São poucas as indústrias que aceleraram em tempo de pandemia, mas a produção de bicicletas é uma delas. Com os europeus à procura de alternativas aos transportes públicos, e também aos ginásios, as fábricas portuguesas não têm mãos a medir para dar resposta às encomendas. E Portugal, que no ano passado destronou a Itália e ascendeu ao lugar de campeão europeu na produção de bicicletas, com 2,7 milhões de unidades montadas e exportações no valor de 402 milhões de euros, pedala em força a caminho de um novo recorde em 2020.
Apesar dos dois meses de paragem do setor, no início da pandemia, as exportações, em setembro, estavam., apenas, 5% abaixo do período homólogo. O que leva Associação Nacional das Indústrias das Duas Rodas, a Abimota, prever que as vendas externas registarão, neste ano, um acréscimo de 10%, no mínimo. E que o setor "continuará a crescer, sobretudo na mobilidade elétrica", ao longo da próxima década. O desafio seguinte é a aproximação crescente às grandes marcas internacionais, trazendo para Portugal também a área do desenvolvimento de produto.
Esta é uma indústria em que Portugal dá cartas no mundo, dispondo da maior fábrica de montagem de bicicletas da Europa, a RTE, o maior fabricante de rodas, a Rodi, e ainda a primeira unidade do mundo a produzir quadros de bicicleta em alumínio de forma robotizada, a Triangle"s, ou a Gelu, de Vila Franca de Xira, que faz os selins mais leves do mundo, com apenas 24 gramas, para competição. Entre outros exemplos.
Estamos a falar de um setor com larga tradição em Portugal, que conta com cerca de 50 empresas, entre fabricantes de componentes e montadores de bicicletas, distribuídas de Braga a Vila Franca de Xira. Dá emprego direto a mais de oito mil pessoas, e indiretamente, a mais de 20 mil. E tem vindo a atrair, crescentemente, empresas de capital estrangeiro, que aqui se instalam para fornecer este cluster. "Temos players espanhóis, chineses, designadamente de Taiwan, alemães, holandeses... são investimentos variados e há mais em negociação, com a entrada de novos investidores e em áreas em que, na Europa, estamos ainda carentes, como é o setor dos motores para bicicleta", diz Gila Nadais, secretário-geral da Abimota. A Abimota tem em curso a segunda fase do Portugal Bike Value, o programa de promoção internacional das duas rodas nacionais, um projeto apoiado pelo Compete e com um valor global da ordem dos 2,5 milhões de euros. E que recentemente foi distinguido com o Prémio Europeu de Promoção Empresarial.
Em fase de instalação dos equipamentos e com arranque da produção previsto para muito breve está a primeira fábrica de quadros de bicicleta em carbono fora da Ásia. Trata-se da Carbon Team, em Vouzela, um investimento conjunto de capitais portugueses, alemães e de Taiwan, e que vai dar emprego a mais de uma centena de pessoas. Ao contrário da Ásia, onde os quadros de carbono são feitos por "processos manuais", esta será uma unidade "muito automatizada", constituindo um projeto "muito diferenciador".
É com base em exemplos como este e com a procura a disparar em todo o mundo, designadamente por via da descarbonização do planeta, que Gil Nadais acredita que o setor continuará a "crescer significativamente", em especial na mobilidade elétrica. Nos últimos três anos, as exportações de bicicletas elétricas passaram de 19 para 52 milhões de euros, e valem já mais de 10% das vendas totais ao exterior. E, neste ano, só o segmento elétrico está a crescer mais de 30%.
As cargo bikes, para o setor da distribuição nos grandes centros urbanos, ou as speed bikes, a próxima geração de elétricas que atingirão 45 km/hora (em vez dos atuais 25), e cujo licenciamento se discute na Europa, são algumas das grandes oportunidades de futuro. "Há uma enorme evolução no setor das duas rodas, a chamada mobilidade suave, e aquilo que queremos é acompanhar e dar resposta ao que os clientes mais exigentes procuram", diz Gil Nadais.
Um dos grandes desafios do futuro, acredita este responsável, é trazer para Portugal, também, o design e conceção de produto, uma "área que temos ainda muito pouco". O laboratório de ensaios da Abimota - o único na Península Ibérica e que tem entre os seus maiores clientes marcas francesas e inglesas - deverá ser "o motor da evolução e da inovação" no setor, frisa.