Nos Jardins e no Leblon, os bairros mais nobres
das duas maiores cidades do Brasil, comenta-se a última peça em
cartaz, o mais recente filme europeu ou argentino e os livros de
contos da prémio Nobel de 2013. Debate-se a real situação da
Ucrânia, dividida entre a União Europeia e a Mãe Rússia, e
aplaude-se o aperto de mão entre Obama e Raúl Castro em
Joanesburgo, o último milagre de Nelson Mandela.
Sabem-se de cor as razões porque o PIB
brasileiro continua a crescer como pibinho e as causas da queda das
ações da pública e mal gerida Petrobras. Conhecem-se de fio a
pavio os perigos que o país corre nas mãos da presidente Dilma
Rousseff e do ministro Guido Mantega, ambos míopes e inábeis na
condução da economia.
E o que se passa no Pará, sabe-se? E o que
acontece na Paraíba, conhece-se?
Vinícius Torres Freire, colunista do jornal
"Folha de São Paulo", tão consumido pelas classes média e alta
dos tais Jardins paulistanos, assume, num misto de humildade e
lucidez, que não sabe nem conhece. Ou não sabia nem conhecia.
Até que - conta Freire - uma reportagem
recente o levou ao nordeste brasileiro profundo e o deixou de caras
com um autocarro com a inscrição "Programa Caminho da Escola".
Informou-se e soube que esse programa transporta mais de um milhão
de crianças brasileiras de graça para escolas, muitas vezes, a
horas de distância das suas casas.
O cronista atalha então para o "Programa
Crescer", uma iniciativa de micro-crédito a juros baixos ou
negativos que já financiou os pequenos negócios de 3,5 milhões de
pessoas, e para o "Pronatec", que oferece cursos técnicos a mais
de cinco milhões de matriculados.
Embalado, Freire recorda os (mais conhecidos)
programas "Mais Médicos", cujo impacto alcança 46 milhões de
cidadãos, "Minha Casa, Minha Vida", que beneficia 4,6 milhões
de pessoas, e "Bolsa Família", que retirou cerca de 16 milhões
de brasileiros da situação de pobreza extrema.
Crítico da política macro-económica do
governo - que continuará a sê-lo - o jornalista entendeu o país
ao sair dos Jardins e enfiar-se pelos sertões acima.
É o tal Brasil surdo de que já se
falou aqui. O Brasil
onde a imprensa faz da avaliação aos governos do PT uma espécie de
dogmático Fla-Flu, em que se se viaja da crítica gratuita numa área
ao elogio pegajoso na outra, sem um meio-campo de bom senso.
Por isso é que no Pará ou na Paraíba profundos se acredita que
o pibinho, a má gestão da Petrobras ou as acusações de miopia ao
ministro da economia são invenções da imprensa ao serviço das
elites dos bairros nobres cariocas e paulistanos. E por isso é que
no Leblon e nos Jardins não se entende que Dilma esteja tão
confortavelmente à frente nas sondagens a 10 meses das eleições.
Jornalista
Escreve à quarta-feira
Crónicas de um português emigrado no Brasil