Corta!
Deixem-me confessar. Sou uma medricas. Ao pé de mim, o Scooby-Doo é o Rex, o Cão Polícia. Sou tão assustadiça que só posso ver filmes de terror com mais de 20 anos, onde os efeitos especiais já são tão manhosos que até se veem os cordelinhos a segurar o lençol do fantasma. Nem tenho medo, inflaciono, tenho medos. E não há cão que me valha.
A história da heroína moderna que escala vulcões e nada com tubarões sem a menor das preocupações, não passa de um autocolante. Eu grito, rezo e só não me dá para chorar porque fico com medo de me afogar. Além de medrosa também tenho queda para hipérbole, mas a boa miaúfa é isso mesmo, um espelho de feira popular.
Nem sempre foi assim. Quando era pequenina, era toda She-Ra! Mas a Viagem não poupa ninguém. É como aquele portal da História Interminável em que o herói descobre que é cobarde e vice versa. A Viagem é veneno e antídoto. Faz-me ter medo varias vezes por dia e coragem mais vezes que isso. Já passei por acidentes de viação, tremores de terra, trovoadas tropicais, já surfei dunas maiores que a árvore de natal do Terreiro do Paco, saltei de paraquedas, velejei mares piores que o velho anuncio do Old Spice, já fui mordida e picada, roubada e enganada. E em todos esses momentos, valentemente... chamei pela mãe da minha mãe da minha mãe.
O conto assombroso da semana, passa-se em Ometepe, a Ilha da Fantasia nicaraguense. Imaginem uma ilhota com dois vulcões, no meio de um lago gigantesco, tropical e paradisíaca, onde todos os desejos podem ser realizados (desde que não se deseje absolutamente nada). Ali desembarquei, depois de uma hora numa barcaça que me fez vender a alma ao capeta, se me fizesse chegar sä e seca. Pode ter sido por isso, ou por outras forcas paranormais que fui parar aquela casa.
A decadência já se tinha apoderado do sítio e a família que lá vivia, segredava pelos cantos. Havia qualquer coisa de estranho no ar, além do cheiro a coelhos e a laca (era um antigo salão de beleza). Decidi dar uma volta pela vila, para descobrir que ali se refugiava uma bizarra seita francesa new-age dos anos 70, obcecados com trancas, culpados de um serie de atos bizarros envolvendo criancinhas. Coisas estranhas se passavam.
Apesar de maravilhosa, a ilha era assombrada pelo espírito de Chico Largo, um curandeiro indígena com o poder de se transformar em qualquer animal, que tinha sido caçado por engano, sob a forma de um veado. Andei por esses bosques encantados e sombrios, a fugir do barulho dos macacos gritadores e a ser perseguida por pássaros azuis. O espírito de Chico Largo estava vivo e não propriamente contente.
Nessa noite cheguei a casa tarde. As luzes estavam apagadas e as velas faziam dançar as coisas. Ao fundo do pátio alguém cantava uma ladainha monótona. Aproximei-me pé ante pé e o que vi, deixou-me os cabelos no ar. Um grupo de pessoas rodeava uma mulher que tremia e estrebuchava ao ritmo das rezas. O ritual foi crescendo que nem ópera e culminou quando o "pastor" agarrou um dos coelhos...
No dia seguinte, tudo tinha voltado ao "normal". A família agia como se aquela tivesse sido outra noite passada a ver o 1,2,3. Reparei que já não havia coelhos. Fui dar uma volta. Nessa noite quando cheguei havia um caixão em cima da mesa da cozinha. (É nestas alturas que eu me arrependo de ser tão forreta com os quartos.) A senhora estava morta e a aldeia em peso, feita zombi, tinha começado a chegar à casa. A rua encheu-se de cadeiras e o velório foi ali mesmo, ao lado do meu quarto. Lá para as cinco da manhã, quando finalmente foram para o cemitério, a casa ficou silenciosa. A única coisa que se ouvia. Era o barulho dos coelhos. Zoinks!
Decidi fugir. Ao pé daquilo a viagem de barco parecia um passeio. E deu-me para pensar no Medo e em como em qualquer episódio do Scooby Doo, os verdadeiros fantasmas não são forcas transcendentais, bicharada com nome em latim ou desastres naturais. O vilão da poltrona é sempre uma pessoa. O bicho-papão é filho de gente. E quando finalmente se vira, para eu lhe ver a cara, percebo que sou eu própria. (Entra o som de gargalhada maléfica).