nova quebra, 3,4%, em 2013.

Mas um dos problemas do Colombo foi a onda de incidentes de segurança que ocorreram há cinco anos, refere o responsável da Fnac. "Isso afugentou mais os clientes e redefiniu o público alvo do próprio centro. Depois estabilizou." A crise no consumo interno fez o resto. Praticamente todos os lojistas a quem se pergunta como está o negócio falam dos turistas como a cola que segura as vendas e impede quebras maiores das receitas.

À boleia do turismo

"Este centro vive de angolanos", diz a empregada da loja Luísa de Sá Boutiques, encolhendo os ombros e sorrindo. Os preços dos vestidos de cerimónia que vende são elevados, é um produto diferente e muito sazonal - vende-se bem no verão porque há muitos casamentos. Mas os portugueses que antes gastavam lá 200 e 300 euros de uma vez agora vão à procura de vestidos abaixo dos 100 euros. "Alguns têm vergonha, mas nós vemos que olham para as etiquetas e procuram algo mais barato." O que mantém o negócio rentável são os turistas, em especial angolanos. "Também há brasileiros e espanhóis, chineses." É disto que se fala entre lojistas e com a administração, refere, embora a renda da loja não tenha descido por causa da crise.

Na Elena Miró, especialista em tamanhos grandes, ouve-se a mesma coisa: são os turistas que fazem as grandes compras. "Os angolanos têm o maior potencial comprador", diz a empregada, que tem notado mais clientes da Rússia, à procura de tamanho maiores porque "elas são fortes."

Nada que pareça preocupar os clientes da Casinha do Pão. Os pastéis de nata acabados de fazer apareceram na montra e bastaram dois minutos para haver fila. Voaram pastéis, empadas, tigeladas, pão quente e biscoitos. A empregada tentou seduzir os clientes para aproveitarem as promoções: se levar três, paga menos por cada um. Mas não funcionou. Já não funciona. A montra da icónica loja de doçaria, situada na praça central do Centro Comercial Colombo, continua a atrair a gula dos consumidores mas esbarra na sua carteira.

"As pessoas estão a comprar menos", diz a empregada, enquanto embrulha delícias e recebe o dinheiro. Se a pessoa vai lá pedir dois pastéis, não leva três só para ter desconto. O fabrico foi ajustado à quebra das vendas, mas o negócio, detido pela família Pecegueiro Veríssimo, continua a valer pena, garante.

A faturação do Colombo também caiu, mesmo com a inaguração do complexo de escritórios nas Torres ali ao lado. Diz uma lojista que "as pessoas dos escritórios começaram a trazer marmita." Paulo Gomes garante, ainda assim, que o centro "tem tido, de um modo geral, um desempenho melhor do que o mercado." Promete duas novas áreas de lazer para o segundo semestre, depois do encerramento do Funcenter, e refere os conceitos experimentais das "flash stores", lojas com contratos curtos, que podem ficar até seis meses neste modelo. Também lembra que várias insígnias abriram no primeiro semestre do ano: Guess, Esbelta, Promod e Swatch são algumas delas. "O Centro Colombo continua a ter lista de espera, mas também mantemos os mesmos critérios de exigência com as lojas que apresentamos aos visitantes", assegura o diretor. "Continuamos a captar novos lojistas e a ser local de eleição para a fixação de novos conceitos e entradas de novas marcas no mercado nacional", ressalta.

É o caso da Kiehl"s, marca norte-americana de cosmética, que abriu no Colombo a sua segunda loja em território nacional. Vanessa Chabert, responsável de loja, diz que "foi feito um estudo de mercado e o Colombo ainda é o sítio, em termos de centro comercial, onde se vende mais." Cerca de 90% dos clientes que entram na nova loja desconhecem a marca, ao contrário da clientela fiel da loja de rua no Chiado. "É a oportunidade de chegar a mais clientes e de expandir a marca", indica. "Num centro comercial os horários são mais alargados. A nossa loja de rua fecha às 19h30 e aos domingos, aqui temos um horário alargado e estamos abertos todos os dias."

NorteShopping

É o maior centro comercial da região Norte, inaugurado pela Sonae Sierra em 1998. Também sofreu uma queda no número de visitantes, embora menor que a do Colombo. Não se veem lojas fechadas, mas há lojistas a renegociar as rendas.

A Papelaria Sousa Ribeiro, que tem uma loja de rua no centro do Porto, foi "uma loja convidada", e por issoteve benefícios na abertura. "As rendas são altas", admite uma responsável pela loja, mas frisando que compensa ter a loja no centro comercial. "Estamos aqui há dois anos e temos produtos exclusivos, de material de belas artes e mesmo material escolar, e as pessoas que procuram estes artigos têm algum poder de compra." Além disso, "tem a vantagem de estar aberta à noite e aos feriados, o que não acontece com a loja de rua".

A Área, que tem a sua única loja no Norte no NorteShopping, não teve facilidades nas rendas, "mas por sermos únicos tivemos facilidades de ingresso". Além disso, adiantou o responsável de loja, ao fim de cada contrato, cinco anos, "as rendas são renegociadas, e da última vez foi renegociado para baixo porque o shopping está a perder clientes".

O mesmo aconteceu com a Natura, que renegociou as rendas em função "da faturação total do centro comercial."O responsável de loja diz que "os clientes agora procuram oportunidades de negócio, estão mais atentos a promoções e saldos para fazer as suas compras." A loja também está com um decréscimo das vendas, "na ordem dos 3 a 5%."

Quem também viu uma alteração no perfil dos clientes foi a loja da Vista Alegre. "Agora são mais classe média alta, e mesmo assim conseguimos manter o mesmo nível de negócio." Esta "já foi uma das lojas Vista Alegre que mais vendeu em todo o país. Estar neste centro comercial é uma mais valia pela afluência de visitantes." Já o Boticário que abriu a sua loja no NorteShopping há cerca de meio ano, não se queixa das vendas: "até subiram, porque aqui faz-se milagres." Além disso, a aposta neste centro comercial foi abrir uma mega store. "Todos os produtos da Boticário vêm para esta loja."

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